Moacir Chaves e a Alfândega 88

Moacir Chaves e a Alfândega 88

Por Rebeca Dourado, Rio de Janeiro

Diretor à frente do grupo Alfândega 88, Moacir Chaves tem mais de 25 anos de carreira e um currículo com cerca de 40 peças encenadas em território nacional e internacional. Indicado ao 25º Prêmio Shell na categoria direção com a peça “A Negra Felicidade” e na categoria especial pela ocupação do Teatro Serrador junto com o grupo, Moacir é a prova de que a arte é viva e por isso pede sacrifícios em troca do prazer de estar em cena. 
Com o nome e a larga experiência que tem, o diretor é conhecido por romper com conceitos estáticos de dramaturgia o que torna seu trabalho ímpar no cenário teatral brasileiro. Em 1999, recebeu o Prêmio Governador do Estado de melhor direção e melhor espetáculo pela montagem de “Bugiaria” com a Péssima Companhia, também fundada por ele.
Em conversa com o Jornal de Teatro, Chaves fala sobre a trajetória do Alfândega 88 até conquistar a ocupação do Serrador, sobre a ideia de manter as peças em repertório para que não morram em temporadas curtas, sobre como chegou até ao caso da negra Felicidade – um dos pilares do espetáculo “A Negra Felicidade” – e seus futuros projetos junto à companhia.

Jornal de Teatro – Como o Alfândega 88 chegou ao Teatro Serrador?

Moacir Chaves – Eu conheço esse teatro há mais de 20 anos e já o visitava desde o tempo em que a Brigitte Blair pensava em vender o lugar. Eu procuro um espaço no Rio desde sempre porque acredito que os produtores e grupos devem ter seus espaços. Isso é indissociável do nosso trabalho, se não a gente fica refém da politica pública que muda toda hora ou do dinheiro dos teatros particulares tendo ainda que nos adequar a um esquema determinado e não fazer o que cada um acha melhor. Quando eu soube que o FATE (Fundo de Apoio ao Teatro) tinha aberto uma linha para manutenção de grupos, eu propus que o Alfândega não entrasse como produção de espetáculo e sim como manutenção do grupo associado à reabertura do Teatro Serrador, que estava fechado há quase 4 anos. O Alfândega 88 na verdade é um grupo muito novo, que estreou a primeira peça há quase dois anos e que continua em cartaz com ela. A companhia foi montada por mim com essa proposta: vamos fazer um grupo cujo objetivo é ter um trabalho contínuo, manter um repertório e ter uma sede? Imediatamente alugamos um espaço, convidei as pessoas pra tomar parte e nós fomos juntando dinheiro para comprar a sede. Arrecadamos cerca de 150 mil reais. Quando ganhamos o FATE, todo o dinheiro antes arrecadado foi usado para o reparo do teatro, para botá-lo em condição de receber o público. Na verdade, se nós fossemos pagar o aluguel pelo período que ficaríamos aqui, talvez gastássemos esta quantia no aluguel. Decidimos que valeria a pena “jogar” esse dinheiro fora em troca da experiência que nós viveríamos aqui.

JT – O que o Serrador hoje oferece como espaço cultural?

