Leona Cavalli

Leona Cavalli

Por Daniel Pinton Schilklaper, redação Rio de Janeiro

Ela se diz tímida, mas é algo difícil de se acreditar. Como pode uma pessoa tímida sair de Rosário do Sul (RS) completamente desencorajada por seu pai e ir parar em São Paulo, simplesmente a maior metrópole do Brasil, na busca do sonho de ser atriz? Quando o amor pelo teatro e a vontade de atuar pela vida inteira sobrepõem qualquer medo tudo fica mais simples. É desse percurso físico/psicológico que a atriz e escritora Leona Cavalli fala na entrevista desta edição do Jornal de Teatro. Em cartaz pelo País com a peça “Máscara de Penas Penadas” Leona disseca seus desafios, seus medos, fala do seu livro “Caminho das Pedras, Reflexões de uma Atriz” e dos projetos futuros. Do primeiro encontro com a arte aos seis anos ao reconhecimento que uma novela em horário nobre traz.

Jornal de Teatro – Gostaria de começar sabendo de você como foi o seu primeiro contato com o teatro. Quando e como foi que você percebeu que era aquilo ali que você queria da vida?
Leona Cavalli – Foi com seis anos em minha cidade natal, Rosário do Sul, que fica no interior do Rio Grande do Sul. Foi no teatrinho da escola. Eu não tinha referência nenhuma, fiz uma pecinha no dia do meu aniversário e foi ali que percebi que era aquilo que queria fazer da minha vida. Desde então quis ser atriz e não me vejo fazendo qualquer outra coisa.

JT – Havia alguém na sua família ligado ao meio artístico? Como seus parentes receberam a ideia de que queria seguir por um caminho “não tradicional”?
LC – Meu pai é advogado e político e nunca acreditou em carreira de atriz. Me ajudou bancando minha ida para Porto Alegre, onde fiz curso de artes cênicas na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), depois bancou a minha ida para São Paulo, mas nunca quis que eu seguisse na carreira, nunca achou que era sério. Aliás, meu pai só me deixou cursar artes cênicas em Porto Alegre porque eu estava em Londres e disse que só voltaria se ele deixasse eu fazer o curso. Acabei que fiz artes cênicas e direito por causa dele. Só há um tempo atrás que ele começou a ver que era bastante sério. Já minha mãe é professora de português e é mais ligada à beleza. Gosta de arte, mas como observadora.

JT – Você acha imprescindível uma formação teórica, como a que você teve, para o sucesso na prática, no caso do ator? Ou acredita que a prática forma melhor do que qualquer curso teórico?
LC – Cada um tem um caminho. Tem grandes atores que não precisam de uma escola, como a Dercy Gonçalves, maravilhosa. Mas acho que é imprescindível estudar, se informar culturalmente, saber do seu país, do mundo. O imprescindível é estudar, querer melhorar e nunca achar que está pronto.

JT – Houve algum tipo de impacto na mudança de Rosário do Sul para São Paulo? Como foi essa chegada a uma grande metrópole? Que tipo de desafios você teve de ultrapassar para se impor na cidade grande? O cenário artístico que se apresentou era muito diferente do de Rosário do Sul?
LC – Fui primeiro para Porto Alegre e teve um impacto sim, mas eu tinha muita paixão pela cidade, em estar fazendo teatro. Solidão, insegurança, isso tudo não foi mais forte do que a vontade fazer teatro, descobrir coisas novas. É um mundo completamente diferente.

JT – Em algum momento você achou que não daria certo? Cogitou voltar a sua terra natal e retomar uma carreira mais segura como o Direito?
LC – Nunca, em nenhum momento. Precisei e preciso de muita determinação, muita fé, paciência e humildade, que é sempre necessário. Sempre soube que não seria feliz se não fosse isso na vida.

