O mundo mágico de Maria Zélia Imprimir E-mail
São Paulo
Postado por Danilo Braga   
Sex, 26 de Junho de 2009 16:54

Por Danilo Braga

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Contraste: a vila abriga o novo sem descartar o velho

 

"O que eu sempre falo é que a vila é um pedacinho do céu". Edélcio Pereira Pinto, zelador voluntário da Vila Maria Zélia enche o peito ao descrever o local onde mora. "É um lugar único".
A conversa acontece em um prédio que, um dia, foi boticário, uma legítima pharmacia. Edélcio, que prefere ser chamado de Dedé, nasceu e mora na Vila Maria Zélia, no bairro do Belenzinho, Zona Leste da capital paulista.
Dada como pronta e fundada oficialmente em 17 de maio de 1917, a vila foi planejada e desenvolvida para atender às necessidades dos operários de uma fábrica de sacaria de café, a Companhia Nacional de Tecidos de Juta, fundada por Jorge Street, um dos fundadores da Fiesp. Dedé é neto de um desses funcionários. Seu avô era conhecido como João Grandão: 1,92 metro de altura e muita admiração pelo seu patrão. Quando Dedé era pequeno e dizia que street significava rua, em inglês, seu avô não compreendia e se revoltava: "Toma tento rapaz, toma tento de mangar o nome desse homem porque esse homem é um Servo de Deus."
Não é possível precisar a data em que o vilarejo começou a ser construído, mas sabe-se que, em 1910, a fábrica já funcionava a todo vapor. Foi desenvolvida nos moldes de uma vila da cidade inglesa chamada Saltaire pelo mesmo arquiteto francês que a construiu: Paul Pedraurrieux, um dos profissionais que influenciou o trabalho de Ramos de Azevedo. Além das casas, creche, escolas, a pharmacia, sapataria, restaurante, clube esportivo e salão de bailes, Jorge Street também mantinha um Núcleo de Artes Cênicas na vila. O teatro, anos mais tarde, tornar-se-ia um dos principais pilares de existência - e também renascença - da Vila Maria Zélia.


A invasão inevitável dos meninos do teatro
A vila é favorita entre diretores e atores. Foram rodados lá os filmes Ravina, com Eliana Lage, O Corintiano, com Mazzaropi, e No País dos Tenentes. Depois de um tempo adormecida, Sara Antunes, do grupo XIX de teatro, foi quem, por assim dizer, redescobriu a vila. O interesse para fazer arte naquele lugar foi instantâneo, assim como o desejo pela conquista. E essa conquista se deu através de muita luta: não dos moradores locais com os meninos do teatro, mas dos meninos de teatro e moradores com a máquina estatal.
A sede onde hoje funciona o teatro é o prédio onde foi a pharmacia. O edifício, entretanto, ficou fechado por 60 anos, assim como os maiores prédios da vila. A razão disso eram as dívidas com o Iapi, que depois se tornou INAMPS, para finalmente se tornar INSS, "proprietário" dos imóveis". Sara Antunes quis saber da possibilidade de usar o espaço para o teatro, e junto com a Associação Cultural da Vila Maria Zélia, foram à sede do INSS para realizar esse trabalho. Depois de muita luta, conseguiram, de forma precária, uma autorização para a abertura dos espaços.
O Grupo XIX de Teatro criou, então, a encenação de Hysteria, que ganhou o coração dos moradores da vila e do mundo: foram convidados para levar o projeto adiante e representar o teatro brasileiro no Ano do Brasil na França (2005). Junto com o figurino e a força de vontade, o grupo XIX levou, também, informações sobre a vila, fatos e algumas fotos. A comunidade europeia se interessou pelo local e catalizou alguns processos políticos. No dia 25 de agosto de 2006, o então prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, assinou convênio com o INSS para a liberação de seis imóveis, que, segundo nota da prefeitura, tinham sido liberados "para implementação de projeto de revitalização da área e desenvolvimento de atividades." O teatro estava nessa entrelinha.

 

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Cena de Hysteria

A vila é pop
Lágrimas discretas escorrem pelo rosto de Dedé, que, tímido, as enxuga com a ternura de quem se envergonha do que não consegue controlar. Mas certamente o pranto discreto que surge em meio à conversa não é motivo de vergonha, mas de muito orgulho. "Meu coração transbordou de alegria. Algumas pessoas menos informadas, quando eu abracei a causa do XIX, falaram: é Dedé, fica com esse bando de viado. Esse termo pejorativo. Essa idiotice. Só uma pessoa pequena pode ter preconceito nos dias de hoje. Eu falava: é, vocês verão o que eles farão por nossa vila. E eles deram uma visibilidade extraordinária para o lugar de onde viemos. Eu não sei como posso pagar esses moços e essas moças."
Hoje, a situação está consideravelmente definida e os prédios serão restaurados. Ao entrar no vilarejo, um dos edifícios que surgem à vista é o antigo restaurante. Há uma placa indicando obras da prefeitura, avaliada em cerca de R$ 120 mil. As escolas se tornarão ETECs do Centro Paula Souza, com foco na formação de restauradores. Em outro prédio, o maior deles, funcionará o Teatro Maria Zélia, uma casa de espetáculos para a cidade de São Paulo. O Armazém nº 9, onde ontem foi a pharmacia e hoje funciona o teatro, amanhã será um centro de formação de chefes de cozinha, preparados para receber a Copa do Mundo de 2014. "Tudo caminha para que um sonho meu seja realizado, um sonho pessoal", conta Dedé, animado novamente.

Lugar não convencional
Anoitece e chegam à Vila, procurando por Dedé, Paulo Placido e Gisele Lavalle, do grupo Companhia do Fubá. Gi e Paulinho carregavam itens de cenário para a apresentação de um repertório criado a partir de textos de Eduardo Galeano. A apresentação, prevista para o fim do ano, surgiu a partir do trabalho de pesquisa para O Ator Dramaturgo, que aconteceu com o Grupo XIX ali na vila mesmo. Durante a pesquisa, usaram textos de Clarice Lispector. A pesquisa se tornou uma montagem, em formato arena, chamada Vila Clarice.
A escolha pelos textos de Galeano é explicada por Paulinho. "Uma característica que a gente achou no Galeano é a de contar histórias. A gente viu que não tinha muito sentido a gente dramatizar na verdade e optamos, então, pela narrativa", contou. Gi completa: "São personas e não personagens. Na Clarice, éramos personagens contando textos. Neste daqui a gente optou por sermos atores narradores dos textos do Galeano". A Vila Maria Zélia foi a materialização do espaço não convencional, que segundo a dupla, deixa o público mais perto. "É um lugar muito vivo, muito ativo, que o grupo XIX conseguiu transformar aqui".

 

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Vila Maria Zélia: queridinha dos atores