Prêmio para a ousadia

Prêmio para a ousadia

Por Felipe Sil

Jovens, simpáticas, bonitas e talentosas. Vencedoras na categoria melhor atriz do Prêmio Shell 2009, no Rio de Janeiro e em São Paulo, Patrícia Selonk e Isabel Teixeira possuem diversas semelhanças, além das carreiras voltadas para o teatro de grupo. Ousadas e talentosas, elas revelam não ter medo de assumir papéis mais complexos, de difícil assimilação pelo público (por este motivo, talvez, suas atuações tenham sido tão elogiadas recentemente pelos críticos), mas garantem que interpretações polêmicas não são prioritárias. O que importa, frisam, são os desafios proporcionados por personagens que fujam do padrão. Nesta entrevista ao Jornal do Teatro, elas falam não só sobre tais assuntos, mas sobre cinema (querem experimentar mais a sensação de brilhar na “telona”) e otras cositas más, como o fato de não esperarem ganhar o Prêmio Shell.
Com 38 anos, Patrícia Selonk venceu o Prêmio Shell, no Rio de Janeiro, por sua interpretação em “Inveja dos Anjos”. Integrante da companhia Armazém, ela vê a premiação como uma prova de que, neste nicho do teatro, está no caminho certo. Já Isabel Teixeira, 35 anos, ganhadora em São Paulo por “Rainhas – Duas Atrizes Em Busca De Um Coração”, pensa em continuar a produzir peças e desenvolver maneiras de improvisar uma apresentação em cena.
Ao premiar atrizes que sempre buscaram experimentações e não tão conhecidas do grande público, o Prêmio Shell mostrou que aposta em um teatro de conteúdo. As entrevistas publicadas nesta edição mostram atrizes de vanguarda que, mesmo longe dos holofotes da grande mídia, souberam alcançar o sucesso e representam um teatro que, após anos de ditadura, começa a se solidificar novamente.

Patrícia Selonk

Jornal de Teatro – O que representou ganhar o Prêmio Shell de melhor atriz?
Patrícia Selonk – Eu não esperava. Foi muito legal e estou contente, pois sou uma atriz de companhia: o Armazém. O fato de eu ganhar um prêmio como melhor atriz só valoriza o papel do meu grupo. Senti-me meio como representante da companhia. Gostei muito do jeito que o Prêmio Shell valorizou o teatro de grupo. Isso não é algo que se vê toda hora. Isso é muito legal, já que mostra que, de alguma forma, consegui sucesso ao optar por um caminho, no teatro, que é mais árduo. O reconhecimento do trabalho veio da maneira mais difícil.  

JT – Muitos críticos disseram que “Inveja dos Anjos” foi uma das melhores peças de 2008. O Armazém já esperava essa repercussão?
PS – Quando estamos no processo de produção de um espetáculo, buscamos falar do que é importante para o grupo. O Armazém não tem como objetivo fazer concessões para, digamos, alcançar o sucesso. Acho, sim, que como o trabalho foi muito intenso da nossa parte, a repercussão que ele teve só fez jus ao nosso esforço. Este foi um trabalho extremamente lindo do Armazém e não me surpreendo com o seu sucesso. Acredito muito nesta peça. É legal perceber que, ao fazer um teatro que não é tão comercial, pode-se ter um resultado de público como tivemos. O Armazém é um grupo fundado em Londrina, no Paraná, há 22 anos. Depois nos mudamos para o Rio e já estamos aqui há 11 anos. Ao longo desse tempo conquistamos um público cativo. Hoje, quando o Armazém estreia um espetáculo, percebe-se grande interesse da plateia em entender nossa arte. Conseguimos conquistar um respeito.  

