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Diogo Liberano na plateia do espetáculo "Maravilhoso" escutou um espectador perguntar quem era o autor da peça


Por Rubens Barizon

 

Diogo Liberano mostrou o seu talento como autor na Mostra 2013 do Festival de Curitiba, com o texto da peça “Maravilhoso” e foi bastante assediado pelo seu trabalho. Ainda bem ocupado com as suas produções, o profissional da arte cênica encontrou tempo para responder as perguntas desta entrevista, que objetiva traçar o seu perfil. 

 

Jornal de Teatro - Qual foi o primeiro trabalho como autor?
Diogo Liberano - Creio que o meu primeiro trabalho como autor tenha sido uma peça que escrevi em 2000, quando tinha 12 anos e se chamava “A Morte Ataca”. Foi escrita e dirigida por mim num concurso de dramaturgia em Juiz de Fora, logo quando me mudei da minha cidade de nascença para morar em Minas Gerais. Depois dessa, outras no mesmo formato vieram. Foi somente em 2006, ao ingressar na graduação em Direção Teatral da UFRJ, que comecei a intuir que escrever era alguma coisa fundamental na minha vida. Antes de assinar dramaturgias, desde muito cedo, já tinha gosto por escrever poesias. Desde 2007, quando criei o blog Lendo Árvores e Escrevendo Filhos. Eu passei a encontrar nos poemas, cenas e contos escritos a minha própria vida, porém, mexida, alterada, refeita ...Em suma: transformada.

 

JT - Onde começou o teu trabalho como profissional do teatro? Estudou em algum lugar?
DL - Lembro de ter feito teatro desde pequeno na escola, atuando em peças de final de ano. Lembro que certa vez, com sete anos recém completados, interpretei um diretor de cinema numa peça chamada “Dor de Barriga”. A cada ano atuava numa nova peça com a turma e lembro de ter tentado encenar alguma coisa por conta própria, mas nada chegou a acontecer. Em 2000, já morando em Juiz de Fora (MG), troquei as aulas de futebol pelas de teatro. Pela primeira vez, aos 12 anos, eu comecei a estudar e trabalhar teatro periodicamente, na Escola de Teatro do Colégio Academia. Dali,fui convidado a ingressar na Cia de Atores Academia, dois anos depois, começando a experimentar a realização de longos processos e temporadas de vários espetáculos. Já na faculdade, vim sempre buscando criar aquilo no qual acredito, ao mesmo tempo, sempre preocupado em mostrar aos outros. Acredito que ser profissional é ser inteiro naquilo a que se destina. Por esse ponto de vista, acredito fazer teatro profissional desde criança. Nunca me pareceu que teatro fosse mero divertimento. Em outras palavras,fazer teatro para mim sempre foi trabalhar. Realizei minha graduação de 2006 até 2011, mas durante todo este tempo estive envolvido com artistas que fui conhecendo e me aproximando, que fosse apenas para ver seu trabalho de perto.


JT - Qual o teu processo criativo na construção de textos?
DL - Preciso de qualquer coisa para me estimular uma nova criação. Mas geralmente, acho mais interessante que esse estímulo não venha de mim. Acredito em intuição e a cada novo trabalho, creio estar conseguindo abandonar as vontades para abrir espaço ao que de fato se revela essencial, necessário. Encaro a dramaturgia como obra que morre no papel. Não escrevo pensando a cena, escrevo pensando a leitura das folhas, pensando o outro (que me lê). Tenho pouca disciplina, deixando a escrita sempre para o depois. Assim, acabo escrevendo na cabeça e quando sento ao computador, ou ao papel, deixo que as ideias escorram e se montem quase livremente.

 

JT - Como surgiu a ideia para “Maravilhoso”?
DL - Paulo Verlings me convidou para escrever uma peça a partir de duas referências principais: a obra “Fausto” de Goethe e o carnaval do Rio de Janeiro. Ele chegou a me entregar um roteiro com ideias que esboçou junto à diretora Inez Viana. Desde o início, eu tive esses pontos de partida e também o título “Maravilhoso”. Foi buscando encontrar o meu olhar sobre este universo, que fui encontrando pistas para conseguir inventar uma sequência dramática, que tivesse potencial enquanto fábula, enquanto ficção. Nisso, encontro o personagem Fausto (não somente o de Goethe, mas também o de muitos outros artistas) em cada um dos personagens. O dilema - Faústico - me parece capaz de dizer sobre o ser humano, pois é um dilema relacionado à transformação, ao progresso e ao desenvolvimento. 


Em relação ao carnaval carioca, o que apresento é aquilo que me aflige em relação a minha cidade. O meu espanto com o pão e circo, a fragilidade da nossa democracia. Perceba: dramaturgia (autoria) não me parece manual com respostas, quiçá modelo a ser seguido. Dramaturgia, como a vejo, é o meu problema sendo estendido a você: não é seguro, nem tem que ser.

 

Além de ‘Maravilhoso”, Diogo esteve no festival de Curitiba com sua Cia Teatro Inominável com a peça “Vazio É O Que Não Falta, Miranda”, escrito e dirigido por ele.


 Diogo com o elenco de "Maravilhoso" no camarim do teatro Bom Jesus, Curitiba