
Por Michel Fernandes, especial para o Jornal de Teatro*
Retomo o que o ator e dançarino Edu O. (Judite Quer Chorar, Mas Não Consegue) disse na mesa de debate do FILO 2009 (em meu primeiro artigo para esse jornal escrevi, detalhadamente, a esse respeito) de que “a dança foi o ambiente artístico que melhor recebeu o artista” cuja expressão artística ocorre de forma diversa da habitualmente conhecida. Outros corpos, outras qualidades de movimento, exigem novas descobertas dos profissionais da dança envolvidos nesse tipo de trabalho. Esse é um dos fundamentos da CandoCo desde seu inicio, segundo afirmou Celeste Denkeder, uma das fundadoras da companhia inglesa – que surgiu no cenário artístico em 1991 – a Henrique Amoedo, realizador da dissertação de mestrado Dança Inclusiva em Contexto Artístico – Análise de Duas Companhias, defendida, em 2002, na Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa, Portugal. E, segundo nos afirma Stine Nilsen, uma das atuais diretoras artísticas da CandoCo Dance Company, no início dos trabalhos em uma nova coreografia há uma “observação em cada movimento dos bailarinos (deficientes e não deficientes). Nós procuramos usar seus vocabulários de movimentos no caminho mais interessante e criativo”. A companhia inglesa vem a São Paulo, no início de outubro, para workshop, Jam Session e apresentação de seus dois novos trabalhos: The Perfect Human, coreografia de Hofesh Sherchter, e Still, de Nigel Charnok. A preocupação pedagógica é uma das características dominantes da CandoCo, desde seus primórdios, o que é uma louvável forma de expandir um movimento artístico engajado na celebração das diferenças. É preciso que se aplauda a iniciativa pública e privada – ProAC (Programa de Ação Cultural) da Secretaria Estadual da Cultura de São Paulo e Nestlé, que notou a dificuldade de interação entre deficientes e não deficientes na hora de recrutar funcionários – que possibilitam a vinda de tão instigante trabalho, com direito à tradução em libras, para a compreensão dos deficientes auditivos, e áudio-descrição, para os deficientes visuais, assim como se dá o trabalho apresentado pelo grupo carioca Os Sisos e Inclusos, coordenado pela jornalista e empreendedora cultural Cláudia Werneck (também citada no artigo sobre o debate no FILO 2009). Quero deixar bem claro aqui, já que também sou cadeirante, ou seja, me locomovo por meio de cadeira de rodas, que não pretendo envergar o assunto para o viés assistencialista – que repudio – e não quero falar de bailarinos que, “apesar de” deficientes, têm boa vontade e dançam, mas de artistas que simplesmente buscam novas formas de expressão corporal, utilizando e descobrindo suas potencialidades de movimento.
Novas formas de expressão Stine Nielsen aponta um interessante dado: “Muitos bailarinos querem o desafio de descobrir novas formas de movimentar-se, buscando diferentes vivências com bailarinos e coreógrafos experientes e a CandoCo oferece isso para profissionais com ou sem deficiência”. Fica claro, então, que é secundária a questão de “quem” está dançando e que o foco é aceso à “forma” dessa dança, à busca pelos movimentos, o que é fator comum entre todos os artistas dedicados à dança contemporânea. O que, à primeira vista, pode parecer obstáculo, mostra-se impulso à descoberta de diferentes qualidades de movimento. “Se eles (os bailarinos) tiverem talento, a excitação a cada descoberta dessa maneira nova de dançar terá um poder muito bom”, completa Nielsen.
O humano perfeito da CandoCo Uma das coreografias que a CandoCo apresentará em seu programa – que será apresentado nos dias 8 e 9 de outubro, no Teatro Alfa, e no dia 9, no mesmo local, com entrada franca apenas para ONGs e instituições para pessoas com deficiência – chama-se The Perfect Human, coreografada por Hefesh Shechter, bailarino que trabalhou na israelense Batsheva Dance Company, sob direção artística de Ohad Naharin, que deseja provocar o questionamento de nossa busca pela perfeição. Entretanto, conta Stine Nielsen, que o tema emergiu “durante o trabalho com os bailarinos, não havia uma pré-determinação” e, também afirmou que quando convidam um coreógrafo para trabalhar com o grupo – sistema adotado desde sempre pela companhia – não fazem “escolha prévia de um determinado tema.
Rudolf Laban e CandoCo Um elemento que me chamou a atenção enquanto pesquisava para enviar as perguntas que, a princípio, foram endereçadas a Pedro Machado, o outro diretor-artístico da companhia, foi a percepção que grande parte da formação dos diretores da companhia está conectada ao centro de estudos em que as técnicas de Rudolf Laban são o cerne das pesquisas corporais. Contudo, Stine Nielsen diz que a formação nas técnicas de Laban não é exigida para a entrada de bailarinos na companhia, embora sejam utilizadas algumas das técnicas labanianas na análise dos movimentos. “O foco na técnica de Laban é na descrição dos movimentos. Pensamos em elementos como corpo, espaço e dinâmica de movimentos”. Mas para fazer parte da CandoCo é preciso ser profissional com, pelo menos, dois anos de atividade. O primeiro passo você poderá dar durante o workshop da companhia, gratuito, no Centro Cultural São Paulo, nos dias 3 e 4 de outubro. E o porvir... Ah, esse é mistério. *Michel Fernandes é jornalista cultural, crítico, pesquisador de teatro e editor do www.aplausobrasil.com.br
SERVIÇO
Dias 3 e 4 de outubro - Workshops Centro Cultural São Paulo - CCSP Gratuito - mediante inscrição prévia por email Inscrições: de 15 a 29 de setembro, mediante envio de carta de interesse e currículo para o email
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Horário: sábado e domingo, das 10h30 às 13h30 – Sala de Ensaios 1
Dia 6 de outubro - EI! Encontro de Improvisação Centro Cultural São Paulo - CCSP Aberto ao público Horário: Terça-feira, das 12h às 13h30 – Sala Adoniran Barbosa Dias 7 e 8 de outubro - Apresentações para o público Teatro Alfa Horário: 21h Ingressos: R$ 30 e R$ 60 com venda de meia entrada. Classificação etária: 16 anos
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