JT – Como era fazer teatro para você antes de “Belíssima” e como ficou depois? Atuar no horário nobre facilitou nas montagens de suas peças?
LC – Para mim nunca representou um estouro. Venho de uma história do teatro, ganhei prêmios no teatro. Foi uma honra essa personagem, mas nada mudou muito na minha vida. É claro que ajuda na divulgação, é otimo poder chegar num grande público. Quanto à questão de patrocínios eu acho que ajuda bastante, mas ainda não senti isso. Abre muitas portas, mas não é uma mudança drástica.

JT – Você trabalhou com grandes nomes da dramaturgia como José Celso Martinez, Bibi Ferreira, Paulo Autran… Qual o grande aprendizado nessa interação com profissionais mais experientes?
LC – Eu acho que a disciplina e a capacidade de rir de si mesmo. O teatro é prático, interpretação é prática. Aprendi muito com essas pessoas na prática da interpretação.

JT – Eu sei que essa é uma resposta difícil, mas gostaria de saber se houve um trabalho em especial que tenha lê dado mais prazer que em outros.
LC – São tantos… Destacaria vários… É injusto (destacar somente um) até com o meu próprio caminho. Posso dizer que o monólogo que estou fazendo agora (“Máscara de Penas Penadas”) está me dando muito prazer.

JT – Você é uma mulher muito bonita e já teve de ficar nua em cena. Que tipo de cuidados você teve para não ultrapassar a linha tênue entre o nu artístico e o vulgar, o apelativo? Qual é o limite da nudez para você?
LC – Isso depende muito da situação da personagem. Eu acho válido o nu quando tem a ver com trajetória da personagem. Isso pode quando acrescenta à história. A vulgaridade é o limite.

JT – Você acredita que leva algo das personagens que você interpreta? Ou é uma relação descartável, algo que você consegue manter separação completa?
LC – Eu acho que é um trabalho de entrada e saída. Não é uma coisa simples: é muito sensível e a nossa matéria-prima somos nós mesmos. Tem de ter sempre um cuidado, uma atenção para isso. Por outro lado, sempre procuro manter uma distância, não misturar uma coisa com a outra. No começo da carreira isso acontecia, mas depois fui aprendendo a não deixar isso acontecer.

JT – Gostaria que você falasse também sobre o seu lado escritora. O que te motivou a escrever “Caminho das Pedras, Reflexões de uma Atriz”. Faltou essa orientação do “caminho das pedras” no início da sua carreira?
LC – Mesmo no curso de artes cênicas nunca me foi dito sobre os aspectos humanos do ator como o medo, a timidez, a ética, a solidão. Senti falta de uma orientação nesse sentido, que talvez seja a busca do próprio ser humano. Senti falta de falar sobre esses aspectos e é necessário porque eu acredito mesmo que quanto mais a gente busca ser melhor como ser humano, mais probabilidade tem de melhorar como ator. É a mesma busca da atuação.

JT – Pretende dar continuidade à carreira de escritora? Há algo em vista na área literária para o futuro?
LC – Já comecei a dar essa continuidade. É também um livro voltado para a atuação, com depoimentos meus sobre aspectos da profissão. Mas é voltado para todos, atores e não-atores. Deve ficar pronto no final do ano.

JT – Sobre a peça que você está em cartaz “Máscara de Penas Penadas”, gostaria de saber o que te chamou atenção nessa montagem? Esse processo íntimo da preparação do ator, a solidão na busca pela sintonia com as personagens, ainda é algo trabalhoso para você?
LC – É o texto do meu livro. Há uma pesquisa muito grande da psique do ator. É uma busca sempre trabalhosa. É sempre um encontro com o ser humano, é realmente uma entrega, é se desvencilhar de preconceitos.

JT – A peça começa com uma atriz a ponto de entrar em cena, mas ainda não preparada. Isso já aconteceu com você? Como você lida com a plateia? Ainda há uma certa intimidação?
LC – Acontecia no começo da minha carreira. Eu sou tímida, mas eu até brinco com isso.

JT – Já se deparou com momentos tensos em cima do palco como desconcentração, o esquecimento de texto? Como você lida com isso?
LC – Às vezes acontece, mas a gente vai aprendendo a contorná-los.

