O estado do importante dramaturgo ainda é grave. Artista foi ferido por tiros em reduto teatral de SP onde era um dos maiores símbolos
Por Guilherme Genestreti, Redação São Paulo
Na madrugada de 5 de dezembro, um grupo de assaltantes invadiu o tradicional Espaço dos Parlapatões, na praça Roosevelt, e desferiu tiros contra algumas das pessoas que se encontravam no bar àquela hora. Entre as vítimas dos disparos, estavam o dramaturgo Mário Bortolotto, um dos maiores símbolos daquele reduto teatral. Até o fechamento desta edição, no dia 7 de dezembro, o estado de saúde do autor paranaense ainda era grave: ele teve de passar por duas cirurgias de risco para a retirada de duas balas alojadas em seu corpo – uma delas chegou a atingir o seu coração. O desenhista Carcarah, que também foi alvejado pelos criminosos quando reagiu ao assalto, passa bem dos ferimentos na perna. Ao longo de todo dia 5, a praça Roosevelt se converteu num palco de curiosos. Entre os transeuntes, muitos artistas e frequentadores da região, todos compartilhando sérias dúvidas quanto ao futuro da segurança no lugar. Quase dez anos após as primeiras companhias teatrais terem se estabelecido naquele local, a praça lentamente se recuperava de sua má-fama de lugar violento e se consagrava como nicho da boemia teatral em São Paulo. Um evento como o que ocorreu com Mário Bortolotto poderia assinalar um retrocesso no curso de revitalização da área. Por causa disso, grupos de teatro instalados na praça, como os Satyros e os Parlapatões, se uniram, na noite de 6 de dezembro, em um apelo que não apenas se solidarizava ao amigo internado, como também unia a classe teatral pela resistência daquele lugar. Próximo dali, na Santa Casa de Misericórdia, outra multidão de escritores, atores e diretores perambulava pelos corredores, em vigília e à espera de informações do estado de saúde do dramaturgo.
Obra marginal Despontando como um dos maiores nomes na dramaturgia brasileira contemporânea, Bortolotto sempre explorou em suas peças a complexidade do submundo urbano. A maioria dos seus personagens é composta por gente desajustada e sem rumo – pessoas que, assim como os bandidos que o atingiram, transitam quase que anonimamente pelas margens da sociedade. Nascido em Londrina, em 1962, Bortolotto mantém uma intensa produção teatral desde os 20 anos de idade. Junto à companhia Cemitério dos Automóveis, fundada por ele, escreveu diversos textos, vários deles também dirigidos e interpretados por ele. Em 2001, já estabelecido na cidade de São Paulo, o dramaturgo foi o vencedor do Prêmio Shell pela peça “Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet”, texto que seria adaptado para o cinema em 2008 com o filme “Nossa Vida Não Cabe num Opala”, do diretor Reinaldo Pinheiro. A violência e a desilusão são as maiores forças que movem os destinos na obra de Mário Bortolotto. E, coincidentemente, foi a violência que atacou o artista, concretizando por triste ironia o nome que escolheu dar ao seu último livro, “Atirem no Dramaturgo”, compilação de textos já publicados em seu blog homônimo. Herdeiro de uma tradição que remonta a Plínio Marcos, Bortolotto comemorava o sucesso de outra peça sua, “Brutal”, sobre uma seita de assassinos formada por pessoas que encontram no fanatismo religioso as respostas para o vazio existencial. O alerta contido no texto acabou sendo vivido na própria pele por quem tanto denunciava essas mazelas sociais.
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