Ivan Cabral e a ousadia do recomeço

Ivan Cabral e a ousadia do recomeço

Por Rodrigoh Bueno e Jarbas Homem de Mello

O grupo Satyros completa seus primeiros 20 anos no próximo dia 12. As celebrações aconteceram ao longo das últimas duas décadas e seguirão nos palcos e na nova empreitada que o grupo pretende seguir: o cinema. Assumindo o lado pop que a Praça Roosevelt – local onde se encontra a sede do grupo – conquistou, um dos fundadores do Satyros, Ivan Cabral, recebeu a equipe do Jornal de Teatro em seu espaço e revelou: “Essa história toda da praça não pode ofuscar o nosso projeto artístico, que é muito mais poderoso”. Acompanhe a trajetória da companhia. Passado, presente e futuro de um dos grupos que mais dividem a opinião do público brasileiro.

Jornal de Teatro – Como surgiu o Satyros?
Ivan Cabral – Foi a partir do meu encontro com o Rodolfo (Garcia Vazquez), em 1989 na USP. Ele fazia mestrado em sociologia do teatro e eu vinha de Curitiba, recém-formado no curso de artes cênicas que na época era ministrado na PUC. Naquele momento o curso era diferente, era uma tentativa do Teatro Guaíra de formar uma turma de excelência, com aulas de Fernanda Montenegro e Paulo Autran, por exemplo, que passavam pela cidade com espetáculo e acabavam dando umas aulas para a gente. Vim para São Paulo para estudar e, logo que conheci o Rodolfo na Universidade, larguei os estudos – retornando recentemente no doutorado. Foi neste momento também que conhecemos a Silvanah Santos, tam

bém de Curitiba. Hoje somos compostos de diferentes núcleos, inclusive o da educação.

JT – E como vocês foram parar em Portugal?
IC – Em 1992, três anos depois de fundado o grupo, descobrimos algo que foi fundamental na nossa história, que é a importância de ter uma sede. Em 1990, tivemos muita dificuldade em encontrar um local para apresentar a nossa obra, baseada em Marques de Sade. A estreia foi no teatro Guairinha e foi um escândalo em Curitiba, um absurdo. O teatro intelectual dizia que era teatro pornográfico, e o pornográfico que era intelectual – então caímos no limbo. Isso foi bacana porque descobrimos que precisávamos criar nosso próprio espaço, e criamos o teatro Bela Vista, na rua Major Diogo (São Paulo), que hoje não existe mais. Trabalhamos lá até 1992, quando surgiu o convite para festivais na Europa. Encontramos melhores condições de trabalho e ficamos. Na volta para o Brasil, fomos para Curitiba, que foi terrível para o Satyros. Infelizmente, por ser minha terra, mas foi um lugar onde a gente nunca foi provocado. Acho o teatro curitibano, na essência, um grande teatro, mas queríamos fazer lá o que acabamos fazendo aqui e em Portugal, modificar o espaço. Mesmo com peças ótimas, o projeto não vingou.

JT – Qual a relação do Satyros com a Praça Roosevelt? Vocês têm a intenção de modificar o entorno?
IC – É uma obrigação nossa como artista. Nós, atores, sempre pensamos em fazer uma peça linda, com o melhor texto, pois somos os melhores, vamos ficar ensaiando um ano inteiro escondido e estreamos para uma temporada… Não é nesse teatro que eu acredito, a arte tem que entrar nas entranhas das pessoas, tem que vibrar, tem que reverberar, então não posso chegar na Praça Roosevelt, abrir meu espaço e ele não significar nada para o meu vizinho que mora no segundo andar, não faz sentido. É quase religioso, uma obrigação do artista invadir a sociedade. Essa coisa mofada que a arte se tornou nos últimos tempos é culpa de artistas que não provocaram. Em todos os sentidos, pode ser uma provação superdelicada e sofisticada, mas que tem que ser provocação. Quando surgimos incorporando o dionisíaco nessa história, a embriaguez, o sangue, a visceralidade, o público brasileiro não reconhece e não quer olhar para isso. Foi muito difícil e é obvio que essas peças têm por quebrar paradigmas. Tem um horror embutido que vai permanecer. Quem viu o Sade em 1990 e frequentou o teatro Bela Vista não esquece o que viu. Duvido que seja uma coisa que passe batida.

