Vocação inabalável pela arte

Vocação inabalável pela arte

 

Por Alysson Cardinali Neto

O começo de sua carreira não poderia ter sido mais curioso e inusitado: como contrarregra e camareiro de Antônio Fagundes, no monólogo “Muro de Arrimo”, dirigido por Antonio Abujamra. Corria o ano de 1976 e o jovem Elias Andreato, então com 21 anos, estava decidido: trocaria a área de publicidade, na qual já havia realizado alguns trabalhos, pela sua verdadeira paixão: a arte de dar vida à personagens, fosse no teatro, no cinema ou na televisão. O sonho de ser ator tornar-se-ia realidade um ano depois, quando este paranaense da cidade de Rolândia, no interior de estado, estreou profissionalmente no espetáculo “Pequenos Burgueses”, com direção de Renato Borghi e Ester Góes. Desde então, transformou-se em referência na profissão e um dos artistas mais ecléticos do País, capaz de arrebatar as mais exigentes plateias, nos mais diversificados gêneros.
“Já fiz drama, tragédia e comédia. Tudo é um prazer quando se gosta do que se faz. O gênero passa a ser um exercício do momento, uma escolha para se permanecer em cena”, ensina Elias, que se encantou pela profissão após assistir “Rosa dos Ventos”, espetáculo de Maria Bethânia e Fauzi Arap. “Tinha uns textos da Clarice Lispector, lindos. Fui arrebatado e, em seguida, comecei a fazer teatro amador. Antes de me tornar ator profissional, também fui contrarregra de Othon Bastos (antecedendo a experiência com Fagundes) e técnico de luz e som”, relembra Elias, 55 anos, com consolidada carreira (são 32 anos) não só no teatro, mas na televisão – atuou em várias novelas e minisséries da Rede Globo, como “A Muralha” e “Suave Veneno”, além de roteirista, em 1996, do programa “Sai de Baixo” – e na telona – destaque para “Irmãos de Fé” e “O Príncipe”.

 

 

Prazer
Embora tenha se destacado na telinha e no cinema, Elias Andreato não esconde que sua maior vocação está no teatro. É nos palcos que ele se sente mais a vontade e plenamente realizado. “O teatro é minha vocação, enquanto a TV, para mim, ainda é um mistério e o cinema algo um pouco distante. Mas o que eu gosto, mesmo, é de ser ator. Tudo que fiz como ator foi realizado com imenso prazer”, frisa Elias, sem menosprezar, porém, as outras funções que exerce (hoje é diretor e roteirista de seus próprios trabalhos). De todos os gêneros nos quais atuou, a comédia é o que mais o atrai. “A comédia é um jeito inteligente de ver o mundo”, avalia este pisciano, que adotou a cidade de São Paulo como sua casa e é dono de rara sensibilidade e talento na arte de compor seus personagens.
Talvez seja esta sensibilidade que o tenha transformado em um profissional dedicado e trabalhador, mas em um ser, como ele mesmo define, em constante busca pela felicidade. “Não sou um otimista. Até gostaria de ser, mas isso não acontece. Também não sou plenamente feliz. Aliás, estou distante disso”, diz, acrescentando que, mesmo depois de tantas conquistas na carreira, não está realizado profissionalmente. “É muito difícil se realizar. Carrego uma angústia enorme. Sempre que conquisto algo, preciso de novas conquistas. Será assim até o fim dos tempos”, avalia, com humildade.

Determinação
Pode ser esta inquietude, porém, a mola propulsora para o sucesso não só já alcançado, mas que ele ainda pretende alcançar. Afinal, Elias Andreato não se contenta com pouco e quer sempre mais. “Sou muito determinado no que faço, sou um trabalhador na essência da palavra. Irei estrear, em agosto, como autor, na peça “Mãe é karma”, com meu texto. É um exercício que me faltava no teatro. Além disso, vou dirigir o texto “Neva”, de Guillermo Calderón com tradução de Celso Curi”, garante Elias, que, no entanto, não se da por satisfeito nem com a bagagem que adquiriu ao longo dos anos. “Não sou um ator perfeito e ainda me falta muita coisa para ser: falta altura, falta cabelo, falta beleza… Adoraria saber cantar, mas fica para outra encarnação”, brinca Elias. Ele acompanha com atenção a nova geração de atores revelada pelo teatro. “É uma geração muito talentosa, mais inteligente, descolada e segura. Ela tem mais jogo de cintura”, avalia.

