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Minha atuação como bailarina, coreógrafa e professora de dança e educação somática é o eixo central do desenvolvimento da reflexão aqui presente. As linhas que se cruzam no meu trabalho, a educacional e a artística, alimentam-se mutuamente.

 

Além de agir em processos criativos como bailarina, coreógrafa, diretora e provocadora, sou professora no Salão do Movimento, espaço de dança e educação somática que inaugurei em 2001 em Campinas (SP), e proporciona atividades cujo foco está na reflexão do corpo e no estudo do movimento consciente com base na prática da técnica Klauss Vianna. Nesse espaço de ensino, pesquisa e criação, ministro aulas para estudantes e profissionais de diferentes áreas — artes cênicas em geral, educação, saúde — e para todos aqueles que querem conhecer o próprio corpo e lidar com ele pautando-se na investigação do movimento consciente. O curso promove autonomia corporal para que o indivíduo pesquise e aplique os elementos da técnica no seu contexto de interesse e atuação.

A reflexão que apresento aqui é fruto do meu olhar de pesquisadora-docente livre para criar e atuar pedagogicamente dentro da comunidade de pesquisadores das artes corporais, pois, para viver nesse território, todo dia eu digo “sim” à dança, com um percurso que vou construindo pé ante pé, no chão de madeira da sala de aula e do palco, onde me proponho a realizar a minha pesquisa em dança como arte transformadora.

Nessa pesquisa, busca-se abrir espaço para a criação da poética da dança contemporânea com o foco no processo criativo vivenciado e não apenas no resultado final espetacular, o que se privilegia é a experiência, o que pode redimensionar questionamentos atuais sobre dramaturgia do movimento, dando primazia ao corpo presente em prontidão para a ação dançada.

 

CÁ ENTRE NÓS: um processo de criação

 

O espetáculo CÁ ENTRE NÓS, contemplado pelo Prêmio PROAC-circulação, é um diálogo entre dança, fotografia e literatura livremente inspirado na obra de Adélia Prado. Este solo é contaminado pela poética da palavra proposta pela obrade Adélia Prado pontuando a linguagem escrita na posição de fronteira entre o dizível e o indizível. Trata-se da pesquisa da imagem construída pela palavra escrita que reverbera em imagens que o movimento pode construir e que a fotografia projetada pode revelar ou esconder na cena. Adélia Prado insiste em abrir a pessoalidade dos sentimentos em palavras. São palavras que nascem das memórias que afloram outras memórias e nos fazem perceber que elas surgem em nós como escolhas coletivas, como uma composição arquetípica da vida que conhecemos e reconhecemos na medida em que vivemos. Como diz Adélia Prado: “O que a memória ama fica eterno”.

CÁ ENTRE NÓS apropria-se livremente do universo de Adélia Prado para desenhar um percurso de histórias e relações humanas que são explicitadas na cadência dacoreografia, num vai e vem de sensações que se derramam numa fluidez poética em relação ao instante ao vivo. O processo de criação é colaborativo, pois há anos eu desenvolvo trabalhos cênicos com essa temática, com a colaboração do fotógrafo Christian Laszlo em diálogo de criação com o diretor Norberto Presta, na pesquisa de interfaces entre dança, teatro, literatura e fotografia e o que se cria neste espaço “entre”.

 

CÁ ENTRE NÓS é, portanto, uma extensão da pesquisa realizada por mim há vinte anos na experiência de investigação na construção da poética do movimento tecida pela articulação entre dança, literatura e fotografia. Nessa proposta, variadas dinâmicas corporais se interceptam e se dinamizam num jogo que visa o estabelecimento de conexões intertextuais: textos coreográficos, literários e fotográficos. Esse espetáculo contribui no percurso de ampliar os limites da dança e dos padrões de corporalidade com a investigação de interfaces entre movimento, literatura e fotografia, procurando estabelecer diferentes relações entre o corpo, a palavra e a imagem, evidenciando a ressonância dos sentidos na composição cênica.

 

JUSSARA MILLER é graduada em Dança, mestre e doutora em Artes pela UNICAMP. É autora dos livros: “A Escuta do Corpo” (Summus, 2ª Ed, 2007) e “Qual é o corpo que dança?” (Summus, 2012). É docente do curso de pós-graduação na Técnica Klauss Vianna na PUC-SP e diretora e professora do Salão do Movimento, em Campinas, SP (www.salaodomovimento.art.br).

