Ida Gomes, uma estrela que sempre vai brilhar

Ida Gomes, uma estrela que sempre vai brilhar

Daniel Pinton

Pela arte viveu, com a arte se despediu. Assim pode-se resumir a vida de uma das atrizes mais atuantes do cenário artístico brasileiro. Ida Szafran, atriz que se tornou conhecida como Ida Gomes, deixou a vida e os palcos no último dia 22 fevereiro, aos 85 anos, mas certamente deixou um legado de talento e amor, fruto de 65 anos dedicados à interpretação, para todos aqueles que veem nas artes cênicas um caminho para se viver.

Conhecida do grande público pela interpretação marcante da vereadora Dorotéia, uma das três irmãs Cajazeiras em “O Bem-Amado”, de Dias Gomes, Ida nasceu em Krasnik, na Polônia, e foi criada até os 13 anos na França. Depois de passar pela Inglaterra, veio para o Brasil onde começou sua carreira como atriz de rádio passando por diversas emissoras como as rádios Nacional, Tupi e Educadora.

Sua estreia na televisão foi em 1951 atuando em telepeças de “O Grande Teatro Tupi”, na TV Tupi, onde também fez “Coração Delator”. Na TV Globo, onde ganhou fama, participou de um total de 44 produções a partir de 1967, entre elas “Véu de Noiva”, “Selva de Pedra”, “Estúpido Cupido”, “O Astro”, “Corpo a Corpo”, “Top Model”, “A Padroeira”, “Da Cor do Pecado”, “JK” e “Duas Caras”, sua última novela, em 2007.

No cinema, Ida Gomes começou sua carreira em “Bonitinha, mas Ordinária”, em 1963, e ainda participou de mais nove filmes como “Amante Latino”, de 1979, “Copacabana”, de 2001, e “O Amigo Invisível”, seu último projeto, em 2006. Sua atividade na telona, porém, não ficou restrita. Ida também foi dubladora de atrizes consagradas como Joan Crawford, Bette Davis e Gladys Cooper.

Talento nos palcos
A estreia de Ida Gomes nos palcos foi como integrante do Teatro do Estudante, com Paschoal Carlos Magno. A atriz ainda se destacou nas peças “O Violinista no Telhado”; “No Natal a Gente vem te buscar”, pela qual ganhou o Prêmio Apetesp de melhor atriz coadjuvante; “O Avarento”; “Tio Vânia”; “Super Mãe”; “Lili”; “O Anjo Negro”; “Proibido Amar”, onde recebeu uma indicação como melhor atriz do Prêmio Sharp e “7 – O Musical”, com a qual Ida se despediu dos palcos e do público mostrando uma determinação e profissionalismo raros no meio artístico. Mesmo bastante debilitada, a atriz participou de apresentações e ensaios até não ter mais forças. “A gente vai sentir uma grande falta dela. Ela era uma excelente atriz, participativa em todos os momentos. Até na coxia, a Ida era uma pessoa divertidíssima. Por todos esses motivos vamos sentir muita falta dela. Ela era de uma força inacreditável. A gente tinha a impressão de que ela que tinha mais energia do que todos nós, queria ensaiar à toda hora”, relatou a atriz Alessandra Maestrini, colega no musical.
Ida nunca se casou nem teve filhos. Como ela mesma dizia, não era feita para casar, nem café sabia fazer, mas nunca deixou de despertar grandes emoções por toda a sua vida. Apesar de judia, Ida era constantemente escalada para interpretar freiras, madres, mulheres rígidas com os “bons costumes” e se divertia com o fato: tinha uma independência intelectual completamente oposta às personagens que usualmente emprestava alma. Os mesmos “bons costumes” que defendia sob holofotes diziam que atriz não era mulher “direita” na época em que começou sua carreira.

Homenagem
Em sua família, deixa dois atores: o irmão Felipe Wagner e a sobrinha Débora Olivieri. “Começamos a trocar nossas afinidades e experiências depois que me mudei para o Rio de Janeiro, em 1999, e, nesses 10 anos, convivemos como mãe e filha. Íamos produzir nosso primeiro espetáculo encomendado: “Idas e Vindas”. Ela era uma mulher extraordinária, inteligente, intelectual e moderna. Lia um livro ou dois por semana, sempre em inglês, falava mais de oito línguas, assistia a todas às peças teatrais e filmes”, contou Débora.
Ida Gomes receberia no último dia 10 uma grande homenagem durante o 21º Prêmio Shell de Teatro. A atriz se mostrava bastante entusiasmada com a honraria e ansiosa pelo evento. “Pena ela não ter estado para agradecer a homenagem ao conjunto de trabalhos no Prêmio Shell. Ela só pensava na roupa e nos discurso que faria.”, falou a sobrinha. Felipe Wagner recebeu o prêmio em nome da irmã e aproveitou para contar aos presentes como surgiu a paixão de Ida pela dramaturgia. “Ida, quando jovem, ouviu na Rádio Nacional uma propaganda do programa “À procura de Talentos” e resolveu se candidatar. Estávamos há nove meses no Brasil, ela ainda não falava bem português. Mas foi, declamou um poema e foi contratada como radioatriz”, lembrou Wagner, referindo-se ao poema “Visita à casa paterna”, de Luís Guimarães Jr., que, em seguida, foi lido por Débora Olivieri. “Minha tia saiu de cena na hora certa. Seu coração parou, mas sua estrela vai brilhar para sempre”.

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