Mercado teatral dança conforme o som dos musicais

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Espetáculos são cada vez mais sucesso no Brasil e ajudam a empregar artistas e técnicos

Há 10 anos, eram poucos os musicais em cartaz no Brasil, o que contrastava com os megassucessos de espetáculos como “Cats” e “O Rei Leão” na Europa e nos Estados Unidos.

Dizia-se que o brasileiro não estava acostumado a espetáculos do tipo. A situação agora é outra. Basta citar como exemplos os inúmeros musicais programados para estrear no final deste ano e no início de 2010. Só para citar alguns: “Caro Amigo Charlie Brown”, “Cats” e “Jekyll and Hyde”. Quem comemora é o mercado de teatro. Cada peça contrata, no mínimo, 80 funcionários, entre atores, cantores, bailarinos e técnicos.

No musical “Caro Amigo Charlie Brown”, que ainda está em fase de audições e tem estreia prevista para 27 de fevereiro do ano que vem, no Teatro Frei Caneca, em São Paulo, o produtor Ricco Antony espera contar com 70 pessoas. E o melhor: nem todas precisam ter experiência no ramo de musicais. “Gosto de formar pessoas acostumadas ao teatro falado, levando-as para o teatro musical. Essa coisa de ensinar um outro lado da arte para essas pessoas é bacana”, comenta.

Uma das maiores dificuldades enfrentadas por Rico, porém, é para encontrar mão-de-obra qualificada. Pelo fato de o mercado de musicais ser recente no Brasil, ainda não há abundância de profissionais de alto nível no País, o que prejudica os diretores e produtores. “Não é fácil. O teatro no Brasil, em geral, ainda é muito amador. Só que um ponto positivo é que a atual geração já tem consciência de que é preciso cantar e atuar”, revela Ricco, que também seleciona artistas para “A Cor Púrpura”, que pretende estrear também em 2010. Sobre o processo, faz um comentário surpreendente. “Preciso de artistas negros que saibam cantar e não está sendo fácil encontrá-los. Realizo audições em várias cidades e o que parecia fácil não está sendo”, conta.

A produção do musical “Zorro”, que tem estreia prevista para o dia 16 de março, em Paulínia, São Paulo, prefere selecionar um número certo de profissionais específicos para o elenco e reservar a mão-de-obra técnica para cada teatro em que for apresentado. Ou seja, cada casa de espetáculos fornecerá seus funcionários para a construção de cenários, iluminação e outros tipos de funções. É uma maneira alternativa de cortar custos e favorecer a peça. “Ao todo, juntando o pessoal específico do teatro, ficaremos com algo em torno de 80 profissionais trabalhando só para este musical” afirma o produtor César Castanho.

A direção do espetáculo só aceita profissionais que já tenham experiência no segmento de musicais. Para Cesar, este é um fator “sine qua non” para a excelência da peça. “Queremos uma equipe técnica de primeiro time. Se desejo uma peça de qualidade, acho que sou obrigado a procurar profissionais que já possuam experiência no segmento. Ao contrário do que dizem, acredito que temos muitas pessoas qualificadas. Claro que o número de amadores é impressionante. Só que a situação já está bem melhor que, digamos, nos anos 1980, quando não havia praticamente nada nem ninguém”, explica.

Exemplo claro da procura por uma equipe técnica de primeiro time no musical “Zorro” é a contratação de Roberto Lage, prestigiado encenador paulista, com vasta atuação nos diversos gêneros de teatro. “É um profissional com muita bagagem e que só vai acrescentar ao espetáculo” comemora Cesar. “Zorro” é um musical baseado no livro de Isabel Allende. A peça, porém, contém várias referências não só ao já clássico da literatura, mas ao filme “A Máscara do Zorro”, de 1998, e ao livro de Johnston McCulley, “The Curse of Capistrano”. O musical fez sucesso por onde passou, principalmente em Londres, onde era costume lotar as salas de teatro.

