Paulo Betti: Sem medo de inovar e de dar opinião

Paulo Betti: Sem medo de inovar e de dar opinião

Por Felipe Sil

O ator Paulo Betti, 56 anos, já fez de tudo em sua área. Televisão, cinema, teatro… Poucos artistas da dramaturgia brasileira podem dizer que possuem a versatilidade deste profissional. Com o nome e o currículo que tem, poderia viver calmamente, na base de megaespetáculos e trabalhos esporádicos destinados ao grande público. Paulo Betti, porém, continua inovador e mantém as raízes do início da carreira, quando foi um dos fundadores do grupo experimental Pessoal do Victor e aluno da EAD/USP (Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo). Na última edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), surpreendeu o público presente ao andar pela cidade vestido de árvore, em encenação para a peça “Sonho de uma Noite de São João”. O ator também não tem medo de falar sobre política e é conhecido como um dos mais envolvidos no assunto dentro do meio teatral. Nesta entrevista para o Jornal de Teatro, entretanto, garante que todas as suas ideologias e convicções ficam fora de sua arte, apesar de admitir que ela é sempre, no final das contas, um posicionamento político.

Jornal de Teatro – O que você ainda carrega de ensinamentos e lições da EAD/USP, onde começou a carreira?
Paulo Betti – A gente aprendia a levar o teatro a sério com disciplina, responsabilidade e ética. O exame de admissão era muito seletivo. Para se ter uma ideia, concorriam 700 aspirantes, eram aprovados 20 e depois de um mês de exames práticos, teóricos, subjetivos… Aí vinham os três anos de aulas. Na minha turma fizemos quatro montagens com diretores importantes e eu tive a sorte de participar de muitas montagens do segundo e do terceiro ano, quando ainda estava no primeiro.

JT – E como foi tal experiência?
PB – Pude ver Eugenio Kusnet trabalhando “Os Pequenos Burgueses”, de Gorki. Trabalhei com Emilio di Biasi, Fernando Peixoto, Sylnei Siqueira, Antonio Mercado Netto, Sylvio Zilber, Miryan Muniz, Fausto Fuser, Luiz Nagib Amary, Jonas Bloch, Celso Nunes, Alberto Guzik, Candida Teixeira, Maria José de Carvalho, Renata Palottini, Mylene Pacheco, Yolanda Amadei, Clovis Garcia, Paulo Mendonça, Lucio Galvão, Leda Cury, tantos excelentes mestres… Mas aprendi muito com Carlos Alberto Sofredini, Elvira gentil, Laerte Morrone e Armando Azzari. Lembro a voz do Sofredini, pausada, rouca, dizendo “não se poupe”, “não se poupe”, uma espécie de bordão teatral eficaz, absolutamente essência de nossa atividade onde poupar-se, dar menos, é proibido.

JT – Como analisa, hoje, sua experiência no grupo experimental Pessoal do Victor, que você ajudou a fundar em 1975?
PB – Foi uma espécie de universidade de teatro pra mim. O grupo estudava, pesquisava, fazia montagens sobre temas interessantes como a cultura caipira, o surrealismo, a obra de Kafka… Tudo com a continuidade do trabalho de Celso Nunes, que nos acompanhou e nos deu de presente a montagem final de curso, que foi “Victor e as Crianças no Poder” de Roger Vitrac, que deu nome ao nosso grupo.

JT – Você sempre teve uma posição política muito forte. Tem o costume de levar essas ideias para sua atuação?
PB – Não gosto de levar política para o palco. Não penso na adequação política das peças que faço. Penso na densidade das obras do ponto de vista poético e dramatúrgico. Mas evidentemente que existe um filtro, que é a minha maneira de ver a vida, e nisso incluí a política, a percepção do poder, do jogo, da hipocrisia e tudo mais. Só que não penso, por exemplo, nos Sem Terra e na sua luta quando fiz “Na Carrera do Divino”, peça do Carlos Alberto Sofredini. No entanto, serve como uma luva para campanhas do MST, por exemplo. Aquilo, para mim, era emoção pura. Um libelo contra a injustiça da perda da terra ancestral, mas era uma preocupação muito mais humana e individual do que política e coletiva.

JT – Acha importante para o artista ter posicionamento político bem definido?
PB – Não, acho que é importante o artista ser bom no que faz e respeitar seus colegas e sua arte. Isso é mais do que suficiente. Quem quiser se meter em política que se meta, leve suas bordoadas, sofra as consequên-cias de expor suas posições, porque posições todos nós temos, e exerça suas pequenas influências. Alguns de nós, como Antonio Grassi, Beth Mendes, Pitanga, Stephan Nercesian, Antonio Pedro, Hugo Carvana, Celso Frateschi, Gianfrancesco Guarnieri e muitos outros chegam a ocupar cargos elevados na área cultural do governo. Me exponho muito politicamente, defendo as ideias que acredito, acompanho as reviravoltas do jogo político e pago caro por isso. Já fui acusado maciçamente pela imprensa. Eu sabia que era parte do jogo político, mas é um preço alto que se paga.

