 Atriz Esther Góes leva sua experiência e mentalidade ousada para os palcos, para a TV e para a Funarte
Por Felipe Sil
Com a carreira extensa e impecável exposta a todos no currículo de Esther Góes, confesso que não sabia bem como seria a personalidade dessa atriz que, em outubro, tem a tarefa de incorporar no palco ninguém menos que Heléne Weigel, a lendária artista que revolucionou o teatro no início do século passado. Já estava preparado para lidar com alguém que poderia, até pelo acúmulo de experiências passadas e de afazeres atuais, não estar muito interessada em abrir a sua vida e bater um papo com o Jornal de Teatro. Engano meu. Esther se mostrou rapidamente ser uma das fontes mais simpáticas com quem já tive oportunidade de conversar. Em uma entrevista que durou aproximadamente uma hora e meia, a atriz falou sobre o monólogo “Determinadas Pessoas-Weigel”, sua participação na série “Bela, a Feia”, na TV Record, e sobre sua atuação como coordenadora de programação do Complexo Cultural Funarte de São Paulo. O resultado pode ser visto abaixo:
_ Jornal de Teatro – No dia 24 de outubro estreia o seu monólogo “Determinadas Pessoas – Weigel”, em São Paulo? Como é essa obra? Esther Góes – Essa peça procura mostrar a criação do teatro épico através da personagem Heléne Weigel, esposa do dramaturgo Bertold Brecht. Na verdade, esse tipo de teatro nasce com o trabalho de Brecht aliado à interpretação dessa artista. Foram os fundadores da companhia Berliner Ensemble, que teve uma importância imensa no século passado, que perdurou até a década de 70. Buscavam sempre colocar firmemente a posição que arte e política poderiam andar juntas. Essa peça, primeiramente, é uma investigação sobre o teatro e a sociedade. Weigel era uma mulher que vivia o teatro em todas as horas do seu dia. JT – Deve ser interessante pegar essa história a partir da perspectiva deste novo século, não? EG – Sim, é interessante, a partir da vivência do século XXI, dar um novo sentido a todos esses acontecimentos. Temos hoje uma distância histórica, que nos permite dar uma perspectiva mais crítica na avaliação da trajetória dessa mulher. Para mim é muito legal esse trabalho, já que na minha juventude eu abracei como uma causa o teatro de Brecht. Gostava dessa coisa absoluta em busca da investigação sobre o teatro, de ver a entrega dos artistas. JT – Como é interpretar uma atriz que, de certa maneira, reinventou o teatro? EG – O meu filho, Ariel Borghi, dirige a peça e ele me ajudou muito na investigação desse personagem. Todas as características de Weigel são de vanguarda. Teve uma coragem suprema por, mesmo judia e tendo passado por duas guerras mundiais, ter fundado um trabalho como o Berliner logo no pós-nazismo. É uma mulher de uma complexidade ímpar e que exige um grande esforço de compreensão e também capacidade de síntese. Weigel é uma mulher da contemporaneidade. JT – Ter estudado a vida de Weigel te ajudou a entender melhor profissão? EG – Claro. Na década de 20, ela já possuía uma linguagem avançadíssima para a época. A artista transcendia os limites e não seguia os caminhos tradicionais. Essa mulher exige realmente uma investigação muito profunda. Estudando-a, eu percorro a minha própria trajetória e o fundo da minha alma. Isso é precioso. JT – Por que decidiu estrear essa peça? EG – Há alguns anos procurava uma referência. Depois de um tempo de estrada teatral, você acaba sentindo um grande vazio na profissão e faz arte por fazer. Ser atriz é poder se reconstruir várias vezes. A investigação do papel do artista se tornou necessária. Eu precisava de alguém que fosse um guia. A descoberta da possibilidade de reencarnar alguém como Weigel me pareceu, então, um grande desafio. Sempre gostei muito dela. Aquela coisa de não colocar nada acima da verdade. É sempre muito importante analisar as pessoas generosas do sexo feminino. Apesar de grandes articuladoras, costumam ser vistas sempre como pessoas imprecisas. Essa é a segunda personagem que interpreto que possui essas características. JT – Qual foi a primeira? EG – Foi Tarsila do Amaral. Esta era realmente tímida. Já Weigel fechava a boca era para não ser impedida de realizar o seu trabalho. Interpretando Tarsila era possível ver toda a formação do modernismo. Já com Weigel reparamos na articulação do teatro épico. É impressionante a grandeza do trabalho. No entanto, ela é quase invisível. O trabalho de Brecht, porém, é todo feito baseado na maneira de sua interpretação. Aqui no Brasil, por exemplo, eu e Ariel achamos pouco material sobre a artista. Eu tive de viajar para a Alemanha para fazer a minha investigação in loco. De lá trouxe biografias, documentos e muitas entrevistas com gente que também estudou a atriz e o Berliner. JT – Como se preparou para interpretar o personagem? EG – A preparação foi algo muito interessante. No teatro épico o interesse é focado exatamente no espectador da plateia. Há uma exigência de não se fazer nenhuma concessão a efeitos especiais ou coisas do tipo. O que mais me marcou, porém, foi o trabalho do registro vocal de Weigel, que é naturalmente muito grave. JT – Como foi feito? EG – Tive que realizar um intenso trabalho para conseguir alcançar timbres mais graves de voz para falar dentro do registro dela. O modo como ela se comunicava era inimitável. Algo maravilhoso e que consegue exalar ternura em um registro muito grave. JT – Como analisa a sua participação em “Bela, a Feia”, como a personagem Bárbara? EG – Eu gosto muito desse personagem. É desafiante. Trata-se de uma mulher completamente mutante. Uma montanha-russa (risos). Ela age e reage de acordo com cada acontecimento. Existe essa coisa da pessoa que foi muito mimada na infância e na juventude, tendo mais do que precisava, e depois perdeu tudo. JT – Alguma semelhança com a realidade da sociedade brasileira? EG – Muitas mulheres que na década de 50 eram socialites, que construíram verdadeiros impérios e viviam em festas maravilhosas e divinas pela madrugada passaram por esse problema. É um fenômeno bem típico da década de 50. Só que, após a decadência, essas pessoas não conseguem esconder a realidade, mas também não esquecem a memória. Bárbara é uma personagem que passou por tudo isso e agora é da classe média, que não tem mais de onde tirar e o que comer muitas vezes. Então, acaba chateada e irritada, sempre louca para ter novamente aquela antiga vida, o que acaba lhe proporcionando um falta de sentimentos com os outros. JT – Qual a diferença entre atuar no teatro e na TV? EG – Atuar em si nunca é diferente. Existe o prazer puro e simples da interpretação. Só que a TV e o teatro são lugares realmente diferentes. Talvez por já ter feito muitas pesquisas profundas e ter atuado há muito tempo nesse meio, creio que o teatro é o espaço que mais me convém. Na TV o negócio é mais representar, já que não tenho muito direito à escolha dos temas e nem participo deste processo. Apenas faço o que é pedido. Gosto muito de experimentar a obra que é feita na televisão. É uma arte mais voltada para o grande público. Divirto-me muito na TV, principalmente quando se trata de comédia. São personagens sempre muito gostosos e que me permitem degustar bastante novas linguagens.
