Quando ‘fazer arte’ vira sinônimo de talento e vocação para as artes

Quando ‘fazer arte’ vira sinônimo de talento e vocação para as artes

Por Letícia Souza.

Você conseguiria imaginar crianças, de três a seis anos de idade, criando histórias e elaborando espetáculos teatrais com suas próprias ideias? Pois é exatamente o que acontece no “Fazendo Arte”, do Tepa (Teatro Escola de Porto Alegre). Orientados pela atriz Eveliana Marques, mais conhecida como Ekin, os pequenos têm, na oficina, a oportunidade de descobrir que o seu mundo próprio pode servir para criar cenas de teatro.

Reunidos todos os sábados pela manhã, desde agosto deste ano, as crianças apresentam grande intimidade com o universo teatral. A ampla sala tem espaço livre para brincadeiras e o principal: um grande palco. Nele, histórias e personagens tradicionais ganham versões adaptadas pelos próprios alunos, de acordo com a maneira com que cada um enxerga aquele herói ou vilão.
Não existir certo ou errado é uma das regras. Portanto, a bruxa não é necessariamente má ou vestirá preto, o príncipe poderá abdicar do cavalo ao buscar a princesa de carro e a fada madrinha realizar os seus próprios desejos. Tudo dependerá do autor da história. “Cada um é livre para fazer tudo da sua forma, criando seu personagem como quiser”, explica Ekin.

É através desta liberdade de criação que as crianças desenvolvem a autoconfiança para transformar seus sonhos em espetáculos. São eles próprios que montam o cenário e organizam a história e as personagens. O grupo é dividido em dois grupos aleatórios: os atores do dia e a plateia. Assim, a segunda regra é colocada em prática. Respeito entre os colegas é, segundo a ministrante, fundamental para o bom andamento da oficina. Saber diferenciar a hora de ouvir, agradecer e aplaudir é essencial.
Regadas a muita diversão, está a terceira e última regra: as aulas também tem seus momentos de profundo aprendizado. A inserção de termos técnicos da arte à mentes tão jovens e dispersas parece uma tarefa complicadíssima para leigos, mas não para Ekin. “A técnica é introduzida, aos poucos, ao cotidiano deles. Por serem muito curiosos e inteligentes, eles querem aprender sempre. Durante as brincadeiras, introduzo informações técnicas como figurino e coxia, por exemplo, e eles memorizam com muita facilidade”, garante a atriz.

Ekin revela que começou a lecionar para o público infantil com a intenção de desenvolver seu trabalho de atriz e passar todo seu aprendizado adiante. Ela vê nas crianças um laboratório ininterrupto e afirma aprender muito com eles. “Essa faixa etária é quando eles estão criando sua personalidade. Vejo o teatro como uma forma de contribuir para o desenvolvimento no ser humano”.
O objetivo primordial da “Fazendo Arte” nos seus cinco anos de existência não é o de formar artistas, mas de despertar o “ser criativo” e desenvolver na criança suas potencialidades e dificuldades individuais, ativar imaginação e espontaneidade, além de trabalhar a desinibição e a relação de grupo. “Não estamos analisando quem está fazendo bem ou mal, certo ou errado, o importante é se divertir”, ressalta Ekin. Ao final da oficina, os pequenos irão apresentar um espetáculo com direito a plateia, e será a grande oportunidade de expor o trabalho de três meses de aprendizado.

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