Fechando para balanço Imprimir E-mail
Especial
Postado por Guilherme Gomes   
Seg, 04 de Janeiro de 2010 12:24


Gerson Steves*

Assim, de repente e meio de sopetão, a vontade de escrever. Coisas que falem de solidão e medo. Escrivinhações sobre tempos que já vi e as pessoas que já beijei.
O calor por aqui anda insuportável, não me sinto bem. Ruas entulhadas de gente; o centro da cidade mais parece uma externa de novela da Glória Perez. As minissaias saíram, de vez, de dentro dos armários das meninas discretamente deselegantes, como dizia Caetano. Algumas Geises são ofendidas e agredidas. Outras desfilam as pernocas magricelas nos shoppings da burguesia. Pareço uma grande e branca minhoca gorda passeando sob o céu da 25 de março.
A solidão ainda mora aqui, comigo. Quem já foi só no mundo entende, não é mesmo? Sobram alguns amigos. Muito poucos, na verdade. Alguns, vejo em sonhos dos quais mal posso me lembrar no dia seguinte. São Paulo é assim: não deixa que lembremos nossos sonhos.
Fim de semana passado o sol ardia dentro da minha sala. Definitivamente não pude parar de ouvir Elis. Chorava pelos artistas baleados, pela praça desvitalizada, pela cachaça que atrai mais público do que o palco. Lembrei dos amigos que se foram desta vida: Lúcia Pereira, Indalécio, Celso Saiki, Paulo Yutaka, Hugo Nápoli, Ginani Ratto, Gersão. Pensei nos amigos, que ainda vivos saíram da minha vida.
Desejaria ter ficado para um último abraço. Gostaria de mais um beijo como tantos já trocados. Amigos a quem nunca dei flores, nem bombons ou livros de poesia. Companheiros de viagem com quem nunca dividi um passeio na praia. Só o palco, o camarim, a bilheteria e a crítica.
Tanto que não fizemos juntos. Nada de baladas – porque eu nunca gostei de festas. Mas, em troca, algumas lágrimas e noites em claro partilhadas corajosamente. Amigos com quem dividi horas, dias, meses, anos. Décadas. E descobri que não me conheciam, nem eu a eles. Tivemos tão pouco tempo para nos conhecermos e aproveitamos menos ainda. Eu não podia ter adivinhado. Sempre pensei que iria envelhecer ao lado deles. Lamento.
Não é fácil sobreviver. Nem simples correr por trilhas sobre a grama já tantas vezes pisada. Caminhos percorridos em que a paisagem é (e não é) a mesma. Ainda assim vou indo. Durante anos, os dedos adormecidos sobre teclas de máquinas de escrever. Minha primeira foi uma Olivetti que se chamou Leila Diniz. Depois veio Jane Moreau, uma robusta Remington Sperry Rand. Agora teclo em computadores com quem jamais terei a mesma intimidade. São ferramentas e não amigos. Ainda gosto de escrever cartas e cartões a mão. Dedos doendo, ombros tensos, cabeça pesada.
Ainda assim, a vontade de terminar este balanço, estes escritos que não têm classificação. Ainda assim, a incerteza. Ainda assim, o ainda-assim-nosso-de-todos-os-dias. Ingrediente e tempero único da mesma comida saboreada sem paladar ao longo de anos passados em jardins dos quais só consigo me lembrar das cercas.
Escrevo no sétimo aniversário da morte de minha mãe. Dia de Nossa Senhora da Conceição. Concepção. Minha mãe tinha cabelos brancos, dos quais se orgulhava cheia de uma vaidade imprópria aos que têm mais de sessenta. Quando ela se foi, meu pai tinha quase nada de pé-de-galinha. Feito eu que estava perto dos quarenta e a cabeça com uma calvície há muito despontada.
Ele se orgulhava dum filho que parece ser seu. Eram belos, homem e mulher feitos um pro outro. Como são feitos os que se amam. Amavam-se meus pais? Nem sei mais. Só posso me lembrar dos dois brigando na mesa de Natal. Com copos de cerveja, enquanto todos bebiam vinho. Entretanto amavam-se, sei que sim. No dia de sua morte, abraçado ao seu corpo, meu pai chorava: “o que vai ser de mim? Perdi o amor da minha vida”.
Noutra noite sonhei que tinha minha perna esquerda amputada. Já é a segunda vez que sonho com minha perna esquerda. Perdi a conta das vezes que sonhei com mutilações. Às vezes, posso até sentir o sangue correndo das feridas abertas. Será que me entendem, os que me leem? Acho que nunca saberei. Em alguns momentos o leitor existe, noutros, não.
Que grandes medrosos somos. Nós todos, ocultados por um véu de distância que não existe. Só existe o medo. Única verdade absoluta. Tolos os que inventaram a coragem.

* Gerson Steves tem 25 anos de atividades teatrais na cidade de São Paulo, tendo atuado como diretor, dramaturgo, ator, produtor e professor. E deseja a todos o melhor balanço possível deste ano tão difícil. www.gersonsteves.com.br