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Por Rodrigoh Bueno

Embora insista em negar, Marília Pêra já mostrou ser uma ótima cantora interpretando mulheres como Maria Callas, Dalva de Oliveira e Carmen Miranda nos palcos. Além disso, lançou CDs e foi uma das primeiras "divas" dos musicais brasileiros. A afinação que sempre buscou agora é a principal inimiga de cena da atriz no espetáculo "Gloriosa", em cartaz no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo. "A composição desta personagem foi extremamente difícil para mim porque passei a minha vida inteira aprendendo a cantar e me aprimorando. De repente, tenho que fazer justamente o contrário, desafinar. Foi uma verdadeira desconstrução da minha voz. E, além disso, há uma transição no final do espetáculo, quando eu canto, finalmente de forma correta, a Ave Maria. Vou de um extremo ao outro", diz Marília Pêra, que interpreta Florence Foster Jenkins, uma cantora que não acertava uma única nota musical. Durante os ensaios, a atriz revelou que eram frequentes os erros - quando acertava as notas ao invés de errar, tarefa exigida pelos diretores Charles Möeller e Cláudio Botelho. Além de "ler música", Marília brinca com a possibilidade vocal no espetáculo, emitindo notas exageradamente agudas que provocam gargalhadas imediatas no público. Além disso, um piano acompanha ao vivo a cantora e é preciso que o desencontro seja mantido, favorecendo a interpretação do ator Eduardo Galvão - que com Guida Vianna completam o elenco. Marília Pêra acredita que Florence tinha uma vaga percepção de que não cantava bem. "Mas ela nem pensava nisso, creio eu, tamanho o amor que tinha pela música e a necessidade de estar cercada do aplauso. Na verdade, acho que ela não queria ter essa consciência, diz ela, que, além da Ave Maria, de Gounod, canta A Rainha da Noite, de Mozart; A Risada de Adele, de Strauss; e A Canção do Sino, de Lackme.

O diretor Charles Möeller diz que a escolha da atriz surgiu logo no primeiro contato com a personagem "Há alguns anos Claudio e eu assistimos a uma peça na Broadway chamada Souvenir e imediatamente pensamos na Marília para o papel de Florence Foster. Quando voltamos para o Brasil tentamos comprar os direitos, mas alguém chegou na nossa frente. Logo depois, e por uma incrível coincidência, os produtores Sandro Chaim e Claudio Tizo nos apresentaram a mesma história, desta vez na versão inglesa e com uma outra visão, a do autor Peter Quilter. E não poderia ser outra atriz no papel. Só uma profissional que canta muito bem poderia interpretar uma personagem que canta mal. A Guida Vianna dá um toque cômico muito especial à peça e Eduardo Galvão faz o papel de um sedutor", conta.
Guida se divide em três papéis: ora favoráveis à cantora que ignora a técnica em razão do prazer de cantar, ora desfavoráveis à louca que não conseguiu acertar nem mesmo uma nota em seus recitais, lotados. "Sou um coringa no espetáculo e os personagens são bem diferentes, o que tem me estimulado muito. Tem sido maravilhoso e um privilégio estar ao lado de uma atriz com o talento da Marília. E a história de Florence é fascinante. Chega a ser surreal, se não fosse uma história verdadeira". Embora a parceria de Guida e Marília tenha sido elogiada na novela "Duas Caras", da Rede Globo, as atrizes revelam que foi uma grande e grata surpresa o reencontro, proposto pelos diretores. Galvão interpreta o pianista Cosme McMoon. "Meu personagem é um homem que entrou na vida de Florence por causa do dinheiro, afinal ele precisava tocar para sobreviver e ganhava relativamente pouco nos restaurantes onde trabalhava. Mas, com o passar do tempo, Cosme adquire um carinho enorme por ela e fica ao seu lado até o fim" conta. O espetáculo é fiel à história de Florence, mas na última cena - talvez como redenção, ou homenagem - Marília dá vida à personagem já morta, mas desta vez afinadíssima.