Fôlego de sobra
Incansável, Elias Andreato não para. Atualmente, ele se divide em três frentes: o seu sétimo espetáculo solo, “Doido”; a peça “Amigas, Pero no Mucho”; e a direção de “Mãe é Karma”, com Renato Borghi, Miriam Mehler, Nilton Bicudo e Olivia Araujo, prevista para estrear em agosto. “Doido” ficará em cartaz no teatro Eva Herz, em São Paulo, de 17 de maio a 28 de junho, inaugurando um novo horário de apresentação (sempre às 14h30, aos  domingos). “Doido” fala de amor, arte e mostra ao espectador o que essa viagem apaixonante pode despertar no artista e no cidadão comum, quando um homem narra e vive personagens da dramaturgia universal. Já em “Amigas, Pero no Mucho”, Elias faz o que mais gosta: atua, brilha no palco e da vida à personagem Fram, uma mulher de 50 anos, divorciada, dois filhos que moram com o pai. Detalhe: já passou dos 50 anos, mas quer parecer 30. A comédia já levou mais de 27 mil espectadores aos palcos de São Paulo, em 2007, e do Rio de Janeiro, no início de 2008, bem como no Teatro Renaissance, no começo deste ano. Agora, Amigas, Pero no Mucho, fará curta temporada no Teatro Jardim São Paulo, na Zona Norte, e estará em cartaz de 16 de maio a 28 de junho.

Carreira
Após ter passado pelo amadorismo, Elias estreia profissionalmente em “Pequenos Burgueses”, de Máximo Gorki, numa montagem de Renato Borghi, em 1977. Vive Oswald de Andrade em “Tietê, Tietê…” ou “Toda Rotina Se Manteve Não Obstante o que Aconteceu”, de Alcides Nogueira com o grupo Os Farsantes, em 1979, enfrentando, logo a seguir, um monólogo intempestivo: Diário de um Louco, de Nikolai Gogol, dirigido por Marcio Aurelio, em 1980. Ao longo dos anos, encena uma série de peças, como “Calabar”, texto de Chico Buarque e Ruy Guerra, “Lua de Cetim”, de Alcides Nogueira, “Édipo Rei”, de Sófocles, “Senhorita Júlia”, de August Strindberg e “Hello! Boy!”, de Roberto Gil Camargo, entre outros.
Em 1989, atua em “Sexo dos Anjos”, de Flávio de Souza, peça que lhe garante os prêmios Shell, Associação Paulista de Críticos de Arte, APCA, e Apetesp de melhor ator em 1990. Nesta década, participa de peças como “Solo Mio”, uma criação sobre textos de Caio Fernando Abreu, Murilo Rubião e Renato Borghi, Van Gogh, a partir de cartas deixadas pelo angustiado artista plástico, Repetition, de Flávio de Souza, ao lado de Xuxa Lopes,  em “Esta Noite Choveu Prata”, escrito por Pedro Bloch e Oscar Wilde, com direção de Vivien Buckup.
Diversas encenações levam sua assinatura, com destaque para “Levadas da Breca”, de Flávio de Souza, com Mira Haar e Patrícia Gaspar, 1988; “Não Tenha Medo Virgínia Woolf”, a partir da obra da autora, com roteiro de Elias e Esther Góes, 1990; “Tantã”, de Rafael Camargo, com Cristina Pereira, numa evidente preferência pela comédia e os gêneros leves. Em 1996 ganha o Prêmio Ibeu de melhor direção com “Os Fantástikos”, de Tom Jones e Harvey Schmidt, um musical Off-Broadway. Em 1997, dirige “Arte Oculta”, escrito e interpretado por Cristina Mutarelli, ao lado de Carlos Moreno. Em 2000, dirige Paulo Autran em “Visitando o Sr. Green”, de Jeff Baron, espetáculo que marca os 50 anos de carreira do ator. Em 2002, dirige Marília Pêra em “A Filha da …” , de Eduardo Silva.
Retorna como ator, em 2003, em “Artaud, Atleta do Coração”, uma análise de Artaud pelas pinturas de Van Gogh, sob a direção de Marcia Abujamra, e em Senhor das Flores, de Vinícius Márquez, dirigido por Marco Ricca. No cinema participa de algumas produções, com destaque para “Sábado”, “Os Boleiros” e “O Príncipe”, todos de Ugo Giorgetti. Recentemente, o ator trabalhou em espetáculos como “O Avarento” (com Paulo Autran), “Amigas, Pero no Mucho” e “Senhor das Flores” (com Caco Ciocler).

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