Olhar subjetivo do Festival

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Olhar subjetivo do Festival

Por Camila Moreira, especial para o Jornal de Teatro*
*Camila Moreira é editora do suplemento Subjetivo, publicação diária produzida durante o FIT. Seu contato é jncamila@yahoo.com.br

Muito além do cômico

O nariz vermelho é a tradução mais simples do palhaço. E quando falamos dessa figura tão conhecida nas artes cênicas, o riso é a primeira idéia que vem à mente. No entanto, não só da comédia vive essa figura. Na edição 2009 do FIT alguns espetáculos como “A Margem”, da Companhia do Gesto, e “O Silêncio dos Amantes”, Escola 2 Bufões, ambas do Rio de Janeiro, utilizam da técnica de clowns e bufões em um contexto que beira o dramático.
Em “A Margem”, por exemplo, o clown e o bufão são a base da construção dramatúrgica que se utiliza também de técnicas como a das máscaras, do teatro de sombras, de manipulação de bonecos e até mesmo do cinema, em um espetáculo sem texto algum. A peça mostra dois moradores de rua que compartilham o cotidiano de forma criativa e se comunicam por meio de sons.  “Em linhas gerais o espetáculo se pauta pelo humor – ácido em alguns momentos – para criar a reflexão, embora sem perder a possibilidade da poesia diante de uma temática dura como a dos moradores de rua,  exilados em meio às grandes metrópoles. Como na maioria dos espetáculos criados pela companhia, direção e atores compartilham juntos a criação do roteiro”, conta o diretor Luís Igreja.

Em um tom mais dramático, “O Silêncio dos Amantes” coloca em cena contos da romancista Lya Luft. No palco, os textos são transformados em monólogos, mas sofrem a interferência de outros personagens. Um mergulho lírico e trágico no universo de Lya Luft, falando da incomunicabilidade, da incapacidade de homens e mulheres de enxergarem o papel que ocupam nas vidas uns dos outros. “Histórias de partidas, de perdas, de danos, de palavras não ditas que levam ao drama, à intolerância e ao desamor. Por que há tristeza na vida, há solidão. Porque o teatro não se serve apenas do que é risível”, explica Moacyr Góes, diretor de “O Silêncio dos Amantes”.
Ambos os espetáculos levam a linguagem clown e bufanesca a um limite entre a comédia e o drama. O que, a princípio, parece um antagonismo, logo dá pra crer que o palhaço é aquele que faz rir com seu sofrimento. Na definição de Igreja, o clown é a redenção do Homem. “Verdadeiro antídoto ao mal que aflige a humanidade, que acredita na perfeição e na busca incessante pelo poder e pela vitória. O palhaço é um vencedor nato, pois faz da derrota alimento para o prazer, individual e coletivo. O palhaço aproxima os seres, devolve o indivíduo a sua condição elementar de simplicidade, da poesia, do afeto, do amor e da cólera. O Palhaço propõe um olhar vivo, não condicionado”.

Cenário público

Rua: Caminho público; o conjunto de lugares frequentados pelas pessoas em geral. A rua é o espaço público por natureza. Com o Teatro de Rua é exatamente a mesma coisa. A arte é feito para todos e pertence a todos. O acesso é livre, a interação é imprescindível e a adequação a fatores externos, um desafio. Desafio esse que o FIT promove ano a ano a vários grupos participantes.
Nesta edição, uma das atrações é o Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais, de Porto Alegre (RS), com o espetáculo “Miséria, Servidor de Dois Estancieiros”. O grupo possui dez anos de experiência no fazer teatral em lugares públicos e conhece bem todo o trabalho e aprendizado do Teatro de Rua. “O teatro em sua essência iniciou na rua, e o teatro de rua é um resgate à questão humana. Propõe olho a olho o contato direto público-espectador, onde, muitas vezes, o público está em cena. Nós temos de ter uma questão clara sobre a formação cultural das pessoas e de toda sociedade ou de uma comunidade”, afirma Giancarlo Carlomagno, ator do espetáculo.
Apresentações teatrais em espaços públicos promovem uma aproximação da linguagem teatral com o cotidiano da população. Dialogando com espaços alternativos ao palco e, principalmente, promovendo contato direto do teatro com as pessoas, inclusive aquelas que nunca tiveram a oportunidade de assistir a um espetáculo. Segundo Carlomagno, o Teatro de Rua é, em muitos casos, o primeiro contato do público com arte teatral e, em outros, talvez a única oportunidade.
Esses fatores fazem do Teatro de Rua um trabalho complexo e sério. Porém, essa seriedade geralmente fica bem longe das apresentações, no bom sentido, claro. O Teatro de Rua traz o humor, a vivacidade em cores e movimentos, a alegria da linguagem popular. Uma intervenção quase mágica no cotidiano das pessoas. Todos param para ver.
“Democracia não é democratismo. Queremos levar cultura e teatro para seres humanos como nós, ocupar os espaços públicos. Todo dia é um dia novo, cada espetáculo é um dia. A receptividade tem sido muito boa. O público é quem quer ver e quem tem a carência de cultura, do teatro de rua. Nós temos que ir mais a este Brasil, fazer mais apresentações”, sugere Carlomagno.
Nessa linha de atuação, o FIT promoveu durante os dez dias de festival, uma série de apresentações teatrais gratuitas por toda a cidade desde o centro até os bairros da periferia e, neste ano, até mesmo a seis cidades da região, por meio da Extensão Regional. Essa disseminação de apresentações por toda a parte promove uma integração com do público com o Festival, não limitando o acesso a apenas pessoas da área artística e comunicadores.
No FIT 2009, entre as apresentações em lugares públicos que a população pôde conferir estiveram: a performance “Baby Dolls – Uma exposição”; “Servidor de Dois Estanceiros”; “É Poesia Popular”; “Das Saborosas Aventuras de D. Quixote de La Mancha e seu Fiel Escudeiro Sancho Pancha – Um Capítulo que Poderia Ter Sido”; e os internacionais “Arcane” e “Sienta La Cabeza”.

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