Clássicos dividem
o público com
textos inéditos
Outro espetáculo que também deverá contar com o padrão de 80 funcionários em seu elenco é “Pernas pro Ar”, que estreia dia 4 de dezembro, em São Paulo, e tem como principal estrela a atriz Claudia Raia. Muitas contratações foram feitas pela produção do espetáculo para a operação dos efeitos visuais 3D que irão permear a peça. “É algo bem inovador e que envolve muita técnica. Como é algo novo aqui no Brasil, tivemos que investir pesado no ensino e no aprendizado desse efeito. De qualquer maneira, agora já está tudo praticamente certo e em fase de finalização”, garante a diretora de produção Maria Siman.

A seleção dos artistas não foi difícil. Já se espera que uma atriz com o currículo de Claudia Raia tenha um conhecimento sobre os melhores profissionais do ramo. “Basicamente, ela é a produtora do espetáculo. A quantidade de contatos que ela possui é impressionante. Todos possuem experiência em musicais e a maioria já trabalhou com a Claudia. Isso é importante porque o Brasil começou a produzir espetáculos musicais há apenas dez anos e não há, ainda, muitos profissionais qualificados”, diz Maria.

Na audição para o musical, que teve as inscrições encerradas em julho deste ano, já dava para ver que, apesar de o espetáculo prometer emprego para muita gente, era preciso preencher requisitos bem específicos. Mulheres, por exemplo, não poderiam ter menos de 1m70 de altura. Já os homens precisariam ter uma altura superior a 1m75. Alguns tipos de vozes pretendidos: sopranos belters, mezzo belters, barítonos e baritenors. Era preciso também ter habilidades em dança, principalmente em bob fosse e jazz.

Sucesso no cinema e na Broadway, o musical “O Rei e Eu”, baseado no romance “Anna e o Rei Sião”, de Margaret Landon, também terá uma montagem brasileira, em fevereiro de 2010. Dirigido por Jorge Takla, o musical terá no elenco, ao todo, 60 artistas. Destes profissionais, 15 serão crianças. O espetáculo tem músicas de Richard Rodgers (1902-1979) e letras de Oscar Hammerstein II (1895-1960), responsáveis por sucessos como “Oklahoma!”, “Carousel”, “South Pacific” e “A Noviça Rebelde”. É uma dupla de peso. Juntos, colecionam 34 prêmios Tony, 15 Oscar, dois Grammy e um Pulitzer, entre outros. Na versão brasileira, as letras são de Cláudio Botelho, responsável por versões de “Les Miserables”, “A Bela e a Fera”, “Vitor ou Vitória”, “Chicago”, “My Fair Lady”, “A Noviça Rebelde” e “West Side Story”. Na coreografia está Tânia Nardini. Os figurinos são de Fábio Namatame e os cenários de Duda Arruk.

Também na pauta do próximo ano está “Jekyll & Hyde, o Médico e o Monstro” - baseado na estória de Robert Louis Stevenson. A procura para curar os problemas mentais de seu pai, portanto, resultam em um Jekyll completamente louco, vagando pela Londres do século XIX com seu alterego selvagem, Edward Hyde. “Jekyll & Hyde, o Médico e o Monstro” é um dos musicais que mais obtiveram sucesso na história da Broadway.
Assim como o clássico de Stevenson, “Mamma Mia” também é um espetáculo de sucesso na Brodway que tem estreia prevista no Brasil para 2010. Adaptado da dramaturga britânica Catherine Johnson, é baseado nas canções do grupo pop sueco Abba. A trama é ficcional e não tem exatamente relação com a biografia dos músicos do conjunto. Trata-se da estória de Sophie, uma garota de 20 anos que ainda não sabe quem é seu pai. Tarefa complicada, já que sequer a sua mãe sabe ao certo.