JT – Sendo assim, qual o significado do Satyros para a região?
IC – O que tinha acontecido com o grupo em São Paulo, na Major Diogo, foi muito bom. Foi a nossa primeira experiência de fato em interagir com o entorno. O que se fala da Praça Roosevelt aconteceu em Lisboa também. O bairro da Bela Vista, nesse momento, começava a viver uma grande decadência e a Major Diogo, que tinha sido uma rua de teatros, já vivia também uma decadência. Em 1990 quando a gente chega ali, um movimento acontece. A primeira Satyrianas, que é o evento de 78 horas e tal, surgiu em 1991 na Bela Vista e naquele momento a gente era mais pop do que hoje. A Ilustrada (caderno de Cultura da Folha de São Paulo) nos descobre e acabamos várias vezes sendo capa, página inteira, apadrinhado pela Folha. Foi muito bom começar uma história sendo recebidos desse jeito.

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JT – Porque a Praça Roosevelt?
IC – Nós voltamos para São Paulo em dezembro de 2000. A gente nunca pensou em um espaço na Vila Madalena, Vila Mariana, Jardins. Sempre quisemos o centro da cidade. Acho que é questão de linguagem, somos muito metropolitanos, e quando a gente sai do Brasil e vai trabalhar fora, a questão urbana fica ainda mais presente. A geografia da Praça em 2000 era marcada por um bar, que tinha sido fechado por conta de uns assassinatos, e uma padaria 24h que fechou porque o filho do dono também matou uma pessoa lá dentro. Então esse terreno era muito maldito e muito opressivo. Não tínhamos luz, mas, ao mesmo tempo, é um lugar onde a cidade se encontra. Tem vias pra todos os lados da cidade – um grande cruzamento com uma igreja em cima. Não existe geograficamente na cidade outro ponto parecido com esse.

JT – E a resposta da vizinhança? Da igreja, por exemplo?

IC – Não acontece nada lá. O problema deles é que eles te cercam. A igreja roubou um grande espaço da Praça com toda aquela grade que ela pôs em volta e foi roubando espaço que era público e acabou se isolando. A gente propôs exatamente o contrário, eu quero que essa mesa fique na porta, que ao passar por aqui você sinta que é seu também. Ao demarcar território, ela está nos excluindo. Isso é significativo e era exatamente o contrário do nosso projeto, porque a gente queria os travestis aqui dentro, as putas, os michês, e muitos chegaram a trabalhar com a gente. Desde o começo da carreira foram 1200 atores em 65 peças. É muito, né? E sempre com elencos monstruosos em lugares pequenos. Por exemplo, aqui (Satyros 01) cabem 60 pessoas e o nosso núcleo tem sempre 10 atores no mínimo, 15 é a média nas nossas peças. Além disso temos temporadas muito longas. Apostamos em temporadas, deixando as peças praticamente um ano em cartaz.

 

JT – O interessante desse espaço é que o palco talvez seja três vezes maior que a plateia…

IC – Eu nunca tinha pensado nisso. Desde que a gente chegou aqui, pensamos que o espaço deveria estar aberto às outras pessoas em condições igualitárias. Parece para alguns que a gente está tentando ganhar dinheiro em cima dos coitadinhos, não existe isso. Muitas pessoas que trabalham aqui são nossos parceiros, nós não alugamos os espaços. O Satyros não está para ser alugado, não é essa a nossa intenção. Ele está aqui para ser dividido e compartilhado. Isso é o que interessa mais para a gente. E é uma coisa que a gente jogou desde o início da nossa vinda para a Praça, porque, em dezembro de 2000, o roteiro teatral da cidade era assim: as peças, as temporadas, eram de sexta a domingo e ainda estava deixando de existir a sexta. As grandes produções só faziam sábado e domingo, porque não tinha público, a cidade estava muito violenta, muito transito… E quando a gente inaugura, é de segunda a domingo. E nem sempre a gente tinha público pra ver nossas coisas. Aliás, nesse primeiro momento, a primeira peça que estreamos foi vista por umas 200 pessoas no máximo, em uma temporada de um ano. Mas nossa máxima era nunca cancelar um espetáculo, mesmo que fosse uma pessoa, com um elenco de mais de dez.