Biografia no teatro

– Hamlet, 1993/1994: “’Hamlet’ foi o primeiro espetáculo que fiz com Zé Celso. Comecei fazendo outros personagens na peça, que já estava sendo ensaiada, entre eles Voltimando e Osric, mas, com o decorrer do trabalho, Ophélia foi se tornando tão intensa dentro de mim e da própria peça que foi inevitável que eu a fizesse. Aconteceram coisas curiosas durante a temporada. Uma vez, em Campinas, num dos ensaios abertos que precederam a estreia, durante uma cena em que eu segurava um pote com fogo, escorreu álcool pelo meu braço, que pegou fogo enquanto eu falava um texto. Saí, fui para o hospital fazer um curativo e voltei a tempo de continuar o espetáculo (naquela época a peça durava seis horas). No dia do meu aniversário, 6 de novembro, no momento em que Ophélia entra em cena para se afogar, desabou uma tempestade de vento e chuva que foi vista por todos no teatro, pois o Oficina possui uma arquitetura em que se pode ver e sentir o que acontece do lado de fora. Isso durou sincronicamente o tempo da cena, acabando exatamente na morte da personagem. Na primavera de ‘Hamlet’ foi onde floresceu a minha paixão pelo teatro, com um grande personagem, gerando um novo ciclo no meu trabalho”.

– Mistérios Gozosos, 1995

– Bacantes, 1996

– Pra dar um Fim no Juízo de Deus, 1997

– Tio Vânia, 1997

– Viva o Demiurgo, 1998: “O espetáculo ‘Viva o Demiurgo’ foi marcado pela experiência de trabalho com Bibi Ferreira; sua atuação era singular. Lembro que ela detestava que se fizessem ‘tesoura’ no palco, ou seja, que um personagem se entrecruzasse espacialmente com outro. Numa ocasião, uma das atrizes perguntou como faria para entrar por uma parede de elásticos sem desequilibrar-se e ela, em fúria, respondeu: ‘Madame Morineu (Henriete Morineu, grande atriz francesa que atuou no teatro brasileiro) representou Elizabeth de figurino de época com uma barata dentro do vestido!’. Novamente eu atuava com Pascoal da Conceição, com quem já havia trabalhado antes no Oficina, mas desta vez no palco do Teatro Hilton, numa situação diversa, o que era instigante; e com Murilo Rosa, ator que veio do Rio para o trabalho. Foi também um processo de descoberta do funcionamento de uma produção eficiente e atenta nos seus procedimentos, realizada por Paulo Pélico e sua equipe, o que me foi muito valioso depois, quando produzi a minha primeira peça”.

– Disk Ofensa, 1999

– A Vizinha de Noé, 1999: “Foi a minha primeira experiência com alunos, em que transmiti algumas noções de teatro para pessoas que desconheciam essa arte e que me ensinaram muito, na sua exigência de entrega e doação. Compreendi a necessidade do ensino e o quanto é importante a transmissão de conhecimento. Encerramos o curso no dia de São Pedro com uma apresentação pública, em que senti como se estivesse dando à luz ao ver os alunos em cena; independentes e atuando pela primeira vez”.

– Cascando o Bico, 1999:”‘Cascando o Bico’ foi a minha primeira direção; curiosamente uma comédia, gênero até então pouco trabalhado por mim. A peça conta a história de um mímico, que ao chegar em casa invariavelmente liga a TV, começando a reagir aos comandos de um apresentador de programa de variedades. No final, a situação inverte-se quando ele resolve agir por conta própria, saindo então da linguagem da mímica e declarando em voz alta seu amor à plateia. Era basicamente destinada a um público adolescente e para dirigí-la tive de trabalhar com a simplicidade e o encanto de um contador de histórias, ao mesmo tempo em que exercitava a disciplina que uma direção exige”.