Para 2010 finalmente uma super produção 100% brasileira. Trata-se da estréia em abril do CANDAGO, o musical, um espetáculo que traz de volta o produtor e autor Claudio Magnavita, que foi o responsável por musicais como Cole Porter – Ele Nunca Disse que me amava (o primeiro grande sucesso da dupla Charles Moeller e Claudio Botelho), Company que teve o próprio Steven Sondheim na platéia do Vila Lobos, Constellation e Comunitá. “Candago será a epopéia da construção de Brasília dentro da ótica operaria, do povo que a construiu. É uma obra que envolverá mais de 120 pessoas, entre músicos, atores/cantores e coro e fará parte da comemoração oficial dos 50 anos de Brasília” afirma Magnavita que revela ainda “a idéia surgiu quando apresentamos o Constellation no Americel Hall em 2003. Conversando com José Farani chegamos a conclusão que a construção de Brasília era uma verdadeira saga, uma epopéia do povo brasileiro que nunca havia sido contada e que mereceria um musical.” Além de produtor, Claudio Magnavita é o autor dos Constellation, que teve o Jorginho Guinle como personagem e foi produzido para comemorar os 75 da Varig e do Comunitá, sobre a imigraçao italiana no pós-guerra. A pesquisa vem sendo realizada há mais de 5 anos e o musical esterá em abril a Capital Federal seguindo para temporada no Rio e em São Paulo. “O curioso é que Brasília é celeiro de grandes talentos do mundo musical brasileiro. Sara Sarres, Alessandra Linhares, Frederico Silveira, Saulo Vasconcelos,  , do maestro Marconi Araujo e Paula Copovilla. Vamos priorizar a prata da casa na seleção do elenco. Seremos uma super produção 100%  brasileira em universo de remontagens de musicais estrangeiros” finaliza Magnavita. 

Por fim, aquele que talvez seja o maior sucesso da Broadway de todos os tempos, tanto de crítica quanto de público, promete ser uma das maiores atrações teatrais do Brasil em 2010. “Cats” é um musical composto por Andrew Lloyd Webber e que teve sua estreia em Londres, em 1981. Sua consagração, porém, só viria 20 anos depois, na Broadway. Foram mais de 50 milhões de apreciadores, em um total de impressionantes 45 mil apresentações. Basicamente, “Cats” é uma série de poemas de T.S. Eliot musicados e com um roteiro acrescentado. Essa não é a primeira vez que o famoso espetáculo é encenado no Brasil. Em 2006, o público de São Paulo e do Rio de Janeiro já havia se encantado com a obra de Andrew Lloyd Webber.

Apesar do crescimento vertiginoso dos musicais no Brasil, o fator casa de espetáculos preocupa. São poucos os locais preparados para receber esse tipo de apresentação. A explicação mais plausível é o pouco tempo de sucesso dos musicais no País. “Apenas agora os empresários começam dar mais atenção a este segmento e lançar novos teatros. Em uma cidade grandiosa como São Paulo, por exemplo, só temos os teatros Alfa, Abril e Bradesco com capacidade para receber eventos deste porte”, lamenta Ricco. Cesar Castanho também demonstra insatisfação com o pouco número de salas nas grandes metrópoles do Brasil. “Os musicais precisam de espaço para funcionar bem. Há poucas salas no País e as que existem ainda apresentam problemas. Há muita gente no palco neste tipo de peça. Ainda tem a orquestra... Aí fica complicado”, critica.


‘O ideal era profissionalizar a coxia. Ter uma equipe permanente de carteira assinada e com um volume de produções fixas.’

Marcado para estrear em abril de 2010, o espetáculo “Candango – o musical” traz de volta aos palcos as produções de Claudio Magnavita, responsável por sucessos como “Cole Porter – Ele Nunca Disse que me amava”, “Company”, “Constellation” e “Comunitá”. O autor revelou ao Jornal de Teatro as particularidades deste espetáculo 100% brasileiro e revela a motivação para apresentar a saga da construção de Brasília.

