Temporada que vai, temporada que vem Imprimir E-mail
Especial
Postado por Guilherme Gomes   
Seg, 04 de Janeiro de 2010 12:18

Por Michel Fernandes, especial para o Jornal de Teatro*

 

Há alguns anos, acredito que há mais de meia década, as temporadas teatrais trazem mais de uma centena de estreias por semestre. O ano de 2009 não fugiu a esta atual regra e deixa suas marcas impressas na História do Teatro Brasileiro Contemporâneo, seja pela estréia e re-estreia de espetáculos de qualidade insuspeita, seja pela efervescência promovida por festivais de teatro Brasil afora que fizeram circular espetáculos marcantes, do País ou estrangeiros – pelo menos os que presenciei “in loco”: o Festival de Curitiba, FILO (Festival Internacional de Londrina) e Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto – além das sempre esperadas apresentações de novos trabalhos de nossos medalhões do teatro, caso da palestra seguida pelo monólogo apresentado pela atriz Fernanda Montenegro – projeto chamado “Caminhos da Liberdade” –, a nova leitura de Antunes Filho para “A Falecida”, texto de Nelson Rodrigues – “A Falecida Vapt-Vupt” – e a segunda parte da tetralogia sobre a atriz Cacilda Becker – “Cacilda, Uma Estrela Brazyleira a Vagar” –, por José Celso Martinez Corrêa e seu grupo, o Oficina Uzyna Uzona.

Dentre as pérolas com que o Sesc-SP nos presenteia a cada ano, em 2009 o Ano da França no Brasil reservou aos amantes das artes uma saudável aproximação com o fazer artístico francês, numa espécie de continuidade do Ano do Brasil na França, realizado em 2005. As comemorações trouxeram, entre tantos destaques de diferentes meios artísticos, espetáculos como “Le Grand Inquisiteur” e “La Douleur”, ambos dirigidos por Patrice Chéreau, conhecido por seu ótimo desempenho cinematográfico na direção de filmes como “Gabrielle” e “A Rainha Margot”. Em “La Douleur”, há que destacar-se também o impecável desempenho de Dominique Blanc nesse denso e espinhoso texto de Marguerite Duras.

Pudemos também conferir o tratamento cênico vigoroso de Bob Wilson, um dos representantes do “teatro pós-dramático”, segundo o crítico e estudioso alemão Hans Thies-Lehman em seu livro “O Teatro Pós-Dramático”, para o texto do, também alemão, Heiner Muller, “Quartett”, leitura peculiar de Muller, sobre o romance “As Relações Perigosas”, do francês Chordelos de Laclos. Protagonizado por uma exuberante Isabelle Hupert, “Quartett” uniu o virtuosismo plástico de Bob Wilson ao virtuosismo interpretativo de Huppert. Muitos outros espetáculos de teatro franceses circularam de norte a sul do País, mas outras áreas culturais como a música, as artes plásticas, o circo e a dança tiveram um privilegiado 2009 graças ao Ano da França no Brasil.

 

São Danilo dos Santos Miranda

A classe teatral paulista, bem como o comitê dos Festivais Internacionais do Brasil, deveria unir-se e lançar uma chapa pedindo a Dionísio, o deus do teatro, livre acesso a Danilo dos Santos Miranda, diretor regional do Sesc-SP, no Olimpo. Brincadeiras à parte, é unânime o reconhecimento de que a instituição é responsável pela mais profícua agitação do universo teatral de São Paulo.

Dia desses, participei de um debate dentro do 2º Vira Cultura, da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, mediado pelo ator Dan Stulbach, em que abordamos o papel do Sesc que, juntamente ao Programa de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo e aos coletivos teatrais da cidade, entre outros, cumpre o papel de possibilitar à cena teatral paulistana ocupar privilegiado espaço em relação ao restante dos Estados brasileiros na dedicação a um teatro que prioriza e valoriza a pesquisa de linguagens de forma séria e continuada, como bem apontou durante o bate-papo no Vira Cultura Maria Thaís, professora de teatro da ECA/USP e diretora da companhia teatral Balangans.

Além do Ano da França no Brasil, o Sesc trouxe à capital excelentes companhias chilenas num festival de teatro de peças desse país latino-americano, o que, além da qualidade que vimos, serviu para nos aproximar da cena teatral latina, tão próxima geograficamente e tão distante de aproximações. Um dos grupos que se destacaram nessa mostra com o espetáculo “Neva” marcava seu retorno ao Brasil. Eles haviam participado de uma das edições do Festival Latino-Americano de Teatro de Grupo promovido pela Cooperativa Paulista de Teatro que, esse ano, completou seu 30º aniversário.

 

Grandes expectativas

Alguns espetáculos cumprem temporada até o dia 20 de dezembro, mas nos chegam notícias animadoras para a temporada de 2010. Por exemplo, a estréia, em março, da teatralização de Antunes Filho do romance “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto, e a prometida estreia da terceira parte de “Cacilda”, que compreende sua fase áurea no TBC.

Jorge Takla volta ao musical de época em “O Rei e Eu”, que deve estrear em março, no Teatro Alfa, com a excelente Cláudia Netto no papel de Ana, a protagonista, contratada pelo rei do Sião para educar seus mais de dez filhos. Com figurinos assinados por Fábio Namatame, espera-se o mesmo prazer que tivemos ao assistir o inesquecível “My Fair Lady”.

O premiado e aclamado, não sem motivos, espetáculo “Rainha [(S)] – Duas Atrizes em Busca de Um Coração”, dirigido por Cibele Forjaz, deve voltar à cena paulistana ainda em janeiro, no Tucarena, segundo me disse a atriz Georgette Fadel. Essa é uma das re-estreias imperdíveis.

Assim fechamos, mesmo que antecipadamente, as cortinas da temporada teatral 2009, satisfeitos por notar que, ano após ano, subimos os degraus da qualidade.

*Michel Fernandes é jornalista cultural, crítico e pesquisador de teatro. Editor do www.aplausobrasil.com.br.