Fecha-se a cortina dos palcos, abre-se o camarim da vida

Fecha-se a cortina dos palcos, abre-se o camarim da vida

Por Bruno Pacheco

Eram nove da manhã de uma quinta-feira quando cheguei ao meu destino. Confesso que estava um pouco preocupado com a forma que daria à matéria, afinal, o tema não era tão novo. Essa, sem dúvida, teria de ser uma pauta diferente. O endereço: rua Retiro dos Artistas, número 571, em Jacarepaguá, na zona Oeste do Rio de Janeiro. O meu desafio era contar sobre o trabalho realizado pela Casa dos Artistas, famosa e pioneira instituição de amparo a profissionais carentes e idosos do cinema, da televisão, do teatro e do circo. Atualmente é presidida pelo ator e vereador Stepan Nercessian.

Passei pelo portão principal e me surpreendi com o silêncio, a tranquilidade e, principalmente, o clima agradável em pleno dia de sol e muito calor na Cidade Maravilhosa. Era o prenúncio de que aquela manhã seria diferente para mim, acostumado com a correria do dia-a-dia e o frenético ritmo urbano. A minha proposta era mostrar algumas histórias do teatro nacional através de residentes do retiro. Porém, dos atuais 52 ex-artistas que estão no local, apenas duas foram atrizes de teatro. Por um momento achei que não atingiria meu objetivo. Minutos depois mudaria de ideia. O diretor social da Casa, Hênio Lousa, já me esperava e na hora marcada, levou-me ao encontro dos personagens.

Rua Nair Belo

Uma das peculiaridades do Retiro dos Artistas que mais me chamou a atenção é a distribuição das casas, dormitórios e instalações pelo amplo terreno. Cada ruela e vila tem o nome de uma personalidade ou artista importante do País. Indo ao encontro dos meus personagens pela Rua Nair Belo, perguntei ao guia Hênio quem era o mais antigo morador e o mais recente. Enquanto ele me respondia que Dalila Saavedra, figurinista de 94 anos, era a moradora mais velha, por coincidência, encontramos o mais novo membro. Era Arthur Maia, de 75 anos, um simpático senhor que se mostrou um ótimo contador de histórias. Para minha sorte, ele tivera sido produtor, ator e diretor de teatro. Por ali mesmo eu fiquei.

Arthur estava no retiro há apenas um mês e ainda nem havia terminado a sua mudança. “Eu morava em Araruama. Sempre fui sozinho. Estou chegando aqui na vertical e só saio na horizontal”, brincou o artista. Durante a meia hora de bate papo, entre uma história e outra, contou-me sobre a sua dedicação à dramaturgia infantil. A peça “Dona Patinha Vai Ser Miss”, foi o seu trabalho mais importante, ficando longo tempo em cartaz. No fim da carreira dedicou-se à cenografia, trabalhando por alguns anos em agências publicitárias. “Nesse período ganhei muito dinheiro, mas fui lesado como milhares de pessoas pelo governo Collor” revelou o ex-produtor. Perguntei se ele sofreu algum tipo de censura no período do golpe militar nos anos 1960 e Arthur respondeu que não. Porém, soube a pouco tempo que era acompanhado de perto. “Um amigo disse que eu era vigiado, mas não acredito”.

Arthur Maia também é artista plástico, pinta quadros e confecciona luminárias. Ele mostrou a que fez para presentear o presidente da Casa, Stepan Nercessian. “É um agradecimento”, finalizou. Despedi-me de Arthur, pois ainda tinha mais visitas a fazer. Fui ao encontro de Isa Rodrigues, 81 anos, atriz que fez parte do Teatro de Comédia e da Companhia Walter Pinto, a mais importante do teatro musicado e que revelou uma geração de atores, músicos e compositores. Acompanhada por sua inseparável cachorrinha Gigi, Isa me recebeu com muita alegria e boas histórias. Isa Rodrigues foi casada com o ator Carlos Mello e tiveram a sua própria companhia de teatro. Ela começou a carreira muito jovem e representou para a sua época o que a menina prodígio de Sílvio Santos, Maysa, é hoje. “Eu sapateava como ninguém. Dançava muito”, orgulha-se.

Isa contou que decidiu morar no Retiro dos Artistas depois de uma conversa com uma de suas melhores amigas, a imortal Dercy Gonçalves. “Quando ainda estava em atividade, eu já colaborava com o retiro, por isso já conhecia tudo aqui e sabia que seria bom pra mim”. Durante toda a conversa Isa deixou bem claro o quanto ama morar no retiro. “Viver aqui é ótimo. Não temos despesa e trabalho algum. Roupa lavada, alimentação, médicos e exames, além de muito lazer”. Sobre a amizade com Dercy, revelou uma curiosidade. “Era uma grande amiga, muito verdadeira e engraçada. Sempre lembro de quando saíamos das peças e íamos comer no Angú do Gomes. Ela adorava”, entregou Isa. Antes de encerrar a entrevista, Isa trouxe algumas fotos para que eu pudesse conhecer melhor o seu trabalho. Fiz questão de fotografá-la com a Gigi. Ela, é claro, atendeu ao pedido.

