A coreografia de uma cidade Imprimir E-mail
Dança
Postado por claudia   
Sáb, 10 de Outubro de 2009 23:08

Giséle Santoro ajuda a apresentar a história da dança em Brasília

A capital federal possui outras bancadas além daquelas formadas no Congresso Nacional, onde os parlamentares se encontram para discutir projetos de leis e outras demandas de cunho nacional. Na bancada de cá, que não é formada por políticos, existe um grupo de difusores que trabalha arduamente para que a dança, em especial o balé, se mantenha vivo na capital. Para isso, a arte conta com um grupo de talentos como a ex-bailarina e professora, Giséle Santoro, conhecida internacionalmente como a Maìtre de Ballet. O título Maìtre é o resultado de mais de 30 anos dedicados à arte da dança. É a própria Giséle que conta um pouco desse panorama e como foi ser uma das pioneiras a trazê-la para uma cidade que acabara de nascer no Centro-Oeste brasileiro.
Os primeiros passos não foram muito bem sucedidos na nova capital do País, devido o golpe militar de 1964. “Os projetos profissionais de que participei, no início de Brasília, não tiveram prosseguimento por razões de força maior. O primeiro deles, a fundação de uma escola profissional de dança e de um corpo de baile não aconteceu porque o exame de seleção para contratação dos bailarinos foi realizado no dia do golpe militar. O segundo, o curso de graduação em dança da UnB (Universidade de Brasília), em fase de implantação,  foi adiado  em novembro de 1965, quando mais de 280 docentes da UnB pediram demissão coletiva. Enquanto isso, eu dava aulas particulares de dança na sede do Bancrévea – foi um dos primeiros clubes do Distrito Federal –, até a época em que deixamos  a cidade (Giséle e o marido, o maestro Cláudio Santoro) para ir para o exílio, em 1966.
O retorno de Giséle a Brasília aconteceu em 1978, com a missão de organizar a Escola Profissional de Dança do Distrito Federal e o Corpo de Balé do TNCS (Teatro Nacional Cláudio Santoro). O projeto foi interrompido novamente  devido à mudança de governo. Durante este período, estabeleceram-se na cidade as bailarinas Norma Lília e a Lúcia Toller. Ainda no mesmo período foi fundada na cidade a Academia Advanced, de Glória Cruz e Soraia Amorim. No ano seguinte, Cecília Leite e a Yara de Cunto abriram uma escola de música e dança chamada Academia Stilo, na quadra 302 Norte e na avenida W3 Sul, mas as iniciativas não duraram muito tempo.
Giséle conta que, nesse momento, surgiram várias escolas como IGE, Ofélia Corvelo e Regina Maura, entre outras. Mas boa parte delas foi fechada, o que levou à instalação de aulas de balé em colégios particulares e academias de ginástica. “Com isso, a clientela das academias de balé particulares, composta principalmente de crianças, diminuiu incrivelmente. Com a proliferação das academias de ginástica e o advento da popularidade de outros estilos de dança, novas escolas foram aparecendo e, para sobreviver, a maioria oferece, além do balé – que muitas vezes passa a ser complemento e não prioridade –, um mix de atividades físicas de todos os gêneros”, conta.
Em 1980, foi aberta na cidade a Academia de Balé e Artes Cênicas Gisèle Santoro, que funcionou até 1987. A escola patrocinou dois cursos nacionais de aperfeiçoamento em dança, com professores de nome nacional e internacional, que foi o embrião dos Seminários Internacionais de Dança de Brasília, iniciados em 1991. A cidade contou com companhias como Asas e Eixos, que teve curta duração; o Endanças, ligado à UnB, mas que acabou quando seu fundador foi para o Rio de Janeiro; o Balé de Câmera Gisèle Santoro e o Balé de Brasília, com bailarinos selecionados por audição que existe até hoje, mas que, por falta de espaço próprio, não mantém uma temporada regular. Há, também, grupos contemporâneos, desligados de academias, mas com bases diversas de apoio e que mantêm atividade regular como o Alaya, de Lenora Lobo, e, posteriormente, o Anti Status Quo, de Luciana Lara, e o Basirah, de Gisele Rodrigues, além do mais recente grupo, o Atmos Cia de Dança, de Janson Damasceno e Sheyla.

Dificuldades
e Resultados
Entre os obstáculos encontrados pelo balé em Brasília estão não só a falta de espaço para desenvolvê-lo, mas o pouco financiamento e, principalmente, no caso da dança, a rotatividade de bailarinos. Nas cidades em que as artes, em geral, e a dança, em particular, se desenvolvem, há o binômio formação/mercado de trabalho. O que significa haver uma escola estatal de formação profissional e um corpo de baile. As duas vertentes, conectadas, se auto-alimentam. Em Brasília, só a música dispõe deste binômio (na área de formação, com a Escola de Música e o Departamento de Música da UnB, bem como na área profissional, com a Orquestra do Teatro Nacional Claudio Santoro).
“Como a cidade não proporciona nada de nível profissional na área de formação em dança e não oferece o consequente mercado de trabalho, os praticantes de dança na cidade só têm como opção parar de dançar, ao chegarem à crítica fase do vestibular, e continuar no amadorismo, fazendo da dança um hobby. Ou ir para outros centros, seja no País, seja no exterior”, explica Giséle, acrescentando que a cidade possui grupos de expressão, mas ainda falta um estilo ou marca, devido à dança na cidade ainda ser muito jovem.
Outro dado apontado por ela é que não há um calendário  oficial em Brasília, devido a não existência de um orçamento de apoio. Mas os bailarinos brasileiros podem contar com um dos mais importantes festivais de dança realizado no País, o Seminário Internacional de Dança de Brasília, concebido pela própria Giséle. O evento acontece sempre em julho, no TNCS, e conta com o apoio da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, com a Associação Cultural Claudio Santoro, embaixadas e instituições culturais nacionais e internacionais.
O Festival oferece cursos, diversas disciplinas práticas e teóricas de dança e teatro. Outra característica do encontro é a oferta de bolsas de estudo em prestigiosas instituições de ensino na Europa e nos Estados Unidos, estágios remunerados e até contratos em diversos teatros e companhias no exterior. Desde a criação, o evento concedeu mais de 260 bolsas de estudos, estágios e contratos para jovens bailarinos brasileiros de talento.