Teatro infantil à espera da maturidade

Teatro infantil à espera da maturidade

Por Felipe Sil

Na carreira de grande parte dos artistas brasileiros está lá, bem no início da lista de trabalhos no currículo, alguma peça de teatro infantil. É por este meio que atores e atrizes têm o primeiro contato com a arte dos palcos. Invariavelmente, porém, profissionais do teatro fogem do gênero com o passar dos anos. Uma onda de preconceito marca o estilo, já estigmatizado no setor. Prova disso é a dificuldade de patrocínio e os investimentos menores em comparação com o teatro considerado “adulto”. Fica a questão: por que as peças infantis não são valorizadas no Brasil, ao contrário dos países desenvolvidos, que costumam dar atenção e verbas “carinhosas” para o assunto?
As explicações são as mais diversas. As obras feitas para crianças geralmente não contam com grandes celebridades, atuais puxadoras de verbas no País. Os trabalhos infantis também não costumam ser vistos pelo meio acadêmico como algo produtivo financeiramente, nem intelectualmente sério. O teatro infantil, porém, é um grande formador de público: o futuro. “A criança que tem contato com o teatro desde cedo já tem uma vantagem sobre as outras. Irá se tornar uma pessoa amante das artes e com ideias bem consolidadas de solidariedade, amizade e outras virtudes”, avalia Fafá Rennó, atriz da Companhia Luna Lunera, de Belo Horizonte. 
Nada disso, entretanto, parece ser suficiente para facilitar a captação de verbas. O mais recente espetáculo da Cia. Luna Lunera, “Um Gato para Gertrudes”, só conseguiu patrocínio após meses de suada luta. A suposta baixa rentabilidade de peças infantis era a justificava usada por instituições que negavam a parceria. De certa forma, empresários e financiadores têm suas razões para tanto receio em investir nesse tipo de teatro. Afinal, o espaço dado para o estilo é praticamente nulo nos grandes meios de comunicação. A divulgação nos jornais e canais de TV de maior audiência é irrisória. Em uma economia de mercado, um fator dessa grandeza já é suficiente para assustar nomes importantes da iniciativa privada.

Qualidade como
diferencial
A consequência não poderia ser pior. Alarmados com o escasso patrocínio oferecido para o teatro infantil, muitos atores e produtores fogem do ramo e migram para obras destinadas a um público de maior idade, esvaziando ainda mais o estilo. Outro caminho inverso, abominado por antigos artistas, é a cópia barata de sucessos do exterior como forma de atrair a atenção do público. “Então fazem toda essa porcaria que vemos por aí, que só serve para estragar a imagem do teatro infantil. Há muita produção ruim no mercado e isso nos envergonha”, lamenta Amauri Ernani, que atua no segmento há 23 anos e é diretor artístico da Companhia Palco Produções, do Rio de Janeiro.
Um dos maiores erros do atual cenário do teatro infantil, segundo Fafá Rennó, é a insistência em apelar para a linguagem “infantilóide” para atingir o público-alvo. O uso da infantilidade extrema como forma de atrair a atenção da garotada já foi provado insuficiente em outros meios. Em desenhos animados e filmes feitos atualmente para os menores um detalhe chama a atenção: a rapidez das cenas. Pesquisadores e estudiosos da psicologia infantil afirmam, há alguns anos, que as crianças, hoje, preferem enredos velozes, ágeis e vibrantes, mas que, no fundo, a moral continue presente, mesmo que indiretamente. “Esse é o caminho para o teatro infantil. Aquele negócio de Tom & Jerry é ultrapassado. Os artistas brasileiros que trabalham nesse ramo precisam entender isso. Já saí no meio de apresentações recentemente porque não aguentava ver aquela linguagem infantilóide, que não prende a atenção dos menores. O ideal é que o diretor pense sempre em fazer algo que não agrade apenas as crianças, mas, também, seus pais, já que são eles, afinal, que levam a garotada para a frente dos palcos e estes precisam se sentir convencidos de que vale a pena voltar”, comenta.
A dificuldade para se obter patrocínio, alinhada com a baixa qualidade das produções atuais, fez com que boa parte da classe artística brasileira tenha desenvolvido um preconceito contra o teatro infantil. Os mais prejudicados são os atores que escolheram esse caminho, que acabam estigmatizados entre colegas de profissão. “É um absurdo essa ideia. O teatro infantil me proporciona desafios tão complexos quanto o teatro adulto. Só que, infelizmente, existe esse preconceito, gerado em grande parte pela mídia, que nos nega espaço de divulgação. O que é uma besteira, já que, mesmo entre tanta coisa ruim, há muitos autores novos se destacando no meio, principalmente em Curitiba, onde, a meu ver, há muitas obras de qualidade, que visam entreter a criança e não possuem um papel apenas didático, já que este não deve ser o único caminho”, relata Amauri.

