
Por Daniel Pinton
Fantasmas existem sim. A afirmação categórica poderia soar como irresponsável ou digna de um baita mentiroso, mas funcionários dos mais diversos teatros do Rio de Janeiro não apenas corroboram com a certeza, mas também exibem um rico leque de histórias daqueles que já passaram desta para uma melhor e ainda não conseguiram mudar de palco: são os chamados fantasmas do teatro. As já consagradas histórias de pianos e violinos em concerto durante a madrugada inóspita do Theatro Municipal do Rio de Janeiro já não assustam mais. Mais do que lendas, viraram parte do inventário de um dos teatros mais tradicionais do Brasil. As histórias do Municipal, no entanto, chegam a parecer contos infantis frente aos mais novos relatos de funcionários de dois outros teatros da cidade. Não precisou de mais de seis meses na função para que a recepcionista e funcionária da limpeza do Teatro Oi Casagrande, Flávia Primo, percebesse que o local recebe visitas no mínimo, digamos, estranhas. Fugindo do constante binômio madrugada/teatro vazio, onde as histórias que são contadas geralmente se passam, Flávia conta que todas as suas experiências com o outro mundo são claras e à luz do dia. “Diariamente, de manhã cedo, no lounge do teatro, vejo uma sombra, um vulto que passa rápido e depois não consigo mais ver nada. Na primeira vez até pensei que era um amigo meu e fui atrás, mas quando cheguei perto não tinha mais ninguém. A pessoa que eu pensava que era estava inclusive em casa. O Tião, que faz obra aqui, também diz que durante o dia escuta alguém o chamando e quando segue a voz não tem ninguém. Diz que ouve barulho de alguém subindo na plateia e quando chega lá não tem ninguém”, afirma com veemência.
O CASO DA BONECA BIZARRA Os acontecimentos mais sinistros presenciados pela funcionária no Casagrande, no entanto, estão atrelados a duas peças de grande sucesso no teatro: “Hamlet” e “O Mistério de Irma Vap”. No caso de “Hamlet”, misteriosos homens de preto e, em “Irma Vap”, uma boneca bizarra. “Na época em que “Hamlet” esteve aqui em cartaz, eu vi durante o dia umas pessoas de preto andando na passarela suspensa. Quando íamos até lá não havia mais ninguém. Teve uma vez também que colocaram uma boneca de decoração ao lado de um pôster da peça “Irma Vap” e umas meninas que trabalham aqui contam que ela (a boneca) ficava seguindo as pessoas com os olhos. De tanto medo que ficaram tiraram a boneca”, lembra. O Teatro Tablado foi outro palco que não serviu apenas de espaço inicial para grandes atores da dramaturgia brasileira. É na estrutura cênica da mais famosa escola de atores do Rio de Janeiro que se passam histórias inusitadas contadas por José Severino da Silva, o famoso Zé do Tablado, que lá chegou para trabalhar como camareiro aos 28 anos. Hoje, aos 60 anos, Zé recorda, em detalhes, aparições mais do que sinistras que presenciou no local onde viveu maior parte de sua vida. “Já vi muito fantasma. Até hoje os fantasmas do Tablado aparecem para mim. Via gente dançando no palco, as pessoas chamavam pelo meu nome na minha cara e quando eu me virava e abria a cortina não tinha ninguém”, conta. Desempregado e vivendo atualmente em Itaboraí, município do Estado do Rio de Janeiro, Zé do Tablado lembra com saudosismo do dia em que o espírito de um diretor amigo apareceu para ele e fez um pedido bastante esquisito. “Depois de falecido, um diretor de teatro chamado Damião apareceu na minha frente, chamou pelo meu nome e pediu cerveja e brigadeiro. Não fiquei com medo dele porque ele gostava muito de mim”, diz, orgulhoso.
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