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Gerson Esteves

Ando maluco por (e com) sites de relacionamento tipo Facebook ou Twitter. São ferramentas que aproximam pessoas, valorizam talentos, ajudam a divulgar trabalhos e a promover ideias – para o bem e para o mal. O sonoplasta Fê Pinatti me apresentou a blogosfera – espécie de universo paralelo das ideias, onde todo mundo escreve sobre tudo, especialmente os próprios umbigos.
Nessa toada, passo horas dos meus dias lendo o que dizem os colegas, vendo o que estão aprontando, articulando pensamentos banais sobre o cotidiano: qual o papel do teatro nestes tempos de virtualidade? Qual sua função na era multimeios, em um começo de século em que, como preconizou Platão, nos afastamos da vida para fixar os olhos nas sombras do fundo da caverna? Mas, se tudo são sombras nas cavernas virtuais, cadê a vida? E o teatro? Afinal, para o filósofo grego, a arte era também uma espécie de fundo de caverna. Aviso de antemão: não tenho as respostas.
Luz e sombra. Vida e arte. Verdades e mentiras. Virtudes e pecados. Por dias, estes têm sido os binômios a ocupar minha cabeça em marteladas de estética e ética. Ary França (grande amigo e comediante, não necessariamente nessa ordem) disse no Facebook que eu precisava “fazer cursinho para ateu e largar essa mania de pecado”. Mas o que é esta nossa arte senão uma arena pública onde praticamos uma espécie de religiosidade pagã, na qual exorcizamos demônios, desfilamos um sem-fim de pecados e culpas dostoievskiamente expostas como feridas abertas?
Em “Odisseia do Teatro Brasileiro” – depoimentos compilados por Silvana Garcia – Antunes Filho propõe a reflexão: “como podemos reelaborar o futuro?” E responde: “precisamos enfrentar essa nova realidade que está aí... largar as besteiras do passado, estudar e tocar o barco.” Tomo a liberdade de emendar outra analogia: precisamos virar o leme.
Alguém disse que, no futuro, talvez a única possibilidade que as pessoas tenham de estar unidas em grupo e partilhar algo que as emocione seja na arena. Temos de rever a ideia da arena futura. Reavaliar o que moverá as pessoas até ela, arrancando-as dos chats, fóruns e eme-esse-enes da vida. São tempos de novos profetas. Em que milhares falam para milhões num clique. Vivemos em constante estado de atenção: checamos fontes, avaliamos consistências, nos defendemos de armadilhas. E, ao mesmo tempo, perdemos o foco do que de fato importa: tocar o barco para onde? Virar o leme em que direção?
Tenho patinado nessa miscelânea de assuntos. Noutro dia, fui assistir ao Blue Men Group e ouvi de um amigo que o espetáculo era datado. O que é ser datado? O que vi foi uma divertida crítica aos meios de comunicação, à manipulação das massas, à celebrização do anonimato. Nada mais atual. Será que é porque o frisson dos anos 1990 já passou e eles agora são espécie de franchising viajando pelo planeta? Ou porque meu amigo seja mais antenado que a maioria e o resultado lhe soe déja-vu. Mesmo assim é efervescente e instigante.
Do mesmo modo que, para dizer o mínimo, é revigorante rever as coreografias do Wuppertaler Tanztheater. “Café Müller”, em que se vê com nitidez a fusão entre dança e teatro, é de 1978. Antes disso, Pina fizera o visceral e poético Sagração da Primavera (‘75). Alguém ousaria dizê-las datadas? Não seria egoísmo dos construtores de um pensamento contemporâneo privar as novas gerações de ver estas obras, sob o rótulo de serem datadas? Ao contrário: são modelos de como tocar o barco e virar o leme.
Retomo o binômio verdade-mentira, tão vivo no teatro, e recorro à dramaturgia Rodrigueana. São textos em que nada é verdade, nada é fato. Há o recurso do flash-back, da narrativa de um terceiro sobre algo vivido pelos protagonistas, o olhar da imprensa, um diário esquecido ou uma gravação suicida. São pontos-de-vista. A verdade objetiva é o que menos importa.
O teatro sempre enfrentou o desafio de retratar o homem em seu tempo. E nos habituamos a pensar que o bom teatro é o que permanece vivo para além do seu tempo. Talvez o grande desafio em nossos dias seja olhar para a verdade em um mundo em que cada vez mais o que importa é o ponto-de-vista.
Para mim, tempo e espaço têm perdido a importância. Ainda mais após ter visto “O Fantástico Reparador de Feridas”, de Brian Friel, que celebra os 50 anos de carreira de um dos nossos grandes atores, Walter Breda (bem acompanhado por Mariana Muniz e Rubens Caribé). Os três, em cena, por meio de relatos muito particulares, constroem – ou desconstroem – uma verdade que jamais existirá, devida sua distância no tempo e no espaço. Além de reflexão sobre a verdade, é metáfora para o fazer artístico que merece ser vista, refletida e preservada como norte aos que desejam tocar o barco e virar o leme.

* Gerson Steves tem 25 anos de atividades teatrais na cidade de São Paulo, tendo atuado como diretor, dramaturgo, ator, produtor e professor. E tem tuitado à beça ultimamente (www.gersonsteves.com.br).

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Desde o dia em que a cidade do Rio de Janeiro foi eleita sede dos Jogos Olímpicos de 2016, tenho ouvido muito certa palavra sobre a qual nunca dediquei mais que alguns segundos de atenção: legado.

