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Depois de um período agitado com audições na Europa, Adriano Fanti arrumou um tempo para apresentar aos leitores do Jornal de Teatro as novidades do mundo dos musicais na Inglaterra. Acompanhe!
Estreia no Union Theatre, em Londres, o fabuloso musical “A Man of No Importance”, de Lynn Ahren (letras) e Stephen Flaherty (Livreto). Baseado em um filme independente feito em 1994, estrelado por Albert Finney, este musical aborda tanto os clichês do teatro musical quanto a cultura irlandesa e ainda assim consegue ser extremamente charmoso. O filme é uma joia escondida e pertence a uma era em que os “blockbusters” estavam sendo convertidos em peças musicais. Este espetáculo se sobressai em sua integridade de conteúdo como um grande exemplo de que adaptações musicais podem ser muito mais do que a simples reunião de canções batidas e manjadas (jukebox), apresentadas a todo volume. Terrence McNally delicadamente teceu a história por meio de reviravoltas tragicômicas, complementadas pelas letras de substância compostas por Lynn Ahrens. O livreto de Stephen Flaherty, confortável ao invés de cerebral, dá o toque de simplicidade necessária para a peça. A história retrata um motorista de ônibus (Alfie), irlandês de meia idade, que tem verdadeira paixão por teatro amador, poesia e, acima de tudo, pelas obras de Oscar Wilde (com quem conversa em sua imaginação como se o escritor fosse uma espécie de mentor). A controvérsia tem lugar quando Alfie tenta encenar a peça “Salomé” de Wilde em meio à fervorosamente católica Dublin dos anos 60. Alfie Byrne é uma figura local querida por todos, um solteirão (não do tipo atraente) que encanta seus passageiros recitando dramaticamente os poemas de Oscar Wilde. Um dia, ele conhece uma passageira nova chamada Adelle, que o inspira a tentar montar Salomé tendo ela como protagonista. Mas a peça causa ira entre os membros mais conservadores da comunidade (incluindo o açougueiro Carney, que corteja sua irmã Lily), todos eles tentando boicotar Alfie. Mas, ao invés de desistir, ele decide ir adiante e quebrar tabus, uma decisão que o força a encarar o seu eu interior, particularmente em relação aos seus reais sentimentos por um atraente colega de trabalho, Robbie Fay. O diretor Ben De Wynter juntou um “ensemble” forte que traz vida a seus personagens com total convicção. Paul Clarckson está adorável como Alfie, lidando com estilo e dignidade com todas as complexidades da personagem e sua jornada de autodescobrimento. Paul Monagham resiste à tentação de interpretar a personagem de Carney de forma caricata, conseguindo capturá-la na medida certa. Patrick Kelliher como Robbie; e Roisin Sullivan como Adelle; caíram como luvas em seu papeis: o livreto musical lhes dá a oportunidade de cantarem ótimas canções, que emocionam e também empolgam o público.
É irônico, no entanto, que os musicais que buscam maior conteúdo acabam sendo sempre os de orçamento mais precário e cuja falta de público os impede de suportar longas temporadas. Os musicais mais caros, com cenários mirabolantes que chegam até a roubar o foco do enredo, não parecem sofrer desse problema. Se há uma deficiência na montagem, isso se dá porque a equipe de criação não parece ter pensado muito na concepção do espetáculo. Restrições de orçamento não são desculpa para falta de imaginação (isso nós brasileiros tiramos de letra e esta produção foi negligente neste sentido, permitindo falhas do tipo de cortinas que não se fecham, objetos cênicos nada funcionais e figurinos que caem aos pedaços durante os números de dança. É, faltou mesmo o famoso jeitinho brasileiro para ter resolvido tudo isso.
NOTAS
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