JT – De todas as aparições no cinema, quais as que te marcaram mais? EG – No cinema foi “Stelinha”, de 1990, um filme em que fui premiada como melhor atriz no Festival de Gramado. Naquela obra eu experimentei a linguagem cinematográfica e muita coisa era nova. Não cheguei a fazer muitos filmes. Não sou uma atriz específica de cinema. Só que tudo funcionou bem em “Stelinha”. Também fiz um trabalho muito bonito que foi “Pagu”, de 88, em que interpretei pela primeira vez a Tarsila do Amaral.
JT – E na TV? EG – Na TV eu destacaria meus dois últimos trabalhos na TV Record: o “Amor e Intrigas” e agora “Bela, a Feia”. Na Rede Globo eu citaria “O Direito de Amar”. Já fiz também várias coisas boas na TV Cultura, que inclusive voltam a reprisar diversas vezes. Era o início da minha carreira e me orgulho bastante dessa fase.
JT – No teatro, quais os espetáculos que mais te marcaram? EG – Já fiz tanta coisa no teatro... Mas não posso deixar de citar o “Hair”. Tinha diversas críticas quanto a esse espetáculo, mas, hoje, vejo como foi bonito ter entrado no meio pela porta da frente, em um obra de tão grandes proporções. Depois de “Hair” eu cito “O que Mantém um Homem Vivo?”, que também me marcou bastante. Orgulho-me muito do trabalho que fiz no Teatro Oficina antes disso tudo. Uma obra que me marcou mesmo e que jamais esquecerei é “Tarsila”, que sintetiza muito bem minhas buscas dentro da profissão. JT – Por que aceitou o desafio de coordenar a programação do Complexo Cultural Funarte de São Paulo? EG – Entrei a convite do Sérgio Mamberti, presidente da Funarte a nível nacional, no dia 8 de janeiro, para ajudá-lo em uma tarefa dificílima, que era recuperar um trabalho de anos que estava sendo abandonado em São Paulo. Era preciso uma ação efetiva para agir em todos os lugares do poder público situados no Estado. Eu observei que eram lugares onde a cultura poderia ter um papel importante, voltado inclusive para a própria população. Poderiam ser espaços ocupados por artistas cheios de criatividade que anseiam por ter algum lugar para realizar o seu trabalho. JT – Quais são suas ideias de como utilizar melhor os espaços da Funarte em são Paulo? EG – Queria que esse locais abrigassem não só o teatro comercial, mas também essa tensão inovadora que busca desesperadamente um espaço e apoio. Queremos trabalhar com um número grande artistas de diferentes áreas, envolvidos com a região e lhe dando acesso a vários pontos de cultura. Focamos muito nas artes visuais. Enfim, queria proporcionar ações disseminadas em todo o espaço e que consigam integrar a população do entorno, realizando uma parceria de integração dos moradores com agentes culturais. O meu objetivo é fazer com que o artista tenha liberdade de ter um espaço de experimentação, com as condições mínimas de suporte. Com isso, ele acabará influenciando outras pessoas, que também poderão usufruir esse espaço. A arte tem esse negócio bonito de círculo de influências. JT – E sobre os editais de ocupação... EG – Agora, em outubro, divulgaremos o resultando dos editais de ocupação para os locais da Funarte em São Paulo. Queremos que a direção desses espaços seja democrático. Não queremos que haja qualquer outro tipo de interferência na escolha dos gestores desses locais que não seja o mérito. JT – Sua experiência no teatro pode ser usada a favor da Funarte? EG – Sem dúvida. Sei bem o que dói em quem trabalha com arte. Não temos aqui no Brasil a figura do produtor do artista. Ele é o próprio produtor na maioria das vezes. O artista tem não só que criar, mas fazer acontecer. Na verdade, ele precisa de um Estado que lhe dê suporte e condições para dar sustentabilidade econômica, visibilidade e reconhecimento. Há experiências que dão certo e outras que não. Para a gente, o que interessa é que haja essa experiência. Esse é um direito fundamental da arte: existir. Privilegiamos o acesso a quem não tem meios comerciais e procuramos sempre ser isentos. Quero apenas fazer com que cultura floresça.
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