Quem é o insano aqui?

Quem é o insano aqui?

Por Danilo Braga

A loucura, segundo explica a psicologia, é uma disfunção nas mentes humanas que a faz ter pensamentos não aceitos e entendidos normalmente pelos instrumentos de entendimento e cognição da sociedade em que vive o paciente. Pode ser causada por uma doença ou ser a própria doença tomando conta do corpo do paciente.
A interpretação, segundo acreditam alguns atores, é emprestar o seu corpo à uma personagem, que vai gritar, chorar, sentir e existir através do seu corpo. Essa interpretação é uma forma de fugir da sua realidade e adotar para si, outra.
Na esquizofrenia, bipolaridade, psicose e em todas as formas de insanidade mental, você empresta o seu corpo para a doença, que possui e domina a sua mente. A sua realidade passa a ser a doença.
O interessante acontece quando há a fusão desses dois casos – o ator empresta o corpo à uma personagem que vai sublocar o seu corpo à uma doença ou insanidade. Além de exigir esforços adicionais do ator, um papel como esse exige uma pesquisa e uma sensibilidade ímpar, entre berros, murros e qualquer outra forma em que a loucura possa se manifestar. Certamente não é um trabalho fácil, mas temos grandes exemplos de montagens onde a insanidade levou o público e a crítica à loucura (esta, no sentido mais ameno da palavra).
Um dos maiores nomes quando se pensa em loucura é “Hysteria”, do Grupo XIX de Teatro. A montagem é focada na mulher brasileira que viveu no País na transição entre o rural para o industrial. O texto surgiu da descrição das condições em que viviam as mulheres internadas em asilos psiquiátricos da época. Atualmente está em cartaz pelo Sesc Santa Catarina, em Florianópolis, com o projeto Palco Giratório.
“Gotas ao Dia” aborda o tema de outra forma: Lyssa acorda em um hospital psiquiátrico, sob observação. Tenta, ao decorrer do texto, entender o porquê de estar naquele ambiente, em que período da história ela vive, que dia e que horas serão. Foi apresentada no Teatro Augusta, em São Paulo e foi a montagem de estréia do grupo Teatro de Risco. Assim como “Hysteria”, a montagem foi fruto de pesquisa baseada em casos reais de doenças mentais.
Outro espetáculo que cuida do tema da loucura é “Toc Toc”, escrita pelo francês Laurent Baffie. Em cartaz até 2 de agosto no Teatro do Leblon, no Rio de Janeiro, a peça apresenta seis personagens com TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo. As personagens que se mostram incomodadas e, de certa forma, até com vergonha de seus transtornos passam a dialogar sobre o assunto e a sala de espera do consultório se torna uma espécie de autoterapia entre os pacientes.
Indo nas origens mais profundas da literatura clássica filosófica, a encenação “Filosofia da Loucura”, da Cia. Fuzarca de Teatro é inspirada na obra “Elogio da Loucura”, do escritor, filósofo e teólogo Erasmo de Rotterdam. O espetáculo traz personagens acorrentados por uma cadeia de acontecimentos onde a fé, o amor, a vingança, o ódio e a paixão formam a colcha de retalhos do texto ímpar de Erasmo.
Essas montagens levantam uma questão que pode aparecer no público, eventualmente: onde reside a loucura? Está mesmo embutida em nós como diz o “Elogio da Loucura”? Uma mera característica humana, como sugere “Hysteria”? Fruto da pós-modernidade gerada na vida urbana, como em “Toc Toc”?
Todas essas montagens dão vazão à questionamentos perigosos que, por sua vez, podem despertar a loucura em você.

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