E haja luz!

E haja luz!

Por Danilo Braga


Cizo de Souza trabalha com criação. Mas não é ator. Muito menos pesquisador de teatro experimental. Sua ferramenta de trabalho é a luz. Light Designer, é ele quem, literalmente, ilumina os palcos. Cizo começou aos 16 anos, em 1985, como eletricista, ofício que aprendeu com o tio. Quatro anos mais tarde, foi convidado para atuar na XX Bienal de São Paulo, na área de iluminação. Por três anos trabalhou na empresa Som Lux, como técnico de iluminação. Em seguida, entrou para o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), onde descobriu a paixão pela iluminação teatral. Entre seus grandes trabalhos estão “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”, de Vladimir Capella e “No Reino das Águas Claras”, que lhe rendeu o prêmio APETESP, em 2000. É vencedor, também, do Prêmio Coca-Cola, pelo espetáculo “Avoar”, outra obra de Vladmir Capella, em 2005.

Jornal de Teatro – Fotografia é escrever com luz. Cinema é essa escrita em movimento. Qual é o papel da iluminação no teatro?
Cizo de Souza – Mostrar e valorizar a cena em um caminho harmônico. Respeitar a construção da peça, a visão do diretor e a composição do cenário, o que resulta em um movimento equilibrado, que une o ator, a cena, o espaço criado e o olhar do espectador. É unir, com o desenho da luz, o explícito e o implícito no tempo, no espaço e nas personagens.

JT – Foi no TBC que você teve seu primeiro contato com a iluminação teatral. Como surgiu essa paixão?
CZ – Estudei violão clássico durante quatro anos e tinha verdadeira paixão pela música. Para pagar os estudos, trabalhava como técnico de eletricidade. Mas o que fez com que eu mudasse mesmo foi a minha primeira montagem de iluminação: foi em um show do Cesar Camargo Mariano, chamado Prisma. Ali, meu coração bateu mais forte. Depois, em contato com a linguagem do teatro, o magnetismo foi criado. Fui hipnotizado pelos seus encantos, detalhes e possibilidades de composição.

JT – Quais foram seus extremos na mesa de luz? Qual foi a cena mais iluminada e a cena mais escura?
CZ – Quando saímos do modelo tradicional do “palco italiano”, o iluminador é obrigado a quebrar seu paradigma, isto é, a sair da zona de conforto, do tradicional e partir para o desconhecido. Uma das obras que mais experimentei os extremos foi “O Fausto”, de Goethe, no Casarão da Rua Maranhão, onde a atriz Selma Egrei fazia brilhantemente o personagem Mefisto. Trouxemos toda a escuridão do personagem, e, ao mesmo tempo, toda a riqueza cultural do casarão, com os seus afrescos na parede em um caminhar de luz e sombra.

JT – Quais profissionais e trabalhos mais marcaram sua carreira?
CZ – O Jorginho de Carvalho sempre me faz pensar em iluminação. Atualmente, adoro o trabalho de Paulo Cesar Medeiros. Gosto muito, também, do trabalho de Wagner Freire e de Nelson Ferreira, são inspiradores.

JT – Qual fórmula você segue ao receber um texto? Há algum ritual ou uma forma específica que você use na concepção de um trabalho?
CZ – Na verdade, não. Procuro não criar imagens no momento em que eu leio um texto, porque o meu trabalho surge a partir da concepção do diretor. Eu gosto de assistir os ensaios para começar as composições.

JT – Você tem medo do escuro?
CZ – De forma nenhuma. A escuridão é uma oportunidade de fazer nascer a luz.

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