 Em conferência internacional, praticantes do Teatro do Oprimido reuniram-se no Rio de Janeiro
Por Douglas de Barros
Brasileiros, senegaleses, angolanos, franceses, canadenses... Todos reunidos na Cidade Maravilhosa para a Conferência Internacional do Teatro do Oprimido, estilo criado pelo teatrólogo Augusto Boal nos anos 1960 e que ficou conhecido no mundo inteiro após o exílio de seu criador durante a ditadura militar no Brasil. Entre os dias 20 e 26 de julho, 52 representantes de 25 países dos cinco continentes, mais representantes de 16 estados brasileiros participaram do evento que ocupou três espaços no Centro do Rio: Caixa Cultural RJ (Teatro Nelson Rodrigues e Teatro de Arena) e Centro de Teatro do Oprimido - CTO. O ator Silvano dos Santos conheceu o Teatro do Oprimido, em 2004, através de uma palestra ministrada por Augusto Boal, e veio de Guiné-Bissau só para participar da conferência. “Foi muito positivo ver pessoas de tantos países dispostos a discutir um mesmo tema e com o mesmo ideal que é o de dar voz ao oprimido”, conta Silvano.
 Festa de abertura A cerimônia de Abertura, com entrada franca, contou com a participação de Rosa Maria Marques, da Universidade de Porto Rico, Célio Turino, do programa Cultura Viva do Ministério da Cultura e da socióloga Bárbara Santos, do CTO. Logo de início, a professora Rosa Maria, que acompanhou Augusto Boal durante muitos anos, relembrou a trajetória do Teatro do Oprimido no Brasil e no mundo. Em seguida, o secretário Célio Turino falou sobre a implementação e a realidade dos pontos de cultura, projeto idealizado pelo CTO em parceria com o Governo Federal, desde 2006, e que organiza 18 centros culturais em tribos indígenas, favelas, quilombos e assentamentos entre outras regiões marginalizadas. Os caminhos da Estética do Oprimido, última pesquisa de Augusto Boal, foi o tema da palestra de Bárbara Santos. Idealizadora da conferência, a socióloga falou sobre as diversas maneiras que cada comunidade tem de interpretar e entender o mundo à sua volta. “O oprimido está convencido de que é oprimido, no pior sentido da palavra. Está convencido do que é bom, do que é ruim, do que seria desejável, do que é moda, do que é música, através dos seus meios sensíveis, especialmente a grande mídia, que nos ataca pelo som, pela imagem e pela palavra”, afirma Bárbara. Ainda de acordo com a ativista, a técnica que representa procura resgatar no oprimido o desejo e a capacidade de transformar o mundo à sua volta. “A gente perde o domínio da palavra, do som e da imagem, como se isso não tivesse mais nada a ver com a gente, como se a gente fosse apenas um consumidor no mundo. Então a gente faz nosso trabalho no sentido de mostrar que nada do que é criado é eterno, pode ser recriado”, explica. Como ponto alto do primeiro dia de atividades, um coral, formado por representantes do Teatro do Oprimido de várias partes do mundo, se emocionou e sensibilizou a plateia do Teatro Nelson Rodrigues ao cantar a música “Canto Augusto”, composta por Nino Arcanjo, em homenagem ao último aniversário de Boal, no dia 16 de março de 2009. Após a solenidade, o público conferiu uma exposição com trabalhos feitos a partir da reciclagem do lixo. Os trabalhos também foram produzidos por integrantes dos pontos de cultura.
 Painéis de discussão A programação incluiu, também, mostras de espetáculos e de vídeos, encontro de praticantes, exposição, sarau e debates sobre o impacto do TO em diferentes áreas temáticas. O evento proporcionou encontros interessantes como o do palestino Edward Muallem com o ex-militar israelense Chen Alon, da organização Combatentes Pela Paz. Os dois usam o Teatro do Oprimido para despertar consciências para a violência cometida contra o povo palestino. Outro diálogo relevante aconteceu entre militantes do MST e o indiano Sanjoy Ganguly, que dirige há 20 anos a mais antiga rede de TO da Ásia, Anna Sanscrit, com 25 grupos e mil atores, com público regular de um milhão de pessoas. O sociólogo Geo Britto, curinga do CTO, afirma que, no Brasil, há uma resistência muito grande das universidades, fato que não ocorre em outros países. “Se você for a qualquer lugar do mundo, qualquer universidade fala sobre Augusto Boal. Em agosto vamos receber um grupo da Universidade de Nova Iorque. Já é o quarto ano seguido que eles vêm pra cá. Ficam uma semana, quinze dias com a gente. Veio o pessoal de Porto Rico, da TV Vive, da Venezuela, do Uruguai, do Chile. Mas aqui no Brasil dizem que Teatro do Oprimido não é teatro”, lamenta Britto. Os painéis contaram, ainda, com nomes como o norte-americano Doug Paterson, da Universidade de Nebraska, o moçambicano Alvim Cossa, que espalhou a técnica por todo o país e que agora se tornou estratégia nacional na luta contra a Aids; o sudanês Justin Billy, que atua com TO em zonas de conflito; os palestinos Iman Aoun e Edward Muallen, integrantes do Grupo Asthar, que há dez anos faz teatro nos territórios palestinos ocupados; e o alemão Till Baumann, que trabalha em presídios com jovens oriundos de áreas extremamente marcadas pela presença neo-nazista. Para mais informações acesse: www.ctorio.org.br ou ligue para: (21) 2232-5826 / 2215-0503.
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