Sem chance para dizer Adeus!

Sem chance para dizer Adeus!

Por Claudio Magnavita

 

Quando o “Jornal Nacional” revelou o nome das primeiras vítimas do acidente do Airbus A330 da Air France, a classe artística – especialmente o pessoal ligado aos musicais – não acreditou no que foi divulgado. Entre as vítimas do voo 447 estava Juliana de Aquino, apresentada como “uma cantora brasileira que participava de espetáculos na Alemanha e que regressava depois de ter visitado a família em Brasília”. Entre as imagens da reportagem, o depoimento do seu pai, Benedito de Aquino, colhido no aeroporto da Capital Federal, onde tinha ido buscar notícias da filha.

Não havia dúvidas. Ela havia embarcado no 447 da Air France. Ainda no chão, com a aeronave no Galeão, ela fez uma última chamada para a família, despedindo-se e reafi rmando a sua alegria em retornar para a Alemanha, onde iria protagonizar o musical “Wicked”, no papel de Elphaba. Foi a última vez que seus entes queridos puderam escutar a sua voz, aliás, voz que foi o passaporte para uma das mais exitosas carreiras de um talento do teatro musical brasileiro no exterior.

Quatro horas depois, em pleno Oceano Atlântico, fechavam-se defi nitivamente as cortinas para Juliana, que foi um dos expoentes de uma surpreendente safra de talentos brasilienses, que, no início desta década, começaram a despontar nas grandes produções do teatro musical brasileiro, entre eles Saulo Vasconcelos, Frederico Silveira, Sara Sarres, Alessandra Linhares, Paula Capovilla, entre outros jovens talentos que tiveram como professor e preparador vocal o maestro Marconi Araújo, regente do coro da UNB, que atuou como regente do “Les Misérables”.

Enfrentando as difi culdades para a sua formação, principalmente por estar fora do eixo Rio-São Paulo, Juliana começou de forma precoce, aos quatro anos de idade, estudando piano, no Instituto de Música de Brasília. A sua carreira teve o incentivo constante de sua mãe, Walkíria, que a acompanhava nas audições e nas aulas. A veia artística herdou de seu avô, que também era músico e tocava clarinete.

Logo após se formar em Canto pela UnB, Juliana viu abrir uma janela internacional: a audição para artistas de origem afro-descendente, criada pelos produtores da montagem alemã Sem chance para dizer Adeus! Morte de Juliana de Aquino no AF 447 deixa o mundo dos musicais de luto. Cantora, que fazia sucesso na Alemanha, veio visitar a família de “The Lion King”, em 2002. A descoberta de talentos brasileiros para as grandes montagens da Broawday, no Brasil, despertou o interesse dos produtores do “The Lion King”, que promoveram audições em Salvador, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Aprovada na seleção, Juliana embarcou para a Alemanha sem desfazer os seus laços com o Brasil – permaneceu em contato com os amigos e, sempre que possível, regressou para assistir às estreias dos espetáculos dos seus colegas, entre eles Maurício Xavier, com quem trabalhou na montagem alemã do “The Lion King”.

Trabalhar com a Juliana foi muito divertido, ela sempre tinha coisas boas para falar e nos incentivávamos. Foi uma alegria tê-la na plateia do “Avenida Q” e de “Os Produtores”. O seu apoio me motivava muito”, relembra Xavier, que confessa ainda não acreditar no que aconteceu.

Sempre fiel às suas origens,Juliana aproveitou a viagem a Brasília para revisitar pessoas e lugares importantes na sua carreira. Poucos dias antes de embarcar, ela esteve no Estúdio de Performance Artística de Brasília e cantou para os alunos as canções do seu novo musical “Wicked”. Ela não escondia a sua alegria de ser a protagonista desta montagem. Estudava com afi nco e não se desgrudava da nova missão. Trabalhava em cada nota para melhorar ainda mais a sua perfomance. Confessou ao pai, Benedito, que achava que este personagem seria um marco na sua carreira.

A família ficou contagiada com seu entusiasmo e não poderia imaginar que, depois daquela despedida, a sua carreira seria ceifada de forma tão precoce.

Na Áustria, em 2008, Juliana participou da montagem de “Jesus Cristo SuperStar”, onde, no papel de Maria Madalena, foi aplaudida em cena aberta por um dos momentos mais tocantes do musical. A sua figura forte e marcante cedia espaço para uma doçura e leveza que levava os espectadores às lágrimas.

Lágrimas que brotaram dos amigos com a notícia do voo 447 e fi zeram com que muitos brasileiros corressem para os sites de relacionamento e para assistir os seus vídeos no Youtube. Várias mensagens de pesar foram deixadas, todas lamentando a perda pelo seu talento e a raridade de sua voz. A grande ironia é que o foco da grande mídia sobre o acidente chamou a atenção para esta jovem artista, que de forma póstuma consegue tocar um maior número de pessoas com o seu trabalho.

A vida de Juliana sempre esteve marcada por sinais do destino. A sua mãe Walkíria tem o seu nome inspirado em um dos clássicos de Richard Wagner, um dos maiores compositores alemães. Como uma guerreira a serviço dos deuses a D. Walkíria de Aquino esteve no Rio acompanhando as notícias ao lado de outros familiares do voo 447. Lembrando da fi lha, que na sua página do Orkut se defi nia como “uma criação de Deus”, esta mãe, na dor do seu luto, arranjou força para consolar os outros, transformando-se em um exemplo. “Minha fi lha era minha melhor amiga e confidente. Os nossos melhores momentos eram quando estudávamos juntas e quando eu a visitava na Europa”, relembra sua mãe, que tem como missão manter viva a obra e o trabalho da fi lha, que, em 2001, lançou o seu CD, “Primeira Vez”.

Neste CD, a faixa de trabalho era Manoel, que termina com o refrão: “Manoel foi para o Céu… Manoel foi para o Céu”. É impossível escutar a faixa sem se emocionar.

Juliana tinha como autor preferido um gênio da literatura francesa e patrono dos aviadores da França, o escritor Antony Saint Exupery, autor de “O Pequeno Príncipe”, piloto de avião na segunda grande guerra e que também desapareceu em um acidente aéreo.

Para uma de suas maiores amigas, Alessandra Linhares, “fi cará a lembrança e o exemplo de uma vencedora”. A amizade que começou ainda em Brasília, aumentou os laços mesmo com a distância. “Nos falávamos sempre. E o seu timbre belíssimo e a sua voz poderosa abriam as portas para as principais montagens europeias”, garante.

“Juliana era uma pessoa que sabia bem o que queria. Lembro do seu esforço quando estudamos juntos para o vestibular da UnB”, revela Fabio Barreto, ator e cantor que reside ainda em Brasília e complementa: “um dos traços mais marcantes da sua personalidade era a sua generosidade”.

Para os amigos e fãs o sentimento maior é o de vitória. O aplauso é a melhor homenagem para esta jovem talentosa brasileira, que na busca da realização do seu sonho, que encarava a sua voz como um dom de Deus, embarcou para a sua derradeira viagem deste plano no trágico voo 447. Até neste momento, uma coincidência. Teve como colega de jornada o maestro Silvio Barbato, seu amigo e regente da Sinfônica de Brasília.

Dois talentos ceifados de forma precoce e que nestes aplausos de despedida só nos trazem uma única questão, que fica sem resposta e que a lógica não explica. O por quê deste apagar de luzes tão repentino, que nos privou desses grandes talentos?

 

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