Parti para o último encontro daquela manhã. Quem me esperava era Maria Vitória dos Santos, a Vitória Régia, 79 anos, moradora da última casa da Rua Nair Belo. Bati palmas, chamei, toquei à porta e nada. Pensei que ela pudesse ter desistido, afinal, artistas costumam ser temperamentais. Mas bastou a cachorrinha da anfitriã latir para, em seguida, a ex-vedete atender cheia de disposição. Com a experiência de quem já concedeu muitas entrevistas, a maranhense contou tudo sobre a sua carreira sem que eu fizesse uma primeira pergunta.
Segundo Vitória, ela encenou espetáculos mais populares que exaltavam, entre outras coisas, a beleza da mulher brasileira. Protagonizou peças de nomes sugestivos como “Fogo na Jaca” e “Fogo no Pandeiro”. Foi uma das mais importantes vedetes do Teatro de Revista. Através dos palcos, pôde viajar pelo Brasil e Europa. Contou-me que antes mesmo do Papa eternizar o ato de beijar o chão ao chegar no País, ela o havia feito quando retornou de uma de suas viagens. O gesto foi matéria de jornal na época. “Não foi o teatro que me abandonou, eu que o abandonei. Mas os artistas nunca deixam de ser artistas. Estamos sempre no camarim aguardando o chamado”, disse a vedete, afirmando que participa de todas as atividades oferecidas pelo retiro. “Sempre somos convidados para churrascos, homenagens, participações em produções, eventos e estreias do teatro.” Com certeza, Vitória não perderá a tradicional Festa Julina do Retiro dos Artistas que acontecerá nos próximos dias 2 a 5 de julho. Já era quase meio-dia quando encerrei as entrevistas. Passei mais uma vez pelo portão principal. De volta ao mundo cão.

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A Casa dos Artistas

A Casa dos Artistas, inaugurada em 19 agosto de 1918, foi idealizada pelo ator e empresário Leopoldo Fróes, considerado um dos mais importantes artistas brasileiros do início do século 20. Apoiado por outros artistas e jornalistas, entre eles Irineu Marinho, Eduardo Leite, Francisco Souto e Mário de Magalhães, o jovem idealista inspirou-se no exemplo da Maison de Repós des Artistes Dramatiques Français, criada pelo Barão Taylor em Paris. Nascia, então, uma associação sustentada por artistas com o propósito de acolher temporária ou definitivamente artistas brasileiros, que naquele momento, ainda não tinham a profissão reconhecida.

Em pouco tempo, o grupo conseguiu a doação de um terreno para a construção e instalação do Retiro dos Artistas. Inaugurado em 1919 na Rua Campos das Flores em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro, os primeiros moradores foram o casal de idosos Madalena e Domingos Marchisio. Eles eram de coristas italianos. Em 1931, a Casa recebeu do recém criado Ministério do Trabalho uma carta sindical e passou a ser o representante oficial dos artistas no Brasil.

O atendimento sindical e assistencial permaneceu até 1964 quando foi fundado o Sated-RJ (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro). Com o surgimento desse novo orgão de classe, impulsionado pela situação política determinado pelo golpe militar, a Casa dos Artistas voltou a se dedicar apenas ao atendimento assistencial. Com 89 anos de existência, a Casa dos Artistas permanece sendo a única com este tipo de trabalho no País, escrevendo uma rica história artística, social e assistencial.

altNos bastidores do Retiro

Em quase 90 anos de vida, o retiro da Casa dos Artistas abrigou 837 ex-artistas. Atualmente, a Casa tem capacidade para 55. Quando alguém falece a vaga é preenchida por outra pessoa. Através de um cadastro e lista de espera são escolhidos os próximos residentes. Hênio Lousa explicou detalhes da estrutura do retiro ratificando a importância das doações para os assistidos. De acordo com ele, para manter o local e suas dependências regularmente, são necessários R$ 75 mil mensais. Ao todo, trabalham 32 funcionários em escalas programadas para o funcionamento pleno por 24 horas todos os dias da semana. A Casa oferece atividades como yoga; fisioterapia ginástica; alongamento; oficina da memória; atendimento médico, odontológico e ambulatorial; salão de beleza; além das atividades de lazer, piscina, o Teatro Iracema Alencar com 304 lugares, lanchonete e capela. “Ainda temos voluntários do VEP (Vara de Execuções Penais) que realizam atividades com os moradores às quinta-feiras e para a comunidade em geral temos uma sala com internet e cursos livres de teatro”, encerrou o Lousa.

 

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Como ajudar a instituição

 

Desde a sua criação, o retiro da Casa dos Artistas sobrevive de doações e campanhas. No site oficial da instituição, o presidente Stepan Nercessian (foto) diz: “ao longo da sua rica história, o retiro tem feito a diferença entre o abandono e uma vida digna para dezenas de pessoas que vivem situação de adversidade”. São três as formas de contribuir com o Retiro dos Artistas. Através de depósito em conta bancária (Bradesco – 4343-5), ligando para os telefones (21) 3327-4591/ (21)3382-3730 e tornando-se sócio (com ajuda mínima de R$20) ou se cadastrando eme www.casadosartistas.org.br.
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