Porto Alegre em Cena 2009: o mundo do teatro em apenas uma cidade

Porto Alegre em Cena 2009: o mundo do teatro em apenas uma cidade

Por Leonardo Serafim / JT

Existe uma certa época do ano, em Porto Alegre, que artistas dos quatro cantos do planeta desfilam seus talentos pelos teatros da capital gaúcha. Que bilhetes se esgotam em segundos, por um público pronto para saciar sua sede pela boa arte. Que as aconchegantes poltronas das casas culturais da cidade são tomadas por um mar de gente, que busca, em algumas horas de espetáculo, transbordar emoções que apenas a arte cênica pode proporcionar. Tudo isso acontece no POA em Cena, evento que conquistou milhares de fãs com o passar dos anos, e chegou a sua 16ª edição no começo de setembro.
Desde 1994, na primeira edição do evento, mais de 690 peças, de 32 países, foram encenadas em solo gaúcho. Centenas e mais centenas de artistas, sejam eles sul-americanos, europeus ou de uma origem qualquer, pisaram nos palcos da cidade para encantar mais de 700 mil pessoas que já prestigiaram o festival.
Nessa 16ª edição, o evento promete manter a qualidade dos últimos anos – quem sabe, até, superá-la. Para isso, não faltam atrações. Logo na estreia, o Porto Alegre em Cena trouxe um dos espetáculos mais conceituados e cults do cenário internacional: a peça canadense “Kiss Bill”, paródia de uma das obras-primas de Quentin Tarantino, “Kill Bill”. Dirigida pela coreógrafa portuguesa Paula de Vasconcellos, a encenação deixa de lado os banhos de sangue aplicados pela atriz Uma Thurman, na versão original, para focar no amor e na compaixão. Recheado por números de danças e um humor impagável, a heroína da peça, ao invés de ir atrás de Bill para cortar sua cabeça, vai ao seu encontro para perdoar todas as suas atrocidades cometidas no passado.
As atrações canadenses não param por aí. Junto com a França, o vizinho educado dos Estados Unidos possui as peças mais cobiçadas pelo público gaúcho. Regado pela boa trilha sonora, que se impõe pelas “Sonatas Para Piano”, de Beethoven, o espetáculo “Crépuscule des Océans” traz bailarinos que executam com maestria movimentos ora sutis, ora enérgicos.
Já os franceses não deixam seu charme de lado e protagonizam três das principais peças do festival. “Quartett”, texto de Heiner Müller dirigido por Bob Wilson, com Isabelle Huppert será responsável pelo encerramento no Em Cena 2009. O renomado diretor francês Patrice Chéreau, também mostrará sua genialidade no evento. Mais conhecido por seus trabalhos no cinema, (Irmãos, de 2003, e Gabriele, de 2005) Chéreau apresentará nada menos que dois espetáculos. E quem for assistir as obras, terá de se conter para não cortar os pulsos, devido aos fortes temas. Em “La Douleur”, ele retrata o drama da escritora Marguerite Duras, que relata sua angústia enquanto espera o regresso de seu marido, deportado para um campo de concentração nazista, em 1945. Já “Le Grand Inquisiteur”, estória extraída de um romance de Fiódor Dostoiévski, conta a volta de Jesus Cristo à Sevilha do século XVI.
Entre as atrações nacionais estão peças do Rio Grande do Norte, de Pernambuco, da Bahia, do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Belo Horizonte, de Goiás e do Rio Grande do Sul. O teatro gaúcho estará representado por dez espetáculos que concorrem ao Prêmio Braskem em Cena. Mais uma vez, o Projeto de Descentralização levará encenações a todas as regiões periféricas da cidade, como uma iniciativa consolidada na grade do Em Cena, levando arte e cultura para essas comunidades.
Além das peças, o Porto Alegre em Cena também contará com diversas oficinas gratuitas espalhadas pela capital. O público poderá interagir e aprender um pouco mais sobre o teatro com renomados atores, diretores, professores, figurinistas e cenógrafos, que estarão presentes até o dia 25 de setembro, data de encerramento do festival.