Experiência de sucesso
Curitiba é mesmo uma cidade diferente quanto ao teatro infantil. Na cidade, o estilo é admirado e estudado desde a década 1980, quando artistas, autores e intelectuais apaixonados debatiam o tema e buscavam maneiras de aprimorar as encenações e a metodologia. Foi nesta onda de pesquisas e criatividade que a atriz Letícia Guimarães decidiu começar a carreira com a peça “Menino Maluquinho”, em 1987. Desde aquela década, o teatro infantil não arrefeceu na capital do Paraná, onde a produção artística para menores continua efervescente. “Aquele maravilhoso movimento ajudou a formar um modelo de atuação. Lembro que não gostávamos do rótulo de teatro infantil. Na verdade, o que funciona é realizar peças para crianças de todas as idades, fora do sentido cronológico do ser humano. Essa, talvez, seja a melhor maneira de nos livrarmos do preconceito que hoje reina na mídia. Muito desse estigma, porém, pode ser explicado quando notamos tantas produções que funcionam, na verdade, como caça-niqueis. Essa falta de respeito com a criança, que muito se vê por aí, é a causa de muitos problemas do segmento no Brasil”, analisa Letícia, que hoje faz parte da Companhia do Abração.
Uma opinião dissonante de boa parte da classe artística é a de Beto Andreta, diretor da Companhia Pia Fraus. Para ele, o Brasil é um país cruel, que elimina as chances de sucesso de qualquer pessoa ou empresa que esteja abaixo de um nível alto de excelência. De qualquer maneira, o mercado para o teatro infantil continuaria a oferecer um espaço razoável para a divulgação desse tipo de peça. “Já fizemos quase 20 montagens e sempre contamos com casas cheias. Ao todo, já realizei mais de mil espetáculos. O problema é que a classe teatral ainda é muito pouco profissional. Trabalho desde 1984 e consegui fazer meu caminho dentro do mercado. Não adianta só reclamar. O artista precisa avaliar, também, o próprio trabalho. Muitos ainda têm aquela visão romântica do século XVIII, mas, além de ter talento, é necessário certo empreendedorismo para alcançar o sonhado lugar de destaque. Aliás, trata-se de um mercado”, comenta.
Há, também, quem veja um segmento que se valoriza cada vez mais no País. É o caso de Warley Goulart, diretor do grupo Tapetes Contadores de Histórias. No dia 3 de outubro, duas peças da companhia estreiam na Caixa Cultural de São Paulo: “Palavras Andantes” e “Bicho do Mato”. Desde 2003, o grupo conta com o patrocínio da instituição, com espetáculos sempre lotados e divulgação eficiente. “Não poderia dizer o contrário. Temos essa parceria e também vemos um número cada vez maior de pais levando suas crianças às peças. O fato é que realmente existe preconceito contra todo tipo de trabalho feito para o público infantil, não só no teatro. A situação da literatura infanto-juvenil é um dos maiores exemplos. Isso é uma grande besteira. Só que, graças a Deus, temos tido sucesso e acho que a receptividade do brasileiro para esse segmento do teatro aumentou bastante nos últimos anos”, afirma.
Uma realidade, porém, é o fato de o teatro infantil ter papel essencial na formação dos jovens, embora ainda persista uma dúvida: o segmento é valorizado no Brasil? A resposta, talvez, só possa ser dada daqui a alguns anos, quando esses menores se tornarão adultos e decidirão sobre o futuro do País.
Falta de patrocínio e espetáculos ruins abastecem a crise do segmento