MC – O caráter particular do Serrador começa no tipo de programação das peças. Minha ideia, que vem desde quando fui diretor do Teatro Maria Clara Machado, no Planetário da Gávea, é trabalhar com as peças em repertório para que elas não morram, para que permaneçam acessíveis ao público e aos fazedores de teatro, para que elas possam crescer como entidades vivas. Esse é o grande diferencial. Claro que a gente tem curso, seminário, leitura, o grupo também tem inúmeras atividades internas de formação e de treinamento. Mas eu acho que o grande diferencial é a ideia do repertório. Ele só não é perfeito porque o nosso dinheiro é muito pouco. Isso limita a nossa possibilidade de agregar ao espaço produções mais caras que precisam de mais verba para a manutenção do espetáculo. “O Labirinto” é um exemplo muito importante porque foi produzido pelo FATE e antes disso ele já tinha uma pauta para três semanas no Espaço Sesc, em Copacabana. Nós poderíamos ter feito aquelas três semanas, o equivalente a 12 apresentações, e ter acabado ali. Isso é quase regra. E é dinheiro público. Não lembro mais quanto foi a produção, mas é dinheiro público. A peça está em cartaz até hoje – algo não tão comum – com texto do Qorpo-Santo, que é um autor muito pouco montado apesar da sua grande importância, e as pessoas vem ver, gostam do espetáculo. Já apresentamos no Teatro Leblon, fomos ao Festival de Curitiba, Porto Alegre e Recife, apresentamos no Sesc Jacarepaguá. Isso é que tem que ser porque não é só o dinheiro, mas todo o pensamento e o esforço contido no espetáculo. Esse trabalho também é preservação de memória. A gente aqui tem uma sede pelo novo, mas o nosso novo é quase sempre velho, porque já foi feito há muito pouco tempo, só que as pessoas não lembram. Não só na nossa profissão. Os jornalistas que cobrem a área de cultura, por exemplo. Quanto tempo eles permanecem nesta editoria? Muitas vezes eles acham que a matéria que estão fazendo é alguma coisa nova. Mas eles também não sabem, não tem referência, geralmente são jovens recém-formados ou com poucos anos de atividades e que ficam pouco tempo ali. Isso é uma tristeza absoluta. A gente fica muitas vezes fazendo um teatro anacrônico, velho e todo mundo achando que é novo. Isso não é um problema só do Rio. Isso é um problema nacional.


Sala Brigitte Blair, teatro Serrador. Foto: Rebeca Dourado

JT – As oficinas e leituras gratuitas trouxeram que resultado para a classe?

MC – Acho que as oficinas trazem mais resultados. Traz pra classe a possibilidade de entrar em contato com profissionais experientes, dispostos e que tem prazer em fazer o que fazem. Por exemplo, o Aurélio de Simoni. Eu também dou oficina aqui de dramaturgia. É uma possibilidade de reflexão e troca muito rica.

JT – A ocupação tem prazo pra terminar quando? Depois do Serrador, qual o plano da companhia?

MC – Com esse segundo FATE a gente fica até setembro. Depois disso a gente não sabe o que vai acontecer. Vou pensar em viabilizar o teatro aberto de forma menos sacrificante. É tudo ótimo, mas o trabalho é muito grande e a questão financeira é muito apertada. Pra você ter uma ideia, nesse segundo FATE nós ganhamos 600 mil para dez meses. O Teatro Glauce Rocha (a Funarte investirá 770 mil reais em 2013) inclui os funcionários, equipamentos, consertos em geral. Se quebra o ar-condicionado do Glauce Rocha, o conserto não é pago com esse dinheiro do edital. Aqui no Serrador é diferente. Aqui qualquer coisa sai do dinheiro do edital. Pagamos aluguel, todos os funcionários, etc. É realmente um esforço muito grande. Quando nós ganhamos o primeiro FATE recebemos 800 mil por 12 meses e era comum ouvirmos comentários maledicentes sobre a verba. Aqui ninguém ganhou dinheiro. Muito pelo contrário, eu perdi certamente. Esses 150 mil que investimos aqui é um fundo perdido, não será recuperado. É o maior barato, dá a maior satisfação, mas não é uma coisa que se mantenha assim. Você não pode exigir sacrifício das pessoas por um período muito largo de tempo. Sacrifício todos temos que fazer, mas não o tempo todo.

JT – Como você tomou conhecimento do caso da negra Felicidade e qual a importância da história no palco?

