A hora dos encontros Imprimir E-mail
Especial
Postado por claudia   
Sáb, 10 de Outubro de 2009 22:17

Luciano Alabarse revela a real motivação do Porto Alegre em Cena

Por Rodrigoh Bueno

Antes de começar a entrevista com o Jornal de Teatro, o organizador do Porto Alegre em Cena recebe alguns convidados no belo casarão que serve como sede de produção do evento na capital gaúcha. Exibe, orgulhoso, as lembranças dos amigos que já passaram por ali e se lembra dos que ainda estão chegando. “Avisa a Ná que não poderei buscá-la no aeroporto, mas nos vemos sem falta no almoço”, diz para uma de suas produtoras entre um convidado e outro.
Este é Luciano Alabarse, criador, idealizador e agregador do Porto Alegre Em Cena. “Faço questão de receber pessoalmente os artistas que vêm para o festival, e não por qualquer papel institucional. Gosto de receber as pessoas, possibilitar os encontros e firmar os laços que me prendem a cada um deles: essa paixão louca e inquietante pela arte”, disse.
E é fato. Na noite anterior, acompanhei Luciano aguardando pacientemente para entrar no camarim de três jovens atores pernambucanos e possibilitar a eles mais um encontro.

As Damas de Caio
O espetáculo era “Monólogos de Caio F.”, uma junção de três peças de duas companhias pernambucanas. No palco, os atores Antonio Rodrigues, Henrique Ponzi e Marcelo Francisco. Um Caio Fernando Abreu apresentado com um sotaque diferente e ousado – por levar para a terra do autor os traços contemporâneos dos jovens atores. Além de Luciano, estava na plateia a irmã do autor e o diretor Gilberto Gawronski, que por mais de dez anos (e em vários idiomas) interpretou o brilhante texto “Dama da Noite”, de seu amigo Caio.
Tensão dupla na sala de espetáculo: de Gawronski na expectativa de ver um texto tão íntimo com um novo intérprete; e do ator, frente à sua grande referência. “Gilberto confessou que estava com muito medo e ansioso para ver a montagem. ‘Sei de cada palavra, cada pausa. Conheço tudo neste texto’ confessou ele a mim”, disse Luciano.
“No intervalo ele me abraçou e desabou de tanto chorar. Era o texto ganhando nova vida. As palavras do nosso amigo Caio transformando novamente”, completa Luciano.
O ator Marcelo Francisco, que vive em Garanhuns, Pernambuco, revela que soube da presença ilustre minutos antes de entrar em cena. “Fiquei muito nervoso e tive medo de não conseguir realizar meu trabalho como queria, mas a emoção parece ter sido positiva e o resultado foi elogiado, inclusive pelo Gilberto, que me disse que Caio ‘abençoaria’ a minha interpretação. A irmã do autor também usou essas palavras e disse que ele certamente estava por ali muito emocionado com esse encontro. Para mim foi um momento marcante que com certeza vou carregar por toda a minha vida artística”, conta.

Rejeição

Se os encontros ocasionados pelo festival são marcantes para algumas pessoas, outras preferem concentrar o tempo criticando a programação e comparando-a com os demais festivais. Luciano explica que o Porto Alegre em Cena tem uma meta: oportunizar diálogos, seja entre os artistas, entre artista e público; artista e cidade; e espetáculos e crítica. “Quando uma peça causa rejeição na plateia nossa meta também foi alcançada. É importante ter contato com diferentes referências para se escolher qual mais se relaciona com você. Isso agrega maturidade e desperta um olhar diferente para o mundo das artes”, conta.
Para ele, o mesmo acontece com a classe artística da cidade, que “divide com esses grandes nomes do teatro mundial o padrão vibratório que domina a cidade durante o festival”.

“E as novidades?”
O que esperar de novo em um festival já consolidado e respeitado no universo cênico? Continuidade – ou melhor, seguir desconstruindo as bases do teatro. “A única obrigação que temos na hora de montar a grade é com a consistência do projeto, a humanidade presente na atuação. Não sei muito bem da programação dos outros festivais e nem procuro saber. Ninguém concorre. Muito pelo contrário, o sucesso de diferentes eventos acaba reverberando em todos”, revela.
Ao que tudo indica, Luciano Alabarse já deu os primeiros passos para a próxima edição do Porto Alegre em Cena. Aliás, os dá todos os dias. “Me orgulho dos amigos que fiz durante a minha vida artística e é deles que busco as referências e a paixão para essa loucura de festival. Cada ano somos novos amigos e espero que possam aproveitar os dias em Porto Alegre. Eu e minha equipe queremos, apenas, fazer diariamente o melhor festival possível”, revela.