Florida: a rua sem flores

Florida: a rua sem flores

por Rodrigo Villarruel
Tradução de Pablo Ribera

A cidade, como cenário e elemento gerador de sentido, oferece ao criador mais cauteloso um sem-fim de espaços povoados de estéticas. Mutis X El Foro percorreu um lugar aonde desfilam protagonistas de possíveis histórias, um lugar em que se cruzam, a cada passo, atores desconhecidos por si mesmos.
Todos caminham em grande velocidade, como espermatozóides sem rumo, tratando de chegar a destinos antes que o vizinho eventual. Quase não se olham e não se conhecem, mas se percebem.
Enquanto se esquivam de vendedores, artistas de rua e telefones públicos, alguns fogem como peixes da grande corrente, pelos canais que se arqueiam em cada esquina. Outros milhares continuam sua marcha acelerada, de vida enlatada.
Vítimas ocasionais da oferta ambulante, todos se esquivam da mão publicitária que oferece um volante de “reativação de celulares” e observam, ainda que seja por um instante, ao conjunto de músicos que, amontoados sobre uma vidreira vazia, oferecem canções de Silvio Rodriguez ou Ricardo Arjona com igual paciência.
A rua Florida é, antes de tudo, um verdadeiro caos, digno da cidade de Buenos Aires. É, à parte da rua de pedestres mais importante da Argentina, um vitral muito significativo. Todos correndo, desesperados, sem olhar aos cantos e sem cautela. Até onde?
Os poucos rostos de felicidade que se observam são de cinco músicos na intersecção com a Diagonal Norte que, a batida de tambores e choros de saxofones, manuseiam os valiosos minutos dos trabalhadores que lá passam.
A história conta que em 1734, o governador Miguel de Salcedo batizou a rua pela primeira vez com o nome San José. Suas mudanças de identidade, a partir de então, foram várias: Del Correo, Empedrado, Unquera, de la Florida, Del Perú e, finalmente: Florida. Foi apenas para pedestres em alguns trechos desde 1913 e, em 1971, transformou-se no que se conhece hoje: a maior rua comercial e para pedestres do país argentino; o local onde, a cada passo, atores desconhecidos por si mesmos desfilam sem respiro sobre possíveis histórias teatrais.

 

 

 A cidade, como cenário e elemento gerador de sentido, oferece ao criador mais cauteloso um sem-fim de espaços povoados de estéticas.

 

 

Chamam-me rua

Em alguma época, no final de 1800, quando o país era governado pelas elites proprietárias de terras mais poderosas do continente – essas que sabotaram a terra, a repartiram entre elas, mataram aborígenes e venderam aos que ficaram vivos – a rua Florida era passarela de elegantes senhoras e carros. A Europa da América teve seu epicentro estético e social ao redor da praça San Martin, onde o final do fraque da nossa rua de pedestres, quase na avenida Santa Fé, conta seu passado mais esnobe.
Um século e tanto depois, logo quando a crise de 2001 a inundou de pedintes e meninos descalços, a Associação de Amigos da Rua Florida, uma organização sem fins lucrativos formada por “um grupo de  destacados homens de empresas e profissionais”, como eles se definem, seguem tendo como objetivo “melhorar os aspectos estéticos, culturais e edifícios da rua, dando ênfase ao se manter o alto nível de bom gosto e elegância que são tradição em Florida”.
É difícil encontrar na cidade um exemplo mais pós-moderno que esta rua, um lugar onde tantas identidades culturais convivem, tantos discursos fragmentados, tanta informação em somente dez quarteirões.
Estátuas vivas petrificadas sobre um palanque de pedra, um cigano escandaloso que crava pregos no próprio nariz em troca de uma alimentação de ego, dos cômicos atores que seguem gritando para os casais que saem do espetáculo “espero que todas as habitações estejam ocupadas!”, um punhado de garotos que observam um jogo de futebol através de estantes de vidro de lojas de eletrodomésticos, um menino que pinta azulejos com os dedos dos pés e faz maravilhas, um homem jogado no chão, sem pernas e sem um braço, pedindo moedas, senhoras bem vestidas saindo das Galerías Pacífico, sentindo saudades da abertura e remodelação da loja Harrods, El imperio de la elegancia, que ameaçou em 2003 voltar com sua vida social, sentindo saudades do antigo hall das lojas Gath & Chávez com sua fachada de mármore de Carrara. Todos ali, todos juntos, convivendo, deslocando-se por épocas, segundo a sorte de cada país e do mundo.
Florida é terra de todos de dia e deserto acéfalo à noite. É esquizofrênica. Sabe tanto de amor quanto de ódio e de amabilidade quanto de grosseria. É amante quando o sol a governa e prostituta quando a lua a convence. É argentina, como o ônibus que te deixa a pé, como o tomate pelo céu. Contém tudo: livros, roupas, casas de câmbio, de esportes, de computadores e câmeras de fotos, restaurantes e pizzarias, milhares de cartazes luminosos, atores principais de histórias sem querer, artistas de rua e amigos do alheio. Tudo está aí. Só um detalhe não aparece na rua Florida e, possivelmente, seja o que a faz tão atrativa, interessante e contraditória: flores.

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