Florence Foster Florence Foster Jenkins era a piada mais popular de Nova York nos anos 40 do século passado. Os ingressos para os recitais anuais que protagonizava no Hotel Ritz eram disputados a tapa. No meio de seu público, podiam ser reconhecidos Cole Porter e Noel Coward. A eles, ela oferecia um repertório caprichado - Mozart, Verdi, Strauss - com uma peculiaridade: conseguia as piores interpretações que estes compositores já tiveram em toda a História. Florence cantava mal. Muito mal. Tão mal que ganhou o apelido de "a diva do grito".
Nascida em 1868, Florence, desde criança, manifestou o desejo de seguir a carreira de cantora lírica. O pai, um banqueiro bem-sucedido, ao notar o resultado das primeiras aulas de canto da filha, recusou-se a continuar pagando seus estudos. Florence não desistiu. Aos 17 anos, fugiu de casa para continuar dedicando-se à arte de cantar. Casou-se, descasou-se e ficou na pior até o pai aceitá-la de volta, com a condição de que renunciasse ao canto. Ela topou e foi assim até completar 41 anos, quando o pai morreu e Florence herdou grande parte de sua fortuna. Não havia mais empecilho algum para mostrar ao mundo sua indomável voz de soprano.
Três anos depois, ela já estava dando seu primeiro recital anual. Tinha inquebrantável segurança de seu talento e dispunha-se a cantar as árias mais difíceis do repertório clássico. Em 1934, conheceu o pianista Cosme McMoon com quem formou uma dupla até o fim da vida. Neste período, manteve o recital no Ritz, agora com McMoon - ela vendia os ingressos pessoalmente para evitar a presença de jornalistas - e gravou dois discos. A renda ia sempre para instituições de caridade.
Aos 75 anos, viajando num táxi, sofreu um acidente no trânsito. Os amigos tentaram convencê-la a processar o motorista. Ela preferiu enviar-lhe uma caixa de charutos. Adquiriu a crença de que, depois do desastre, conseguia emitir um fá maior melhor do que nunca. Os amigos temeram também a gravação dos discos. Acreditavam que, se ela se ouvisse, perceberia o quanto cantava mal. Mas Florence não se deu conta. Achava que os discos revelariam seu talento para gerações futuras, seriam como um souvenir de sua arte.
Tinha 76 anos quando aceitou se apresentar a um público maior que o dos recitais no Ritz e estrelou um concerto no prestigioso Carnegie Hall. Feito o anúncio, os ingressos se esgotaram em poucas horas. Mais de duas mil pessoas voltaram da porta do teatro, na noite de 25 de outubro de 1944. Quem viu garante que foi uma apresentação inesquecível. E interminável. Entre uma música e outra havia intervalos enormes para Florence mudar de figurino. Sua roupa com asas - ela chamava de "Angel of Inspiration" - tornou-se um clássico. Conta-se que a atriz Tallulah Bankhead riu tanto durante a apresentação que teve que ser retirada do teatro. Um mês depois do concerto, Florence morreu. Há quem atribua a morte à depressão por, enfim, dar-se conta da reação do público e da crítica.

Marília Pêra A atriz, diretora, bailarina e coreógrafa nasceu no Rio de Janeiro, filha dos atores Manuel Pêra e Dinorah Marzullo. Sua estréia no palco foi aos quatro anos de idade ao lado de seus pais, que integravam o elenco da companhia de Henriette Morineau. Dos catorze aos 21 anos atuou como bailarina e participou de musicais como "My Fair Lady" (1962) e "O Teu Cabelo Não Nega" (1963), no papel de Carmen Miranda - que voltaria a interpretar em diferentes momento da carreira, como em "A Pequena Notável" (1972), e no musical "Marília Pêra canta Carmen Miranda" (2005). Entre seus feitos musicais está a disputa (vencida) com Elis Regina em 1964 em um teste para o musical "Como vencer na vida sem fazer força". Sua primeira aparição na televisão foi em "Rosinha do Sobrado", na Rede Globo (1965). Em seguida vieram "A Moreninha" (1966), e os espetáculos musicais "A Úlcera de Ouro", "Fala baixo senão eu grito" (1969). Além de Florence, tem interpretado grandes mulheres no teatro, entre elas, Maria Callas, Carmen Miranda, Dalva de Oliveira e Chanel. Mas, o trabalho político também está presente em sua carreira. Nos anos 60, chegou a ser presa durante a apresentação da peça "Roda Viva" (1968), de Chico Buarque. Com uma das carreiras mais consolidadas do teatro, cinema e televisão, Marília diz que ainda sonha com um grande papel no cinema "Mesmo tendo na história grandes personagens, como em Pixote e Central do Brasil", conta. |