Início dos anos 1990. A mega-empresa Coca-Cola decide criar o Prêmio Coca-Cola de Teatro Infantil e passa a patrocinar entre dez e 15 peças todos os anos. Há um boom de expectadores e o segmento entra em uma fase promissora, após anos escondido nas sombras do meio. Nomes importantes como Teresa Frota, Carlos Augusto Nazareth e Dudu Sandroni ganham força. No final da década, entretanto, a marca decide encerrar com os patrocínios e o setor é esvaziado. Pior: não só o teatro infantil perde seu maior patrocinador, como a grande mídia deixa de dar atenção especial ao trabalho feito para a garotada. O poder público, por sua vez, manteve a tradição de desrespeitar o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e pouco tem ajudado a alavancar o segmento com incentivos e licitações. “Não se respeita o que está na lei, que é clara quanto à prioridade que se deve dar às crianças em todos os setores. Quem trabalha com crianças no Brasil parece fadado ao prejuízo. Veja o caso dos nossos professores da rede pública”, lamenta Antonio Carlos Bernardes, secretário do CBTIJ (Centro Brasileiro Teatro para Infância e Juventude).
A instituição, junto com o Cepetin (Centro de Pesquisa e Estudo do Teatro Infantil), ainda mantém as esperanças de um forte desenvolvimento do setor no Brasil. No momento, a luta é para persuadir grandes empresas para que voltem a investir maciçamente neste tipo de teatro. Para Antonio Carlos, artistas e produtores não conseguem mais ver benefícios em trabalhar e produzir uma obra voltada especialmente para as crianças. “Ninguém quer ter prejuízo. Nos editais abertos pelo poder público, o teatro infantil concorre sempre junto do adulto e o número de premiados do nosso segmento é baixíssimo. Então, há duas opções: investir no meio com recursos próprios ou participar daquelas produções horrorosas que hoje são abundantes por aí, com fantasias pessimamente desenhadas, e musicais super produzidos, mas sem nenhum conteúdo”, diz.
Além da péssima qualidade das peças atuais, voltadas ao público menor de idade, existem outros motivos apontados para a estigmatização do teatro infantil entre os próprios artistas. Um deles é a formação acadêmica, voltada, exclusivamente, para a atuação em programas de TV, o que leva ao esvaziamento das salas. Outro ocorre devido à violência na cidade, o que, muitas vezes, faz os pais pensarem cautelosamente se realmente é benéfico levar seus filhos ao teatro em vez de mantê-los em casa. Há, ainda, a falta de informação. Carlos Augusto Nazareth foi o último crítico especializado em teatro infantil no Rio de Janeiro. Em 2007, saiu do Jornal do Brasil e deixou órfão o segmento, que, àquela altura, já respirava com a ajuda de aparelhos.
“Não é do interesse da grande mídia falar sobre teatro infantil. Eles preferem comentar aquela peça que tem um ator global e que é encenada em shoppings da elite. Isso não é sinônimo de qualidade. Os pais, então, ficam sem saber onde levar seus filhos a uma boa peça e acabam caindo na armadilha de levar as crianças a uma dessas peças sem qualidade alguma. Muitos grandes produtores da década de 1990 desistiram do meio. Não sem razão. Afinal, não é um investimento lucrativo. Não há financiamento e os horários reservados para as apresentações costumam ser os piores possíveis. Os artistas brasileiros que têm preconceito com o teatro infantil também têm suas razões, já que, atualmente, muitos trabalhos produzidos para crianças são horrorosos. A imagem do segmento foi muito arranhada”, revolta-se Carlos Augusto, que também é diretor do Cepetin.

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