JT – Após o prêmio, quais são os seus planos para o futuro?
PS – O prêmio, sem dúvidas, me ajudou a perceber que estou no caminho certo. A ideia é continuar com o trabalho da companhia. Acredito no que fazemos, mas o futuro é incerto. O “Inveja dos Anjos” está completando seis meses de temporada no Rio. A partir de agora vamos levar a peça para São Paulo e percorrer alguns festivais de teatro. O que mais quero, no momento, é levá-la para outros lugares. Há dois anos, por exemplo, fizemos uma temporada no Nordeste com “Toda Nudez Será Castigada” e, em algumas cidades, é tradição o diretor, após a peça, falar com o público. Isso é maravilhoso. Você pega a plateia de surpresa, com a emoção de ter acabado de ter visto uma peça. Talvez uma pessoa me encontre dois dias depois e não fale o mesmo que me disse logo após o fim da apresentação. Na hora, muita gente que admite nem ir ao teatro me elogia e isso me emociona. Gosto muito de levar o teatro para várias plateias diferentes.

JT – Tem alguma peça que você mais tenha gostado de fazer? Um personagem em especial?
PS – Acho que “A Ratoeira é o Gato” foi muito importante, um espetáculo que me ajudou a ganhar o Troféu Mambembe. Tinha apenas 23 anos. O “Alice Através do Espelho” também é precioso porque conquistou um público fiel para o Armazém. O Chapeleiro Maluco foi uma personagem especial e a sensação ao terminar a peça era bem diferente da que senti em outros trabalhos. A alegria era imensa. Gostei muito também do “Mãe Coragem”. Alguns trabalhos são mais difíceis de realizar do que outros. No papel de menina muda, via-me obrigada a ficar extremamente atenta a outros movimentos para saber exatamente o momento de interferir. Tinha que ser tudo muito preciso. Teve, também, o “Inveja dos Anjos”, que foi um processo lindo, porém, mais maduro. Normalmente fico tensa quando penso em como vai ficar a obra, mas, desta vez, nada disso aconteceu. Foi um processo em que me senti bem mais tranquila. Quer dizer, mais segura no que eu poderia contribuir.

JT – Quais são os desafios do teatro, hoje em dia, no Brasil?
PS – Alguns fatores já melhoraram muito. Quando fui indicada para o Prêmio Shell, tive a oportunidade de debater com todas as atrizes indicadas para falar sobre teatro e afirmei que, com a experiência que eu tenho, percebi que o público do Armazém tem aumentado ao longo o tempo. Hoje, vejo muitas pessoas interessadas por um teatro que não seja comercial. Nada contra as peças feitas assim, mas seria chato se todos fizessem algo igual. Acho que mais grupos de experimentação têm surgido. Temos conseguido viabilizar o nosso trabalho. Dizem que fazer teatro, principalmente numa cidade como o Rio de Janeiro, é difícil, já que as pessoas tendem a apreciar peças mais ligeiras. Seria, portanto, complicado para uma companhia se estabelecer aqui. De maneira alguma concordo com essa ideia. Tudo depende de quem faz a arte. Não costumamos fazer concessões e temos um bom público. Nunca foi algo assustador trabalhar, do nosso jeito, no Rio. Isso, para mim, é sinal de melhora.

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Isabel Teixeira

Jornal do Teatro – Você já havia sido indicada em 2002 ao Prêmio Shell. Qual foi a emoção de ter ganho este ano?
Isabel Teixeira – A primeira indicação já havia sido um prêmio. Fui indicada pela peça “Um Bonde Chamado Desejo”, que gostei muito de fazer. Nessa segunda vez, também já considerava um prêmio só a indicação. Não esperava ganhar. Não é por modéstia que eu digo isso. Foi uma coroação, e falei isso no dia, de algo mais coletivo. Teatro não se faz sozinho. Dediquei meu prêmio a todas as pessoas que participaram comigo na realização da peça.

JT – Muitos críticos disseram que “Rainhas – Duas Atrizes Em Busca De Um Coração” foi uma das melhores peças de 2008. Você e seus companheiros já esperavam a repercussão?
IT – Não. Digo isso porque a gente fez a peça sem pensar no futuro. Se iria fazer sucesso ou não. Gostamos do risco que corremos com essa peça. Não somos escritoras, mas não estávamos preocupados com isso. O nosso foco era expor nossos corações no centro do palco.

