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Por Daniel Pinton Schilklaper, redação Rio de Janeiro Ela se diz tímida, mas é algo difícil de se acreditar. Como pode uma pessoa tímida sair de Rosário do Sul (RS) completamente desencorajada por seu pai e ir parar em São Paulo, simplesmente a maior metrópole do Brasil, na busca do sonho de ser atriz? Quando o amor pelo teatro e a vontade de atuar pela vida inteira sobrepõem qualquer medo tudo fica mais simples. É desse percurso físico/psicológico que a atriz e escritora Leona Cavalli fala na entrevista desta edição do Jornal de Teatro. Em cartaz pelo País com a peça “Máscara de Penas Penadas” Leona disseca seus desafios, seus medos, fala do seu livro “Caminho das Pedras, Reflexões de uma Atriz” e dos projetos futuros. Do primeiro encontro com a arte aos seis anos ao reconhecimento que uma novela em horário nobre traz. Jornal de Teatro - Gostaria de começar sabendo de você como foi o seu primeiro contato com o teatro. Quando e como foi que você percebeu que era aquilo ali que você queria da vida? JT - Havia alguém na sua família ligado ao meio artístico? Como seus parentes receberam a ideia de que queria seguir por um caminho “não tradicional”? JT – Você acha imprescindível uma formação teórica, como a que você teve, para o sucesso na prática, no caso do ator? Ou acredita que a prática forma melhor do que qualquer curso teórico? JT - Houve algum tipo de impacto na mudança de Rosário do Sul para São Paulo? Como foi essa chegada a uma grande metrópole? Que tipo de desafios você teve de ultrapassar para se impor na cidade grande? O cenário artístico que se apresentou era muito diferente do de Rosário do Sul? JT - Em algum momento você achou que não daria certo? Cogitou voltar a sua terra natal e retomar uma carreira mais segura como o Direito? JT - Como era fazer teatro para você antes de “Belíssima” e como ficou depois? Atuar no horário nobre facilitou nas montagens de suas peças? JT - Você trabalhou com grandes nomes da dramaturgia como José Celso Martinez, Bibi Ferreira, Paulo Autran... Qual o grande aprendizado nessa interação com profissionais mais experientes? JT – Eu sei que essa é uma resposta difícil, mas gostaria de saber se houve um trabalho em especial que tenha lê dado mais prazer que em outros. JT - Você é uma mulher muito bonita e já teve de ficar nua em cena. Que tipo de cuidados você teve para não ultrapassar a linha tênue entre o nu artístico e o vulgar, o apelativo? Qual é o limite da nudez para você? JT - Você acredita que leva algo das personagens que você interpreta? Ou é uma relação descartável, algo que você consegue manter separação completa? JT - Gostaria que você falasse também sobre o seu lado escritora. O que te motivou a escrever “Caminho das Pedras, Reflexões de uma Atriz”. Faltou essa orientação do “caminho das pedras” no início da sua carreira? JT - Pretende dar continuidade à carreira de escritora? Há algo em vista na área literária para o futuro? JT - Sobre a peça que você está em cartaz “Máscara de Penas Penadas”, gostaria de saber o que te chamou atenção nessa montagem? Esse processo íntimo da preparação do ator, a solidão na busca pela sintonia com as personagens, ainda é algo trabalhoso para você? JT - A peça começa com uma atriz a ponto de entrar em cena, mas ainda não preparada. Isso já aconteceu com você? Como você lida com a plateia? Ainda há uma certa intimidação? JT - Já se deparou com momentos tensos em cima do palco como desconcentração, o esquecimento de texto? Como você lida com isso? Biografia no teatro - Hamlet, 1993/1994: “'Hamlet' foi o primeiro espetáculo que fiz com Zé Celso. Comecei fazendo outros personagens na peça, que já estava sendo ensaiada, entre eles Voltimando e Osric, mas, com o decorrer do trabalho, Ophélia foi se tornando tão intensa dentro de mim e da própria peça que foi inevitável que eu a fizesse. Aconteceram coisas curiosas durante a temporada. Uma vez, em Campinas, num dos ensaios abertos que precederam a estreia, durante uma cena em que eu segurava um pote com fogo, escorreu álcool pelo meu braço, que pegou fogo enquanto eu falava um texto. Saí, fui para o hospital fazer um curativo e voltei a tempo de continuar o espetáculo (naquela época a peça durava seis horas). No dia do meu aniversário, 6 de novembro, no momento em que Ophélia entra em cena para se afogar, desabou uma tempestade de vento e chuva que foi vista por todos no teatro, pois