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Rodrigoh Bueno
 
Um grupo de jovens atores pernambucanos cruza o país de ônibus para apresentar seu trabalho e, sem verba para voltar para casa, se vê em uma difícil questão: como retornar para sua cidade sem dinheiro, e como seguir com o sonho de divulgar o trabalho mesmo com tantas dificuldades? O que parece um texto de algum espetáculo é parte da história da Cênicas Companhia de Repertório, e um momento considerado mágico para os membros da trupe.

O episódio aconteceu no Festival de Teatro de Curitiba em 2002 e para Antônio Rodrigues, diretor do grupo, significou “uma das histórias inesquecíveis da carreira”.

 

 

 

“Fomos com dois espetáculos, “Um Gesto Por Outro” de Jean Tardieu e “Transe” de Ronald Radde. A empreitada foi bastante arriscada, fomos com a cara e a coragem numa produção coletiva, sem verbas suficientes pra a viagem. Tivemos uma boa recepção do público e dos poucos jornalistas que assistiram aos espetáculos, porém passamos por momentos muito difíceis e de superação, mas essas dificuldades nos fortaleceram ainda mais e a viagem ajudou no nosso amadurecimento enquanto pessoas e artistas”, conta.

O Cênicas já era um grupo apaixonado por festivais antes desta experiência em Curitiba e o episódio não abalou a paixão de cada um dos integrantes pelas viagens. O motivo que leva esses atores a se lançarem, mesmo quando as condições são adversas, é a possibilidade de mostrar o trabalho para o maior número de pessoas possível. “O mercado de trabalho é difícil e competitivo, mas temos que buscar soluções para que a peça seja vista por um número maior de pessoas, pois como teatro é efêmero, nenhum registro de vídeo ou fotografia reflete o que acontece de fato entre artista e espectador. É um momento único e que por mais que seja tecnicamente impecável, acredito que uma apresentação nunca será igual a outra”, revela Rodrigues.

A dificuldade que um grupo formado fora do grande eixo teatral brasileiro encontra também pode ser resolvida com essas viagens. A visibilidade é um fato e uma maneira de trocar experiências com outros grupos e críticos. “Há no Brasil festivais muito importantes e, com certeza, Curitiba é um deles, pois os olhos do país se voltam para o que está acontecendo por lá. Os festivais em sua maioria aglutinam as pessoas que são formadoras de opinião e isso pode levar a uma projeção nacional. No caso de Curitiba diversos grupos começaram a sua projeção depois de participarem da mostra paralela, o Fringe. Dentre eles o Espanca (MG), Grupo XIX de Teatro (SP), Luna Lunera (MG) e Coletivo Angu de Teatro (PE)”.

Perseverança

O Cênicas surgiu em 2001, como fruto da iniciativa de atores de Garanhuns, interior de Pernambuco, que viviam em Recife. Para marcar a estreia, escolheram (ou melhor, foram escolhidos para) participar de seu primeiro Festival, o FIG – Festival de Inverno de Garanhuns. ”Umas das coisas mais ricas que os festivais proporcionam aos grupos e companhias, são as possíveis trocas estéticas e de referências que possam vir a partir do contato desse coletivo de artistas. Assistir espetáculos de estéticas e regiões diferentes, conversar mesmo que informalmente com esses artistas e buscar fazer avaliação sistematizada das informações pode ser muito valioso na pesquisa dos grupos”, acredita Rodrigues.


Em outros casos esta troca pode nem ser presencial, ou melhor, primeiro se dar em uma esfera virtual para depois acontecer pessoalmente. Este é caso de Antônio e Cláudio Dias, da companhia mineira Luna Lunera. Acompanhando o trabalho do grupo, que na época viajava o país com o espetáculo “Aqueles Dois”, de Caio Fernando Abreu, Antônio buscou o contato de Cláudio em comunidades virtuais e assim começou uma parceria Recife–Belo Horizonte.

