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Salvador
Postado por Danilo Braga   
Sex, 26 de Junho de 2009 17:05

Por Paloma Jacobina

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Cinco atores desempregados em busca de um lugar sob a luz dos holofotes. Foi assim que surgiu, há 21 anos, em Salvador, um dos grupos de teatro de maior sucesso do Brasil: a Cia Baiana de Patifaria. O grupo só se profissionalizou em 1991, já com o seu segundo espetáculo e maior sucesso de público, "A Bofetada", em cartaz. Foi aí que os patifes viram que a aposta de transformar o cotidiano em humor renderia bons frutos.

De lá para cá, a Cia assinou um repertório de seis espetáculos ("Abafabanca", "A Bofetada", "Noviças Rebeldes", "3 em 1", "A Vaca Lelé" e "Capitães da Areia"). Todos saíram de cartaz, mas "A Bofetada" ficou. Muitos atores também já passaram pela pele dos personagens que debocham das situações enfrentadas pela nossa sociedade. Cada um imprimindo sua marca, levando seu bordão e piadas para o palco e renovando, assim, os textos de Mauro Rasi, Miguel Magno e Ricardo Almeida a cada nova temporada.

Do formato original, o ator e atual diretor, Lelo Filho, e a falta de patrocínio se mantém como marca da montagem. Baiano que venceu as dificuldades de se fazer teatro no nordeste brasileiro, Lelo hoje se orgulha dos 800 mil espectadores conquistados nas 50 cidades brasileiras por onde o espetáculo já passou, sempre de maneira independente. Atualmente, ele se prepara - junto com um dramaturgo de nome famoso, mas ainda desconhecido na Bahia, o Vinícios de Moraes - para lançar a próxima comédia da Cia, "Sirico-tico".

Enquanto isto não acontece - o espetáculo está previsto para estrear nos palcos baianos no mês de setembro -, os patifes levam "A Bofetada" aos palcos, novamente, para comemorar a maioridade. As apresentações acontecem no Teatro do Isba, em Salvador, até 5 de julho.

Segundo Lelo, A Cia Baiana de Patifaria estava destinada ao sucesso desde o início por uma questão muito simples: a forma inovadora com que o quinteto se propunha a trabalhar. "A Cia veio na contramão de como se produzia teatro no momento, em 1987. Eu digo na contramão, porque, de certa forma, aqueles grupos que existiam estavam ligados à figura do diretor e a nossa companhia surgiu a partir da proposta dos atores", explica.

Lelo Filho, Moacir Moreno, Eduardo Leal, Tom Carneiro e Fernando Marinho vinham de processos diferentes do teatro que embarcaram na produção de "Abafabanca" de forma improvisada, com todos os figurinos emprestados e a atuação de diretores convidados. Tudo - funções, custos, perdas e/ou lucros - era dividido.

E a resposta do público foi imediata. "Os espetáculos daquela época tinham curta duração: o ator ensaiava três meses para ficar duas semanas em cartaz. O nosso foi o primeiro espetáculo que ficou em cartaz quase um ano, passando por vários teatros de Salvador, sempre com casa cheia".

Quando o "Abafabanca" acabou, a montagem de "A Bofetada" já aconteceu de forma profissional. "Foi o espetáculo que profissionalizou nosso trabalho no sentido de nos fazer entender que aquilo nós estávamos desenvolvendo de forma improvisada precisava ser pensado e elaborado para que continuasse dando frutos", reflete.

A primeira temporada de "A Bofetada" fez com que a Cia Baiana de Patifaria se modificasse sem perder a essência. O sucesso já conquistado com a primeira comédia foi extrapolado pela segunda. "Nós já lotamos a sala do Coro do TCA ao ponto de a plateia invadir o teatro, quebrar a porta e tomar conta do palco, porque a lotação estava esgotada". Então chegaram as etapas de registrar a companhia, os meios de produção e todo o processo de fazer teatro. No segundo espetáculo, os figurinos foram comprados com o cartão de crédito de um amigo, que foi-se pagando aos poucos com a bilheteria.

Quando a peça estreou, uma característica também foi claramente destacada. "A Bofetada" ficava muito tempo em cartaz, de casa cheia e sempre sendo reivindicada pelo público. "Para se ter uma ideia, a primeira temporada ficou quase seis anos em cartaz". Nesse período também foi gerada uma modificação cênica no espetáculo para que a estrutura não pudesse envelhecer e as piadas eram modificadas de acordo com o assunto do momento.

Ao longo dos 21 anos de existência do espetáculo, a capacidade de improvisação do grupo rendeu alguns bordões inesquecíveis, como o "Um momento lindo, maravilhoso" da personagem de Lelo Filho, Fanta Maria. "Esse caco surgiu numa das primeiras apresentações e eu fui aperfeiçoando. Hoje ele se tornou marca registrada da Fanta Maria e não pode ser retirado", conta Lelo.

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Sem patrocínio

Apesar do sucesso, "A Bofetada" só teve patrocinador uma única vez, na comemoração dos dez anos, e por apenas três meses. "A Lei Rouanet nunca nos ajudou. Acho que a intenção é boa, mas nós, por exemplo, somos uma companhia que nunca utilizou desses recursos, apesar de sempre termos projetos aprovados. Mas é uma perda de tempo, porque nós nos inscrevemos, atendemos a toda a burocracia, mas nunca conseguimos o patrocínio", revela Lelo Filho.

Segundo ele, a Cia é autossustentável. "Vivemos de bilheteria". Lelo afirma que a falta de informação do empresariado é um dos maiores responsáveis por tal situação. "Esta semana estava conversando com a diretora do novo espetáculo da Cia, Fernanda Paquelê, que recentemente teve de dar uma aula de legislação ao diretor de um banco que não conhecia os benefícios de se investir em cultura. O pior é que estas informações deveriam ser dadas pelo próprio governo, para que os empresários possam investir com maior força", reclama.

Para não deixar de tratar do tema, assim como é feito com vários outros que permeiam a sociedade como um todo, Lelo faz, no final de cada espetáculo, uma minipalestra de conscientização do público. "Porque acredito que, ali, na plateia, pode ter o gerente de marketing ou o dono de uma empresa que pode vir a nos apoiar no futuro".

O próximo espetáculo da Cia Baiana de Patifaria já está em fase de gestação e chegará aos palcos no mês de setembro. Os produtores não contam detalhes, mas afirmam que será uma comédia. Quanto à "A bofetada", o destino será determinado pelo público.

"Acho que ela vai ser enterrada no dia que eu achar que eu pessoalmente não posso mais fazer o espetáculo e o público não quiser mais assisti-lo. Comecei a fazer este espetáculo quando eu tinha 24 anos, hoje estou indo para os 47 e acredito que coloco nos meus personagens a mesma energia de antes. Assim como eu envelheci, nosso público está mais velho e está levando mais gente para ir renovando a plateia".