o Oficina possui uma arquitetura em que se pode ver e sentir o que acontece do lado de fora. Isso durou sincronicamente o tempo da cena, acabando exatamente na morte da personagem. Na primavera de 'Hamlet' foi onde floresceu a minha paixão pelo teatro, com um grande personagem, gerando um novo ciclo no meu trabalho”. - Mistérios Gozosos, 1995 - Bacantes, 1996 - Pra dar um Fim no Juízo de Deus, 1997 - Tio Vânia, 1997 - Viva o Demiurgo, 1998: "O espetáculo 'Viva o Demiurgo' foi marcado pela experiência de trabalho com Bibi Ferreira; sua atuação era singular. Lembro que ela detestava que se fizessem 'tesoura' no palco, ou seja, que um personagem se entrecruzasse espacialmente com outro. Numa ocasião, uma das atrizes perguntou como faria para entrar por uma parede de elásticos sem desequilibrar-se e ela, em fúria, respondeu: 'Madame Morineu (Henriete Morineu, grande atriz francesa que atuou no teatro brasileiro) representou Elizabeth de figurino de época com uma barata dentro do vestido!'. Novamente eu atuava com Pascoal da Conceição, com quem já havia trabalhado antes no Oficina, mas desta vez no palco do Teatro Hilton, numa situação diversa, o que era instigante; e com Murilo Rosa, ator que veio do Rio para o trabalho. Foi também um processo de descoberta do funcionamento de uma produção eficiente e atenta nos seus procedimentos, realizada por Paulo Pélico e sua equipe, o que me foi muito valioso depois, quando produzi a minha primeira peça". - Disk Ofensa, 1999 - A Vizinha de Noé, 1999: "Foi a minha primeira experiência com alunos, em que transmiti algumas noções de teatro para pessoas que desconheciam essa arte e que me ensinaram muito, na sua exigência de entrega e doação. Compreendi a necessidade do ensino e o quanto é importante a transmissão de conhecimento. Encerramos o curso no dia de São Pedro com uma apresentação pública, em que senti como se estivesse dando à luz ao ver os alunos em cena; independentes e atuando pela primeira vez". - Cascando o Bico, 1999:"'Cascando o Bico' foi a minha primeira direção; curiosamente uma comédia, gênero até então pouco trabalhado por mim. A peça conta a história de um mímico, que ao chegar em casa invariavelmente liga a TV, começando a reagir aos comandos de um apresentador de programa de variedades. No final, a situação inverte-se quando ele resolve agir por conta própria, saindo então da linguagem da mímica e declarando em voz alta seu amor à plateia. Era basicamente destinada a um público adolescente e para dirigí-la tive de trabalhar com a simplicidade e o encanto de um contador de histórias, ao mesmo tempo em que exercitava a disciplina que uma direção exige". - O Disco Solar, 2000 - Toda Nudez Será Castigada, 2000: "'Toda Nudez...' aconteceu de forma inusitada na minha vida. Eu estava em plena fase de produção do 'Disco Solar' quando Cibele me convidou; acabei aceitando simplesmente porque fizemos um acordo de que ela faria a luz da minha montagem e eu faria a sua peça. Na época em que fizemos uma leitura no SESC conheci Nelsinho, filho de Nelson Rodrigues, num restaurante; ao sermos apresentados ele olhou pra mim e disse: 'Você fará Geni' (em tom profético, como seu pai). Achei aquilo muito estranho pois era a primeira vez que o via. Quando começaram os ensaios eu ainda estava em temporada, atuando e produzindo, e o processo foi extremamente cansativo. Mas ao mesmo tempo Geni me encantava cada vez mais, e foi crescendo o meu entusiasmo pela riqueza deste personagem, que é uma das melhores criações da dramaturgia brasileira, na sua constante doação aos seres amados; marcando o meu reencontro com Nelson desde a minha estreia, com a 'Valsa No. 6'.
- Vestir o Pai, 2003: "Essa é a primeira comédia dramática, situada em um núcleo familiar, que faço. Já fiz outras peças com cenas ou situações cômicas, mas não uma comédia propriamente dita do começo ao fim. É um desafio e um prazer, depois de fazer a Blanche Du Bois, com infinitas contradições; fazer a Regina, uma moça que tem apenas um sonho, o de viajar com o seu amante pra Europa. Um exercício diário, encontrar detalhes, inventar subtextos, não dar importância excessiva a nada, simplesmente jogar. Com um texto ágil, de um autor brasileiro, atual; e dois companheiros de cena maravilhosos, para um público que se diverte e nos diverte do começo ao fim". - Memórias do Mar Aberto – Medeia conta a sua História, 2004
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