JT – Você deixou a Companhia Livre e decidiu seguir carreira independente. Esse prêmio é uma prova do sucesso da sua escolha?
IT – Acho que é mais uma prova de que ter ficado oito anos na Companhia Livre me deu base e formação para produzir uma peça. O grupo me passou forte preocupação com a ética e com alguns modos de pensar e ver o teatro. Tive minha formação ali. Apesar de termos seguido caminhos separados, sempre estaremos juntos de alguma forma.

JT – Após o prêmio, quais são os seus planos para o futuro?
IT – Fiquei muito feliz pelo prêmio e, até pela pela minha formação em literatura, acho que o que pode ser um desafio é descobrir a melhor maneira de fazer com que um texto vire peça. Escrever algo em cena me atraiu muito, pois tem a ver com improviso.

JT – Quando você começou a se interessar pela carreira de atriz?
IT – Sempre considerei que a minha estreia foi aos 10 anos, na peça “Uma Aventura a Caminho do Guarujá”, de Ninho Moraes. Era uma peça infanto-juvenil e até ganhei um prêmio como atriz revelação. Depois disso, coloquei na cabeça que queria ser escritora e fui cursar a Faculdade de Letras, onde conheci o Davi Arrigucci Júnior. Depois, me inscrevi na EAD (Escola de Arte Dramática) e, ali, aconteceu a minha segunda estreia, com 17 anos. Passei a considerar, então, que esse foi meu verdadeiro início nos palcos. Só que, agora, tomei outra atitude quanto a isso e voltei a considerar que minha estreia foi aos 10 anos. Então, hoje, tenho 25 anos de carreira. Mas isso não é tão importante.
 
JT – Tem alguma peça que você mais tenha gostado de fazer?
IT – Gostei demais de trabalhar com Enrique Dias em “Gaivota”. Trabalhar com a Companhia foi tão bom… É algo tão família… Também gosto de tudo que fiz com o Humberto Lage. Fiz três peças com ele, que é como um pai para mim. O Humberto me tirou da EAD e me colocou em obras magistrais.

JT – Qual sua opinião sobre essa polêmica da Lei Rouanet?
IT – Em termos de política cultural, acredito que precisamos de uma revisão geral. Acho muito difícil o diálogo entre artistas e autoridades, não só no caso da Lei Rouanet, mas em outros assuntos. O diálogo interno, às vezes, é um pouquinho complicado. É um trabalho árduo você fazer, exercer um política cultural e poder interferir nela. É preciso dar muito de si. Por isso precisamos de muito diálogo.

JT – Atualmente, quais os desafios do teatro no Brasil?
IT – Antes da ditadura militar e do AI-5, o teatro vinha crescendo muito desde os anos 40. Era algo que apontava para o futuro. Havia espaço para pesquisas individuais e um diálogo muito intenso. Por quase 20 anos, porém, tivemos que calar a boca. Temos que voltar a criar condições para o surgimento de diversas tendências de teatro. Teatro é educação. Acredito mesmo que, investindo em cultura, acabamos com os problemas de qualquer cidade. O teatro é transformador.

JT – Quais são os conselhos que você dá para atrizes iniciantes?
IT – Acho que elas devem perguntar para o coração se é isso que elas desejam, pois é preciso persistência férrea.

JT – Você fez um filme, “Jogo Duro 10”, no cinema. Pensa em atuar mais neste meio?
IT – Lógico. Sou fã de cinema. Adoro John Cassavetes. Já fiz até uma camiseta “Eu amo Cassavetes” (risos). Na verdade, amo todos os meios em que eu possa atuar. Sou muito curiosa. Tudo me move loucamente e me dá vontade de aprender a fazer.

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