Parceria que surgiu a partir do interesse pelo autor e que se concretizou quando o Luna Lunera viajou para Recife, no final de 2008. “Estávamos em cartaz com o espetáculo em São Paulo, no Sesc Paulista, e a apresentação de Recife precisava de um apoio por lá. Toni se prontificou e ajudou com detalhes de produção, mesmo sem conhecer pessoalmente o grupo” conta Cláudio, outro ator que tem uma história íntima com os festivais de teatro.

“Minha formação de ator está bastante relacionada com os festivais, pois acompanhei de perto os espetáculos e as discussões que aconteciam na cidade, como o FIT – Festival Internacional de Teatro Palco e Rua, e o ECUM - Encontro Mundial de Artes Cênicas. Lá tive contato com referências mundiais e com pensadores de teatro que estimularam o meu trabalho e a minha pesquisa” conta.

Naturalmente se deu a passagem de espectador para parte do FIT, já com a companhia. Em 2001 o Luna Lunera foi selecionado para apresentar “Perdoa-me por me traíres”, de Nelson Rodrigues com direção de Kalluh Araújo. O grupo voltou ao palco do festival com outros dois espetáculos, “Não desperdice sua única vida, ou..” e “Aqueles Dois” – premiado no 13º Prêmio Sesc-Sated MG nas categorias Melhor Espetáculo e Melhor Direção (Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga e Zé Walter Albinati); no 5º Prêmio Usiminas-Sinparc nas categorias Melhor Espetáculo, Melhor Direção e Melhor Ator (Rômulo Braga); e foi indicado ao Prêmio Shell São Paulo 2008 nas categorias de Melhor Direção, cenário e Melhor Iluminação (Felipe Cosse e Juliano Coelho) - levando para casa o troféu de melhor iluminação de espetáculo em São Paulo no ano de 2008.

“Na primeira vez que participamos do FIT tivemos contato com a comissão que escolhia os espetáculos e com a curadoria de outros festivais, o que ajudou a fechar novas temporadas em outras cidades e, a partir daí, vieram convites para novos festivais. Foi uma ótima vitrine. Aproveitamos a repercussão”, garante Cláudio.

Desde então, não pararam de surgir convites. O Luna Lunera já representou o Brasil no XII Temporales Internacionales de Teatro de Puerto Montt, Valdívia e Santiago, no Chile; e esteve presente no Riocenacontemporânea/RJ, Porto Alegre EnCena/RS, Mostra da Cena Teatral Mineira, Festival de Teatro de Curitiba/PR, Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (SP), Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia; além dos já citados FIT e Ecum.

Núcleo de festivais

Alguns destes eventos estão relacionados. É o caso do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, Porto Alegre EnCena, Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte, Riocenacontemporânea; e mais os Festival Internacional de Londrina/PR e Cena Contempoânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília/DF, pertencentes ao Núcleo dos Festivais Internacionais de Artes Cênicas do Brasil.

O grupo de festivais foi criado em 2003 com a proposta de fortalecer e estimular as artes cênicas no Brasil, além de ser uma importante ferramenta para difundir os espetáculos brasileiros no exterior. Segundo a divulgação do núcleo, “os festivais participantes do Núcleo têm algumas especificidades: além de serem internacionais e voltados às artes cênicas, todos têm caráter público (são realizados pelo poder público ou entidades sem fins lucrativos), praticam preços populares, realizam uma programação de atividades formativas e apresentam um painel da produção mundial das artes cênicas. O Núcleo dos Festivais objetiva contribuir com a política de acesso à criação e à produção artística nacional, além de incentivar a circulação de espetáculos pelas cidades brasileiras.”

Por que participar?

“Pela troca de informação, novas referências, intercâmbio de idéias, visibilidade e, claro, retorno financeiro” diz Cláudio Dias.

Segundo ele, o espetáculo “Aqueles Dois”, por exemplo, ainda sofre adaptações a partir das opiniões colhidaao final da peça em cada cidade. Quanto à referência de outras companhias, Dias cita a construção utilizada em algumas cenas da peça – fruto de uma oficina que o grupo fez com a Cia dos Atores, do Rio de Janeiro. “No FIT de 2002, ambos apresentávamos espetáculos de Nelson Rodrigues e a aproximação foi quase inevitável. Um dos atores participava da produção do Riocenacontemporânea e estivemos juntos por lá também. Depois veio o FIT em Belo Horizonte e passamos a manter um contato freqüente desde então”, conta.