Jornal de Teatro – Como é produzir um tema 100% nacional em meio a estréia de grandes musicais internacionais?
Claudio Magnavita – No Rio desenvolvemos no início desta década um jeito brasileiro de fazer musicais. Aliás, o renascimento do gênero deve ser creditado ao “Abre Alas” e Rosamaria Murtinho merece um troféu por ter trazido os musicais de volta ao Brasil. Outros espetáculos surgiram, dentro de uma fórmula brasileira. O próprio “Costellation” era uma história que se passava no Rio dos Anos Dourados, com o ‘Copa’, Jorginho Guinle, o próprio avião Constellation... Foi assistido por quase 300 ml pessoas, o CD saiu pela gravadora Som Livre e uma de suas músicas virou tema de abertura de uma novela da Rede Globo. A estréia foi uma noite de revista Caras. Não devemos temer a concorrência das montagens internacionais. Uma país musical como o Brasil não poder ter receio de ter os seus próprios blockbusters do teatro musical.

JT- Quais são os principais problemas para produzir teatro musical no Brasil?
CM- A concorrência desleal, como foi o caso da Prefeitura do Rio em um passado recente e a Lei Rouanet que fazem com que algumas produções surjam sem estarem sintonizadas com o público. Cumprem agenda só para embolsar os patrocínios sobre renúncia fiscal.

JT – Prefeitura do Rio???
CM- Sim, durante uma fase ficou impraticável produzir no Rio. A prefeitura bancou grandes musicais a fundo perdido e depois todo o acervo da produção passava a ser propriedade da companhia. Ficavam em cartaz no Rio a R$ 7,50 e depois iam para São Paulo com uma bilheteria de R$ 80,00 e até voltavam para o Rio para a rede privada e a Prefeitura não via de volta um único centavo do que foi investido. Isso paralizou por uns cinco anos a produção privada no Rio.

JT- Quantas pessoas estão envolvidas na
produção de um grande musical no Brasil?
CM- Em “Company” tivemos uma orquestra de 16 músicos, 12 pessoas em cena e 30 pessoas na equipe técnica. O problema é que as companhias não se estabelecem no Brasil de forma permanente. Usamos mão de obra temporária, que pula de produção em produção. O ideal era profissionalizar a coxia. Ter uma equipe permanente de carteira assinada e com um volume de produções fixas. Para isso o produtor tem que ter o seu próprio teatro, como ocorre nos Estados Unidos e em Londres.

JT- Como é voltar a produzir depois de um intervalo de quase cinco anos? O cenário mudou?
CM- Sim, mudou muito. Quando montamos “Cole Porter” tínhamos excelentes atrizes que não cantavam e grandes cantoras que não atuavam. A magia era equilibrar as coisas. Hoje temos uma geração pronta. Grandes cantores que são grandes atores. Além disso o musical esta ganhando uma nova geração. É só ver o sucesso do High School. Uma platéia de adolescente apaixonados pela magia dos musicais. No “Constellation” sentíamos isso com o projeto escola da Cintia Abravanel.  A criançada ia ao delírio. O Bradesco teve a sua primeira experiência de patrocínio de teatro com o “Constellation”, através da amizade do meu então sócio Luiz Rondon com o Luiz Carlos Trabuco. Hoje o banco abraçou o teatro. Produzir hoje esta bem mais fácil.

JT – Pode se comparar produções no Brasil com as que são realizadas no exterior?
CM- Quando pudermos cobrar 100 dólares por um tíquete poderemos estar no mesmo nível. Hoje com o fenômeno da meia-entrada um tíquete médio está em torno de 20 dólares no Brasil. Fica difícil ficar milionário produzindo e montando musicais. O Cameron MacKintosh é uma das maiores fortunas da Inglaterra. O que diferencia são os nossos artistas. Completos e que dão alma no palco. A nossa equipe técnica é brilhante. Quem trabalha com teatro no Brasil faz primeiro por paixão e depois por questões financeiras.