TEMAS DO POA EM CENA

Polêmicas e corpos nus em mais uma edição do POA em Cena

Por Adriana Machado

Com tantos espetáculos a serem assistidos, o POA em Cena se torna um mosaico de assuntos polêmicos e instigantes, sem deixar de lado a contemporaneidade. Nos palcos dos teatros da cidade será possível ver – e refletir – obras de ficção política que exploram a realidade da guerra e seu poder transformador da consciência coletiva, como, por exemplo, o espetáculo “Diciembre”, do Chile. Ainda da América Latina, insegurança, violência, drogas, ética, culpa e responsabilidade numa história sobre a morte acidental de um menino de oito anos provocada pela polícia numa desastrada perseguição a terroristas, ponto de partida de “El ultimo fuego”, do Uruguai.
Textos perturbadores fazem parte do universo teatral apresentado no festival. Prova disto é o “La Douler”, da França, um pequeno volume em forma de diário, onde a escritora Marguerite Duras relata sua angústia enquanto espera o regresso de seu marido, deportado para um campo de concentração nazista, em 1945. Mas na programação do POA em Cena existem ainda histórias capazes de fazer rir. “La madre impalpable”, da Argentina, trata de uma mãe atrapalhada que vai à escola de seu filho para queixar-se de discriminação por ele ser gordo, numa cruzada patética e, com certeza, engraçada.
Grandes escritores e dramaturgos não serão esquecidos, exemplo resgatado em “Le Grand Inquisidor”, romance escrito pelo russo Feódor Dostoievski, em um capítulo retirado da obra Os irmãos Karamazov (A Lenda do Inquisidor), relatando a volta de Jesus Cristo à Sevilha do século XVI. Nelson Rodrigues, por sua vez, inspirou a montagem “Los Siete Gatitos”, do Uruguai, colocando em cena uma família que projeta em sua filha caçula todas as esperanças de salvação. Os espetáculos nacionais também adaptam obras de Moacyr Scliar (“A mulher que escreveu a Bíblia”); Eugene O´Neil (“Antes do café”) e Lya Luft (“O silêncio dos inocentes”).


Corpos em evidência
Na dança, o Canadá impera com maestria. Os destaques serão os corpos musculosos, nus ou com roupas de baixo, executando com maestria movimentos ora sutis, ora energéticos – caso da companhia Crépuscule des Océans. Ou então em duetos, exaltando o amor através de coreografias engenhosas de um dos maiores nomes da dança moderna daquele país, James Kudelka, coreógrafo e diretor artístico do National Ballet, no In Paradisum. Em “Kiss Bill”, da portuguesa Paula de Vasconcellos, três montagens, numa mistura de dança e teatro, estão juntos em uma paródia ao filme “Kill Bill”, do cineasta americano Quentin Tarantino. 
Os espetáculos musicais respeitam o ecletismo do público e começa com “Ruas” – show da cantora Mísia, de Portugal, uma das mais importantes fadistas portuguesas surgidas na última década, com participação especial de Adriana Calcanhoto. Fenômeno surgido a partir de vídeos na internet, o grupo israelense The Voca People, de Israel, fará cantorias à capela, coreografias e  o moderno beat-box (sons produzidos com a boca imitando instrumentos musicais). Os artistas se auto-intitulam oito “aliens”, amigos do Planeta Voca (um mundo onde a comunicação é feita apenas por expressões vocais) que, ao longo dos anos, ouviram a música da Terra e agora querem imitar os sons.
Os destaques nacionais não são menos importantes, com o show de Arthur Nestrovski, Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik, no Theatro São Pedro e Balangandãs, de Ná Ozzetti, e as canções imortalizadas na voz de Carmem Miranda. O público terá a chance de ouvir 15 canções especialmente selecionadas, em companhia do violonista Dante Ozzetti e o violoncelista e guitarrista Mário Manga. Outras atrações são “No Salto”, de Leo Cavalcanti, e, finalmente, Adriana Calcanhoto com “Qualquer coisa de intermediário”, recheada de poesia portuguesa de Camões e Fernando Pessoa, o fado, a canção provençal de Arnaut Daniel, Amália Rodrigues e os versos de Fiama Pais Brandão.

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