Além das verbas destinadas por alguns festivais para que as produções apresentem os espetáculos, as críticas e matérias publicadas na imprensa podem ajudar as companhias na captação de recursos para novas montagens.

Para Luiz André Cherubini, do Grupo Sobrevento, participar é importante “porque os Festivais são a melhor e mais segura maneira de circular com um espetáculo. E porque navegar é preciso. Inclusive mais do que viver”.

Espaço para todos

O Sobrevento é um grupo de teatro que se dedica desde 1986 à pesquisa da linguagem teatral, principalmente na arte dos bonecos e da animação. Além de ter participado de festivais em muitos países, o grupo realizou, dirigiu e foi curador de festivais em quase todos os estados do Brasil. “Ao final de cada Festival que realizou, o grupo disse que seria o último e se arrependeu logo depois”, garante, mostrando logo que se trata de outra companhia que vive com as malas prontas.

O que move o grupo para os eventos é novamente o intercâmbio, “a possibilidade de viver outras experiências, conhecer coisas novas acerca de nossa arte e nosso ofício”.

Luiz destaca as diferenças que o grupo percebeu entre as apresentações fixas, quando o espetáculo está em cartaz, e as de festivais: “A diferença de públicos e de estrutura cênica marca profundamente o desenrolar da apresentação e o estabelecimento da comunicação teatral. Determinados espetáculos sofrem mais do que outros com isto: montagens mais delicadas ou com características mais interativas, para dar apenas dois exemplos. Espetáculos mais fechados e mais técnicos tendem a dificultar a percepção, pelos artistas, do sucesso do jogo teatral no momento em que se dá. Porém, independentemente disto, diferenças culturais interferem diretamente na assimilação e na relação do público com a obra”.

Segundo ele, um dos espetáculos do grupo, “Beckett”, foi convidado a uma turnê por Irlanda, Escócia e Espanha. “Receando que a ideia de um grupo brasileiro encenando um autor irlandês – com bonecos, ainda mais – fosse criar algum tipo de rejeição, surpreendemo-nos com um êxito muito grande – público eufórico, briga na porta por ingressos, espectadores nos pedindo convites. Ao chegar a Glasgow, na Escócia, a poucos quilômetros dali, o espetáculo simplesmente não funcionou: deparamo-nos com um público seco, que reagia de forma completamente diferente aos diferentes momentos do espetáculo”.

A lista de festivais e mostras em que o grupo esteve presente é grande, algumas cidades são Nova Friburgo/RJ, Campinas/SP, Santos/SP, Canela/RS, Ribeirão Preto/SP, Rio de Janeiro/RJ, São Paulo/SP, Curitiba/PR, Porto Alegre/RS, Ouro Preto/MG, São João Del Rei/MG, São José do Rio Preto/SP, Mariana/MG, São Carlos/SP, Olinda/PE, Belo Horizonte/MG, Bonito/MS, Jaraguá do Sul/SC, São Bernardo do Campo/SP, Santo André/SP, Garanhuns/PE, Fortaleza/CE, Nova Iguaçu/RJ, Brasília/DF, Campos de Goytacazes/RJ, Rio do Sul/SC, Corumbá/MS, Suzano/SP e Juazeiro do Norte/CE. Além de espetáculos no Chile, Espanha, Colômbia, Irlanda, Escócia e Argentina.

A pernambucana Cênicas pode não ter se apresentado (ainda) na Europa, mas tem motivos de sobra para comemorar. No ano de 2003 o grupo voltou ao Festival de Curitiba com o patrocínio da cidade de Garanhuns. No retorno para Recife, novas referências, novos convites para participação em festivais e prêmios como Melhor Espetáculo, Melhor Ator (Jorge de Paula), Melhor Iluminação e Melhor Sonoplastia como espetáculo “As Criadas”, de Jean Genet, no Janeiro de Grandes Espetáculos. Uma prova de que, mesmo com as adversidades enfrentadas no início, valeu a pena perseverar.