JT – E o que sustentava o teatro?
IC – Ele nunca se sustentou, na verdade. Ultimamente, o bar paga o aluguel. Se você pensa que vai ter uma equipe artística trabalhando e que ela vai ganhar, vai viver de percentual de bilheteria, ela não sobrevive. Criamos outra máxima: a gente está muito pop e já não ganhamos fomento nenhum, porque acho que fica essa névoa de que estamos nos dando bem, somos famosos, temos grana… A partir de agora teremos que começar a brigar muito por isso, pelo projeto artístico mesmo, e que é um puta projeto artístico que poucos grupos, não só em São Paulo, mas no Brasil, tem tão consistente quanto o nosso. Essa história toda da Praça não pode ofuscar o nosso projeto artístico, que é muito mais poderoso. Nesse momento convivemos com isso, brigando com a nossa própria história, porque essa história da praça está maior que a gente, e não pode.

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JT – Como se resolve isso?
IC – Eu não sei. O artístico não atrapalha, esse será sempre intocável, mas acho que a visibilidade atrapalha – isso sim a gente tem que pensar, em como tornar mais visível esse artístico. A gente está migrando para o cinema nesse momento. O Satyros começou uma história de audiovisual na televisão, na TV Cultura, mas o nosso grande projeto é o cinema. Acho isso legal, porque você reinventa uma história. Sei que uma hora a imprensa se interessa em falar comigo, da mesma forma que daqui a pouco eu posso ficar mandando meus releases e vocês falarem ‘quem é esse chato?’. O artista precisa se reinventar! Eu sempre pensava que, ao contrário dos meus colegas todos que foram buscar na televisão um lugar possível para seus trabalhos, o lugar nosso era o cinema. Só o cinema pode sustentar a ideia de uma companhia de teatro, por exemplo.

JT – E a televisão?
IC
– Estamos pelo terceiro ano no programa “Direções”, da TV Cultura. Inicialmente foi um convite do Antunes Filho, que estruturou e começou o projeto com uns 16 caras. Depois ficaram oito. Nesta nova fase, de minissérie, cada mês um diretor diferente apresenta o trabalho. Agora estamos com “Além do Horizonte”, com roteiro meu, direção do Rodolfo e os atores do Satyros em cena, em quatro capítulos. Depois disso pode rolar outro projeto em televisão, que será como uma preparação para o cinema. A gente já tem nosso projeto de cinema, está sendo trabalhado, pré-produção, roteiro feito, deve começar a rodar ano que vem. Tem muita coisa vindo por aí que a gente pode fazer como companhia de teatro, onde essa equipe pode atuar. É complicado, às vezes, não ter condições adequadas de trabalho, mas quem tem?

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JT – Como vê a relação que algumas pessoas fazem do grupo, lembrando apenas de espetáculos como “Filosofia na Alcova”?
IC – Eu adoro ser associado, porque esse era meu grande espetáculo naquele momento. “Vamos fazer uma peça que vai mudar o mundo. Vamos contar uma história que vai abalar os nossos contemporâneos e a sociedade louca em que a gente vive”. Quer dizer, a gente quis isso, isso era projeto de vida, projeto artístico. Tudo isso foi estrategicamente montado e pensado. Talvez a partir de agora comece a mudar, mas por exemplo, o ar condicionado chegou aqui depois de cinco anos. As pessoas vinham no verão e morriam de calor. Não queríamos ar condicionado, porque a gente tem que refletir uma forma de trabalho que é a nossa forma, a gente não tem grana, não tem produção, não tem estrutura, os atores que trabalham com a gente não ganham dinheiro. Prestem atenção nisso, somos um grupo conhecido, que está na mídia toda hora, imagina o cara que não tem essa visibilidade, esse cara está condenado. Então não é uma forma egocêntrica de pensar arte, “eu tenho um teatro lindo, foda-se o outro”, ele tem que ser reflexo disso.

JT – Quem pode se apresentar no Satyros?
IC – Aqui todo mundo pode. É o espaço mais democrático que você possa imaginar. Odeio preconceito e quero que todo mundo venha aqui, do cara que tem a visão mais… Enfim, todo mundo, não existe barreira (eu acho). A Satyrianas é um pouco disso. De Adriane Galisteu a Gerald Thomas. Do erudito ao pop, juntos e em um mesmo projeto. Esse é o meu projeto de vida no teatro.

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