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Gerson Steves

“Branca e radiante vai, a noiva... Logo a seguir, o noivo amado.”
Minha mãe cantava esses versos. Nunca tinha ouvido uma gravação sequer. Achava que era cantada pela Ângela Maria, Dalva de Oliveira... sei lá, Claudia Barroso! Outro dia, acordei com a música na cabeça, fui pesquisar e baixei uma gravação.
Engraçado esse negócio de baixar. Hoje, com um computador, qualquer imbecil feito eu baixa uma gravação e coloca em um CD para tocar em uma festinha (e vira DJ), para colocar na peça dos amigos (num clique vira sonoplasta). Só não se baixa bom gosto.
Daí, lembrei das trilhas feitas pela Tunica ou pela Lu Lacerda. A Lu fez a trilha da peça que considero minha estreia profissional, com direção da Lúcia Pereira, mineira de Guaxupé que nos deixou cedo. Foi em “A Vida Impressa em Dólar”, de Clifford Odets (que só tinha sido montada pelo Oficina). Lúcia foi uma das mais importantes pesquisadoras de teatro do País, sabia tudo de TBC, Arena e Oficina. Você dizia: “Um Deus Dormiu Lá em Casa” e ela mandava a ficha técnica. Biblioteca viva, aprendíamos mais ao seu lado do que lendo.
A Lúcia montou a peça com “jeitão de TBC”. Dizia: “Vou fazer teatrão de boa qualidade”. E fez. Foi professora de muita gente boa que está por aí. E excelente diretora. Foi indicada ao Shell por “Minh’alma Alma Minha”, com Linneu Dias – que poucos sabem quem foi e ficou conhecido por ter sido casado com a Lilian Lemmertz e ser pai da Julia.
Mas falo dela por quê? Ah! Sonoplastia. A Lu Lacerda e a Lúcia Pereira colocaram em cena uma gravação do Caruso cantando “Una Furtiva Lácrima” e eu tinha que chorar. Foi a prova de que Stanislavski sabia do que falava e o tal Método das Ações Físicas tinha mesmo fundamento. Na verdade, era Pavlov puro. Sabe Pavlov? Pois é: puro. Eu segurava uma laranja, ouvia a música e chorava. Até hoje choro quando ouço a música. Ou pego uma laranja da fruteira, o que vier primeiro.
Sinto falta dos sonoplastas que pesquisavam trilhas, faziam experiências, traziam coisas para a gente ouvir no gravador de rolo. Sou do tempo do vinil e do gravador de rolo. Do papel carbono, TV a válvula, máquina de escrever.
Meus primeiros escritos saíram de uma Olivetti Lettera. E fiz cópias com carbono, além das fotocópias; não era xerox, era fotocópia. Se soubesse que carbono era um crime ecológico, não tinha usado tanto.
Leila Diniz! Era o nome da Olivetti. Verdadeira musa naquele filme do Domingos de Oliveira, “Todas as Mulheres do Mundo”, e, claro, linda de barrigão de fora na praia. Minha mãe e minhas tias acharam um horror! Só li a edição do Pasquim anos mais tarde, graúdo, quando ela já tinha morrido.
Pena as pessoas terem feito tanto teatro e não termos um registro sequer. Nunca vi Cacilda no palco. Apenas fotos e o filme horroroso da Vera Cruz, “Floradas na Serra”. Ela dizia tudo articulado, erres e esses no lugar. Jeito antigo. Devia ficar bom no teatro, onde ainda é possível falar assim.
N’Um filme Falado, Caetano fala – ele não –, uma atriz fala, aliás, como se fala naquele filme! E depois dizem que cinema é ação. Pois então, ela diz que a TV destruiu a tradição de falar mantida viva pelo teatro. Engraçado é que ficam, ela e um rapaz, falando e falando com um chiado que ninguém suporta. A telenovela imprimiu um jeito chiado de dizer o texto e que a gente passou a suportar em tudo, até no teatro! Todo mundo chia. E de maneira naturalista, sem postura, sem andar, sem elegância. A TV acabou com a elegância. Repare: nem em novela de época a maioria é elegante. Uma garotada esperta de praia que só andou de chinelo e bermuda na vida, como pode fazer novela de época?
Outro dia falei para uma pessoa: bota ponto-e-vírgula na frase. E ouvi: “ponto-e-vírgula? Mas ponto-e-vírgula não caiu em desuso?” Alguém pode me explicar o que significa essa porra de expressão: cair em desuso?
Papo de velho, né? É que eu sou do tempo do papel carbono, da máquina de escrever, da TV Excelsior. De um monte de coisas que caíram em desuso: como a elegância, o bom gosto, o glamour... a ética. Quem tá caindo em desuso sou eu!

* Gerson Steves tem 25 anos de atividades teatrais na cidade de São Paulo, tendo atuado como diretor, dramaturgo, ator, produtor e professor.
E descobriu que a canção lá de cima foi gravada por Agnaldo Timóteo.
www.gersonsteves.com.br

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