JT – Como você faz a ligação entre política e arte?
PB – A política está em toda a parte. A arte expressa o momento histórico, emocional e político de sua época. Toda obra de arte é um posicionamento político.

JT – Você acabou de encenar, ao ar livre, em Paraty, o espetáculo “Sonho de uma Noite de São João”, baseado em Shakespeare. Em outras ocasiões você também já se apresentou nas ruas do Rio. Como é essa experiência? Por que é importante e quais as diferenças de não atuar para um público mais selecionado?
PB – A rua é o espaço mais livre e mais difícil de se trabalhar. A pessoa assiste em pé. Quando enche o saco vai embora, toma uma cerveja, fala com o amigo… Não tem aquela convenção hipócrita de ter que ficar até o final e aplaudir em pé. Nunca vi lugar que se aplaude mais em pé do que o Brasil. Parece até que entendemos pra burro de teatro, porque precisa ser muito entendido para ficar aplaudindo em pé. Eu tenho verdadeira admiração e respeito pelos artistas que trabalham na rua. Desde o mais sofisticado ao mais simples, aquele cara que promete engolir um prego no final da performance, a Famiglia Milani, O Tá na Rua, do Amir, Galpão Cine Horto, de Minas Gerais; e tantos outros.

JT – Viveu alguma experiência anterior, neste sentido?
PB – Na Casa da Gávea estávamos nos sentindo aprisionados no nosso pequeno palco. Tive a ideia de irmos para a praça que existe em frente, no Baixo Gávea, ano passado, com o “Sonho”. Foi lindo. Esse ano resolvemos repetir e fizemos em Paraty, Quissamã, Piraí e Barra do Piraí. Foi muito legal. Em Paraty parecia que estávamos num autêntico teatro elizabethano. A Igreja de Santa Rita e o casario de Paraty ecoavam uma acústica perfeita para nossa peça. Foi um gosto trabalhar nessa peça. Meu filho me viu trabalhar pela primeira vez. Me viu sentado no meio fio, vestido de árvore, suado, com a maquiagem borrando. Ele sacou direitinho o que é o meu ofício.

JT – Qual a peça e o personagem que você se recorda com mais carinho?
PB – Muitas! Mas “Na Carrera do Divino” foi um momento especial de minha vida.

JT – Você também já teve grandes papeis na TV. Como foi parar nesse meio e
qual produção e personagem te marcou mais?
PB – A televisão entrou na minha vida entre 1977 e 1978, quando fiz a novela “Como Salvar meu Casamento”, na Tupi. De lá para cá, nunca mais deixei de trabalhar no meio. Gosto muito de atuar na TV. Acho um privilégio poder fazer novelas, estabelecer um vínculo forte com nosso povo, entrar em suas casas e contar histórias.
Acho a televisão o espaço mais importante da cultura brasileira. Quase todas as informações culturais que o o nosso povo recebe é através dela.

JT – Em que meio prefere trabalhar? Teatro ou TV? Quais são as principais
diferenças entre os dois quanto à atuação e à produção?
PB – O teatro tem uma produção mais artesanal, requer mais tempo de elaboração, nos prepara e nos corrige. Já a televisão exige mais rapidez. Gosto dos dois. O bom é quando podemos revezar, um no teatro e um na TV. De vez em quando no cinema também.

JT – O que é ser ator para você?
PB – É colocar nosso corpo, voz e sentimentos para representar um personagem levando distração, divertimento e conhecimento para o máximo de pessoas. É acreditar que tudo pode mudar. Tudo pode ser de outra maneira. É fazer conviver o vaidoso e o inseguro. O sublime e o mesquinho.

JT – Que conselho dá para os jovens atores? Ainda é importante fazer arte
de vanguarda e buscar experimentações em suas obras?
PB – O importante é ler grandes romances, cuidar do corpo, ver grandes filmes, peças…
Viver intensamente e não “se poupar”.

JT – Em declaração, na última edição do Jornal de Teatro, você afirmou que to­do ator, por uma deforma­­ção profissional decor­­ren­te do ofício, é
va­i­­­doso. Como não deixar a vaida­de influenciar o trabalho?
PB – Temos que equilibrar a vaidade e a nossa insegurança.
Não deixar que nenhuma sobressaia.

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