JT- E o Candango?
CM- Está sendo pensado nos mínimos detalhes. É uma estreia que fará parte da programação dos 50 anos de Brasília. Trata-se de uma super produção e com responsabilidade histórica. Este projeto me acompanha há mais de seis anos. O curioso é que é mais uma produção com a letra C. Todos os outros começavam com C. Cole Porter, Company, Caminito, Carmem Miranda By Dussek, Concertos Americanos, Comunitá, Cantoras do Radio e Constellation. Agora é a vez do Candango. Mas em 2010 tenho o projeto da Ópera do Futebol. Será uma grande produção para a obra do Francis Hilme e Silvana Contijo. O Francis disse brincando que para dar certo vai rebatizar o trabalho de “Craque! A Ópera do Futebol”. A ideia é estrear em Joahnesburgo no período da Copa do Mundo de 2010 e ficar em cartaz até 2014 em turnê mundial.

Entrevista: Cláudio Botelho

Ator, cantor e diretor e versionista, Claudio Botelho é considerado um dos principais nomes do teatro musical no Brasil. Em parceria com Charles Moeller, costumam ser chamados por aí de “OS caras dos musicais”. O primeiro grande sucesso da dupla começou com “Cole Porter – Ele Nunca Disse que Me Amava”. Programado para ser um piano no palco e seis atrizes/cantoras o musical foi produzido pelo jornalista Claudio Magnavita, que resolveu investir na idéia e até amplia-la. Ganhou figurinos de alta costura assinados pelo português Antonio Augustus e um trabalho de marketing nunca visto antes no mundo dos espetáculos. Os três “C” Claudio Botelho, Charler Moeller e Claudio Magnavita, transformaram o quarto C, de Cole Porter em um fenômeno. Assistido por mais de 250 mil pessoas o musical saiu do pequeno teatro Arena do Rio direto para os palcos do Teatro Alfa em São Paulo e depois para o Cassino do Estoril em Portugal. Na sequência deste sucesso, Botelho e Moeller convenceram Magnavita a produzir “Company”, considerada pela Sondheim Review uma das melhores montagens internacionais. Sucesso de publico e critica a carreira da dupla estava decolando a partir destas duas produções. Só para citar alguns dos trabalhos em que Botelho participou, estão “O Fantasma da Ópera“, ”My Fair Lady“, “Miss Saigon“,” Sweet Charity“, “Side By Side By Sondheim“, “Company“, “Cole Porter”, “West Side Story“, “A Noviça Rebelde” e “Avenida Q”. Nesta entrevista ao Jornal de Teatro, o diretor fala sobre como é o processo de seleção de profissionais para suas peças e comenta sobre o mercado teatral brasileiro, além, claro, de falar sobre a nova produção sua com Charles: “Gypsy”, que tem estreia prevista para março de 2010 no Teatro Villa-Lobos, no Rio de Janeiro.

Jornal de Teatro – Quantos funcionários farão parte do musical “Gypsy”, que estreia em março de 2010?
Claudio Botelho – “Gypsy” será um musical enorme. Muito grande. Serão, no mínimo, 35 artistas. Ao todo, contando técnicos e outras funções fora do palco, acredito que contaremos com pelo menos 70 funcionários. Só a orquestra tem 20 músicos. Sem dúvida, é uma megaprodução.

JT – Vocês costumam procurar profissionais que já possuam experiência em musicais ou é possível trabalhar com artistas de outros segmentos do teatro?
CB – Há um misto de tudo. Não existe um método específico que utilizamos para contratar. Sempre fazemos testes com muitas pessoas e pegamos aquelas que se adaptam melhor a determinado personagem. Geralmente trabalho com elencos novos. Os requisitos são sempre diferentes. Em algumas ocasiões precisamos de alguém com dotes mais operísticos. Em outras de um artista com voz mais natural. Às vezes, necessitamos de comediantes. Às vezes, de dramáticos.

JT – É difícil, hoje, encontrar mão-de-obra qualificada no Brasil?
CB – De maneira alguma. Atualmente já há muitos profissionais bons no País. Antes não existia quase ninguém, porque também quase não existiam musicais. Mesmo assim, nas escolas e oficinas de teatro, hoje, ainda não há matérias específicas sobre musicais. A maioria das pessoas que se especializa neste segmento realiza cursos paralelos, como aulas de canto. Não sei se isso é bom ou ruim, mas este é um fato que deve ser lembrado.

