Teatro do Concreto em diálogo com Brasília Imprimir E-mail
Brasilia
Postado por claudia   
Qui, 17 de Setembro de 2009 20:55



Por Dominique Belbenoit

O Teatro do Concreto é um grupo profundamente identificado com a cidade e com as possibilidades de diálogo que o seu significado simbólico e real possibilita. O nome do grupo foi inspirado na composição básica e arquitetônica da Capital Federal, onde curvas e retas são feitas de concreto. “Queríamos um teatro que dialogasse com a cidade assim como o rock e a música em geral convive de forma bem visceral com Brasília”, conta o diretor e fundador do Teatro Concreto, Francis Wilker.
Segundo Wilker, o Concreto trabalha na perspectiva do processo colaborativo de criação e envolve criadores de trabalhos teatrais nos processos de pesquisas. Em outras palavras, o foco de trabalho da companhia teatral está na reflexão sobre temas que afligem o homem contemporâneo e na investigação de novas possibilidades de composição da cena teatral.
“Temos procurado trabalhar muito diálogo no espaço urbano e eu acho que no nosso DNA tem sempre essa vontade de dialogar e de pensar no que representa um grupo de teatro na capital do País. Nesse processo colaborativo, procuramos, também, criar novos tipos de dramaturgia, o que já nos proporcionou certo reconhecimento por parte dos apreciadores”, avalia.
Criado em 2003, o grupo reúne 13 artistas de diferentes cidades satélites do Distrito Federal, além de colaboradores a cada novo processo. A proposta do diretor Francis Wilker é, também, levar à essas regiões mais isoladas, um pouco do dia a dia do grupo. “O Concreto tem uma preocupação que é pedagógica, mas não fazemos um teatro pedagógico. Fizemos a circulação do nosso trabalho, “Diário de um Maldito”, nas cidades satélites, e, antes do espetáculo chegar ao local, realizamos um trabalho de pré-apreciação em escolas públicas”, exemplifica.
Seguindo essa linha de raciocínio pedagógico, Francis pretende, durante o Festival Cena Contemporânea, realizar o primeiro fórum de teatro de grupo. “Temos o desejo de ajudar a fortalecer o teatro de grupo aqui no DF e isso representa uma preocupação pedagógica muito forte. Quanto mais grupos conseguirem se efetivar, mais a cidade tem a ganhar culturalmente”. Para completar esse processo, o Concreto está, atualmente, publicando três textos de projetos de três grupos de Brasília que serão amplamente divulgados durante o festival. Segundo Francis, os textos tiveram uma linguagem diferenciada, com uma dramaturgia própria, o que foi decisivo na seleção final. “Essa divulgação ajudará esses grupos a se consolidarem e ganharem mais visibilidade”, garante.
O Teatro do Concreto tem como fundamento o diálogo e a pesquisa. Atualmente, tem pesquisado o tema “Amor e abandono”. Como primeiro resultado dessas investigações, foi criado o Ruas Abertas, um conjunto de intervenções cênicas no espaço urbano que integrou o Festival Cena Contemporânea 2008 em Brasília. “Para isso, o diálogo com os brasilienses faz-se extremamente necessário. Realizamos campos de pesquisa aqui, nos corredores do Conic, e nas ruas, o que tem chamado atenção das pessoas. Fomos dialogar, também, com os grupos de teatro, com as escolas públicas e com os moradores das cidades satélites, o que gerou novas perspectivas”, conta o pesquisador.



Trabalhos realizados
O primeiro trabalho profissional que investigou as possibilidades de composição da cena a partir da dança pessoal começou em 2003, na Universidade de Brasília, e resultou no espetáculo “Sala de Espera”, adaptação do romance “A Doença”, uma experiência de Jean-Claude Bernardet. Em 2005, a peça foi selecionada para o II Prêmio SESC do Teatro Candango e, em 2006, para a mostra Fringe do Festival de Teatro de Curitiba e para a II Mostra de Teatro em Barreiras (BA).
Em 2004, o grupo se consolidou como um coletivo criador e iniciou ampla pesquisa acerca da vida e obra do dramaturgo Plínio Marcos. O processo, que durou dois anos, resultou no espetáculo “Diário do Maldito”, que estreou no Teatro Oficina do Perdiz, em novembro de 2006. O espetáculo, que deu maior visibilidade ao grupo, alcançou grande repercussão em 2007, ao participar de importantes festivais e acumular prêmios e elogios da crítica especializada e internacional. “É um trabalho que nos deu uma projeção muito grande, inclusive internacional. Ganhamos o prêmio Cesp de Teatro, no qual a nossa atriz Michele Coutinho ganhou premio de melhor atriz e, o grupo, de melhor cenografia”, comemora.
Um marco na trajetória do grupo foi a participação, em 2006, na oficina Processo Colaborativo, realizada em Brasília, pelo Galpão Cine-Horto (Grupo Galpão-BH/MG) tendo como orientadores o dramaturgo Luís Alberto de Abreu, a diretora e atriz Tiche Vianna, o diretor Chico Medeiros e o ator Júlio Maciel. Segundo Wilker, a experiência possibilitou aprofundar práticas e conceitos para ampliar o fazer teatral e a atuação como grupo. O processo resultou na peça “Borboletas têm Vida Curta”, espetáculo que explora a questão da memória a partir de sons e dos objetos, e leva o espectador a uma viagem emocional pela infância e suas descobertas inaugurais. Em 2006, o trabalho foi um dos convidados do 7º Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto (MG) e, em 2008, do Festival Nacional de Teatro de Macapá.
Em agosto de 2009, o grupo participou do projeto A Arte dos Malditos, do SESC Santos (SP), e, em maio, do mesmo ano da IV Mostra Latino Americana de Teatro de Grupo, organizada pela Cooperativa Paulista de Teatro, em São Paulo.


Futuro
O Teatro do Concreto possui metas que visam a formação de plateia em termos de dramaturgia. “Nosso desejo é se fortalecer cada vez mais como um grupo de Brasília e que o DF reconheça o Teatro do Concreto como um grupo de Brasília, assim como os nossos trabalhos. Outra meta é solidificar a nossa pesquisa de linguagem. Acho que esse aspecto é o mais importante para nós” conta o diretor.
Para Wilker, Brasília transpõe a ilusão que só produz comédia, o que é totalmente errôneo. “Não que eu seja contra, mas o teatro daqui não é só isso, existe um movimento muito forte de dramaturgia, mas que não é divulgado o suficiente. Pouca gente conhece esses trabalhos que considero bastante vigorosos” acredita.
Outra meta em andamento é a realização de um centro de referência ao Teatro Candango na própria sede do Concreto, onde doações de material são bem vindas. “A ideia é reunir materiais e produções de teatro feitas aqui no DF. São livros, DVDs, monografias, biografias de autores teatrais etc... Vamos realizar, também, palestras abertas ao público e convidaremos profissionais candangos para falar de diversos temas relacionados ao teatro regional”, revela.