MC – Eu montei um espetáculo há muitos anos no CCBB chamado “A Violência da Cidade” e a ideia desse espetáculo era, de uma forma teatral, fazer com que nós pudéssemos ver e entender que a violência é a chave da organização da sociedade brasileira. Nossa sociedade é fundada pela violência, através da violência e graças a violência. Nós chegamos aqui e dizimamos os índios, e não foi com amor e afeto. Foi com espadada, tiro, com doenças disseminadas propositalmente pra esvaziar as terras, e assim vai. A questão do espetáculo era pensar que é uma grande baboseira a gente dizer hoje que a cidade é violenta. Durante a pesquisa do espetáculo eu li o livro Visões da Liberdade, de Sidney Chalhoub. No livro, ele analisa o caso da negra Felicidade e dizia que havia pesquisado seu processo no Arquivo Nacional. Eu fui até lá, contratei uma historiadora pra copiar tudo que era necessário e usei uma parte no “A Violência da Cidade”. A partir daí fiquei obcecado em fazer um espetáculo só com o processo dela. Fiz então um projeto e ganhamos o apoio da Eletrobrás antes de ganhar o FATE. Trabalhei e mesclei com trechos do Padre Antonio Vieira. Temos um espetáculo que obviamente reflete o pensamento, mas que não tem nada de didático. É um trabalho instigante, é uma questão apenas de fazer teatro.

Teatro Serrador, Alfândega 88. Foto: Rebeca Dourado

JT – A que você atribui o sucesso da peça e a indicação ao prêmio shell?

MC – É muito difícil responder isso porque tem um monte de peças que faço e penso que poderia ser indicada. Eu não sei por que uma peça é e outra não é. Essa peça, por exemplo, eu não sei por que foi indicada. Pode ser porque ela está na contra mão, né? Não é comédia, não é musical, não é stand-up. Ela tem 13 atores em cena e a gente utiliza um processo do Sec XIX. Eu nunca sei como vai ser a recepção. Eu sei quando o espetáculo está indo ou não, claro, mas a repercussão é incontrolável.

JT – Quais são seus projetos com a companhia?

MC – Eu quero trabalhar novamente com Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado de Assis. Eu fiz um espetáculo antes chamado “Memória”, em Curitiba. Foi um trabalho maravilhoso e eu quero voltar a trabalhar a obra com menos atores. Esse é o novo projeto do grupo. E agora, de alguma maneira, eu vou incluir o grupo nos meus projetos. O grupo tem dois anos, mas tem muitos atores que já trabalham comigo há muitos anos. A Elisa Pinheiro, por exemplo, foi minha aluna na UNIRIO há bastante tempo. Fora a equipe de criação, o Fernando Melo da Costa, o Aurélio de Simoni, o Tato Taborda, que são partes integrantes desse movimento e com os quais eu trabalho há muito tempo também. Portanto o grupo é novo, mas não é. Agimos como uma produtora e uma centralizadora e, ao mesmo tempo, ele vai se depurando. Essa experiência no Serrador foi muito boa pra isso. A gente vê quem quer o quê, de que maneira, quem se interessa pelo trabalho, quem é interessante para o trabalho, mas isso não está relacionado à qualidade artística. Está relacionado à expectativa de cada um. O que essas pessoas querem aqui? Às vezes elas querem coisas que não valem a pena pra nós e pra mim, especificamente. Se uma atriz, por exemplo, quer simplesmente ficar famosa, pra quê que a gente vai se dedicar a ela? Isso tudo é dedicação. Você dedica horas à pessoa. “A Negra Felicidade” é um espetáculo em que o público diz que o elenco está muito bem. Sim, é um bom elenco, mas nós trabalhamos arduamente pra chegar a esse resultado. E isso poderia em alguns casos ter sido direcionado a pessoas mais dignas de receberem isso. Não é uma questão moral, é simplesmente uma questão de objetivo.

O Teatro Serrador fica na rua Senador Dantas, 13, na Cinelândia, Centro do Rio de Janeiro. Os ingressos para os espetáculos custam R$20 inteira e R$10 meia. Classe teatral e estudantes de teatro pagam R$5 com apresentação de comprovante.

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