– O Disco Solar, 2000

– Toda Nudez Será Castigada, 2000: “‘Toda Nudez…’ aconteceu de forma inusitada na minha vida. Eu estava em plena fase de produção do ‘Disco Solar’ quando Cibele me convidou; acabei aceitando simplesmente porque fizemos um acordo de que ela faria a luz da minha montagem e eu faria a sua peça. Na época em que fizemos uma leitura no SESC conheci Nelsinho, filho de Nelson Rodrigues, num restaurante; ao sermos apresentados ele olhou pra mim e disse: ‘Você fará Geni’ (em tom profético, como seu pai). Achei aquilo muito estranho pois era a primeira vez que o via. Quando começaram os ensaios eu ainda estava em temporada, atuando e produzindo, e o processo foi extremamente cansativo. Mas ao mesmo tempo Geni me encantava cada vez mais, e foi crescendo o meu entusiasmo pela riqueza deste personagem, que é uma das melhores criações da dramaturgia brasileira, na sua constante doação aos seres amados; marcando o meu reencontro com Nelson desde a minha estreia, com a ‘Valsa No. 6’.

– Cacilda!, 2001: “Quando cheguei em São Paulo, a primeira coisa que fiz foi ler o livro de Maria Thereza Vargas ‘Uma Atriz – Cacilda Becker’. Desde então passei a me interessar pela sua vida e ela tornou-se uma inspiração no meu trabalho. Nesta época fui ver uma palestra com o Zé Celso em que ele já falava sobre o seu projeto, escrito recentemente. Mais tarde, quando começamos a trabalhar juntos no Oficina, fizemos várias leituras de ‘Cacilda!’, ele sempre quis muito que eu fizesse a personagem. Mas quando chegou a época da montagem e o projeto ainda se encontrava na fase de produção, eu estava em cartaz com o ‘Tio Vânia’ no TBC e fui chamada para fazer o espetáculo com a Bibi Ferreira. A peça então estreou com Bete Coelho e Giulia Gam fazendo o papel de Cacilda e eu entrei na temporada seguinte as substituindo na personagem. Foi um intenso trabalho, em que retornei ao Oficina depois de algum tempo, já com outra visão do teatro e fazendo um papel desafiador, que fez com que eu intensificasse um estilo próprio de movimentação, aprendendo a dançar em um mês, em aulas intensivas com a bailarina Renné Gumiel, que também fazia parte do espetáculo. Terminamos a temporada de 1999 em Porto Alegre, durante o Festival de Teatro, na Usina do Gazômetro, que fica em frente ao Rio Guaíba, em um espaço com telões, elevadores e microfones para todos os atores, num grande evento, em que as pessoas chegaram a ficar mais de oito horas na fila para comprar ingressos. Em novembro de 2000 o espetáculo ganhou uma nova versão, comigo e com Bete Coelho dividindo o papel de Cacilda, no Festival de Recife. No dia 6 de abril (data do aniversário de nascimento de Cacilda Becker) de 2001, a peça estreou uma nova temporada, com a gravação em DVD feita por Tadeu Jungle”.

– Um Bonde Chamado Desejo, 2001/2002

– Vestir o Pai, 2003: “Essa é a primeira comédia dramática, situada em um núcleo familiar, que faço. Já fiz outras peças com cenas ou situações cômicas, mas não uma comédia propriamente dita do começo ao fim. É um desafio e um prazer, depois de fazer a Blanche Du Bois, com infinitas contradições; fazer a Regina, uma moça que tem apenas um sonho, o de viajar com o seu amante pra Europa. Um exercício diário, encontrar detalhes, inventar subtextos, não dar importância excessiva a nada, simplesmente jogar. Com um texto ágil, de um autor brasileiro, atual; e dois companheiros de cena maravilhosos, para um público que se diverte e nos diverte do começo ao fim”.

– Memórias do Mar Aberto – Medeia conta a sua História, 2004

 

Prêmios no teatro:
– Prêmio Shell 2000 de melhor atriz por “Toda Nudez Será Castigada”.
– Prêmio Qualidade Brasil 2002 de melhor atriz por “Um Bonde Chamado Desejo”.

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