JT – Como é a seleção da área técnica para seus espetáculos?
CB – Nós sempre trabalhamos com a mesma equipe. Dessa maneira, conseguimos criar um bom entrosamento entre os funcionários e manter um padrão de qualidade.

JT – Pelo fato de um musical exigir muito de seus profissionais, há um acompanhamento desses funcionários?
CB – É lógico. Sempre há, por exemplo, um acompanhamento vocal. Alguns artistas já contam com profissionais particulares que os ajudam, mas sempre damos todo tipo de suporte.

JT – O crescimento de um segmento de teatro no Brasil que tem o costume de contratar tantos artistas e técnicos é bom para o mercado brasileiro?
CB – É realmente muito bom para o mercado. Imagine a quantidade de pessoas trabalhando hoje que teria dificuldade em arrumar algum emprego no teatro que era feito antes. Muitos atores que participam hoje de musicais poderiam estar por aí treinando  para exercer pequenos papéis na TV. Hoje, os musicais são uma realidade do cenário.

JT – Por que você e Charles escolheram a peça “Gypsy” como o próximo projeto?
CB – “Gypsy” é um musical muito antigo e famoso da Broadway. Data de 1959 e, agora, está fazendo justamente 50 anos. É considerado um clássico dos clássicos e tem uma carpintaria elogiada por todos que conhecem musicais. Esta será a primeira montagem deste espetáculo aqui no Brasil e estamos muito felizes com isso. O enredo conta a história de Gypsy Rose Lee, uma stripper famosa e sua relação dela com a mãe, uma mulher obsessiva que acabou se transformando em estrela. Quem faz a Gypsy é Adriana Garanbone. No elenco estão 35 atores, entre bailarinos e cantores, que percorrem a trajetória da personagem desde a infância.

JT – Como estão as condições das salas de teatro no Brasil para receber musicais?
CB – Olha, estaremos apertados no Teatro Villa-Lobos. Há poucos teatros no Rio de Janeiro preparados para este tipo de produção. Acho que um dos motivos para isso é que, por muito tempo, valorizamos os espetáculos com um ou dois atores. Todos os anos abrem pequenas salas com 11 ou 200 lugares. No Rio, teatros preparados para musicais são o Villa-Lobos, o João Caetano, o Carlos Gomes e o Oi Casa Grande. Em São Paulo, há o Teatro Abril, o Sérgio Cardoso, o Alfa e o Teatro Bradesco, que abriu agora.

JT – Há uma movimentação para a criação de mais casas de espetáculos que suportem estes grandes espetáculos?
CB – Sim! Já estão sendo feitos alguns outros teatros. Dá para perceber claramente que os empresários têm notado o crescimento dos musicais no Brasil.

JT – Mas por que, em um País tão musical como o nosso, os musicais demoraram tanto tempo para fazer sucesso?
CB – Na verdade, até os anos 1970, nós até tínhamos muitos musicais. Tivemos, inclusive, diversas produções gigantes. Só que depois, com o regime militar, este segmento entrou em desuso. O teatro começou a tratar de assuntos menos agradáveis do que os geralmente abordados por musicais. A própria classe musical não tinha interesse e isso voltou com a nossa geração, que é a dos anos 1980. É tudo uma questão de interesse teatral. Este interesse existe hoje no Canadá, na Austrália e na própria Argentina. Na França, porém, não há uma procura grande por este tipo de espetáculo. É tudo questão de interesse do público.

JT – Como analisa o atual cenário dos musicais no Brasil?
CB – Acho muito bom. Há muitos espetáculos bons estreando e é um mercado que se desenvolveu no Brasil. Há muitas obras originais e também cópias. Só que eu acho legítimo fazer cópias. Há muitas aqui no Brasil, mas isso faz parte do jogo e do mercado. Nós, particularmente, não nos interessamos em trabalhar com cópias. Procuramos fazer espetáculos onde possamos colocar o nosso dedo ali.