Da Bahia para o Brasil

Da Bahia para o Brasil

Por Carla Costa

Em agosto, a Escola de Teatro da UFBA (Universidade Federal da Bahia) comemora 53 anos de funcionamento. Criada em 1956, foi a primeira do Brasil construída dentro de um espaço universitário e ligada a uma instituição de nível superior. Outro ponto de destaque da escola baiana é o fato de ser a única do País a possuir quatro espaços de artes separadas.

Na instituição, é possível encontrar, além da graduação em teatro, a formação em dança, música e a escola de belas artes. O antes e o depois da criação da Escola de Teatro da UFBA modifica totalmente a história do teatro baiano, já que sua existência tem proporcionado novas possibilidades para que o papel do encenador, tipos de atuação e o uso da iluminação elétrica sejam trabalhados sistematicamente nas artes cênicas de Salvador.
O projeto, na época inovador, foi idealizado pelo reitor Edgard Santos, que buscou a identidade da universidade a partir da cultura e da arte, bem como sua integração com a ciência. Para concretizar seus objetivos, o reitor convidou o diretor e cenógrafo Martim Gonçalves para dirigir o espaço artístico-pedagógico que ajudou a prover uma formação universitária e artística experimental e profissionalizante, modelar e, sobretudo, contemporânea.
De acordo com o dramaturgo, arte-educador e doutor em artes cênicas pela UFBA Raimundo Leão, o vínculo à universidade deu maior ascensão à escola. “É possível comprovar isto pela documentação existente e registros dos jornais e revistas da época”, explica. O que, para ele, possibilitou, também, que outras instituições universitárias se mobilizassem para criar cursos de teatro.
Leão explica que, inicialmente, a Escola de Teatro funcionou no porão da reitoria. Depois passou a ocupar o casarão onde hoje está situada uma unidade da Residência Universitária. Atualmente ocupa o casarão do antigo Solar Santo Antônio. O edifício é um projeto do arquiteto Rossi Baptista, construído para ser a residência do comendador Bernardo Martins Catharino.
Nos anos 1940, funcionou nas instalações de um antigo hotel. A construção foi adaptada e aparelhada para ser a escola, construindo-se o Teatro Santo Antônio – inaugurado em 1958. A encenação de “Senhorita Júlia”, texto de August Strindberg, sob a direção de Martim Gonçalves, marcou a abertura da nova sede.
A partir desse momento, o pequeno teatro concentrou as produções do grupo A Barca da Escola de Teatro. Após os sete anos de reforma, o teatro foi totalmente reestruturado e reformado, passando a ser chamado Martim Gonçalves, em homenagem ao seu primeiro administrador.  
Ao longo de sua trajetória, a instituição passou por diversas fases e esteve sempre presente na vida cultural da cidade. Por ela passaram diversos nomes de destaque no cenário artístico brasileiro como os atores Milton Gonçalves, Roberto Assis, Nilda Spencer, Geraldo DelRey, Lia Mara, João Gama e Othon Bastos.

“Estudar aqui foi uma das coisas mais importantes da minha vida. Eu tive a sorte de aprender com ótimos profissionais e hoje, como professor desta unidade, faço questão de manter a qualidade de ensino que tive”, revela o ex-aluno da Escola de Teatro nos anos 60, Arildo Deda.
Mesmo nos momentos de crise, o teatro não deixou de apresentar a sua produção artístico-pedagógica ao criar um estreito vínculo não apenas com o público universitário, mas acolhendo diversos segmentos da população soteropolitana. “De 1956 até o surgimento da Sociedade Teatro dos Novos (1959), responsável pela construção do Teatro Vila Velha, a Escola de Teatro foi o centro irradiador da produção teatral baiana”, explica Raimundo Leão.
Segundo ele, depois da criação da Escola de Teatro, pensando no teatro que se fez na Bahia, houve uma mudança radical na maneira de se encenar. “O espetáculo tomou outra dimensão e fazer teatro deixou de ser uma atividade diletante para se tornar uma prática organizada por outros códigos. As plateias passaram a ver espetáculos de qualidade estética inegável”, frisou.
Atualmente, Salvador possui cinco escolas de teatro, além das oficinas que são ministradas em outros espaços e acontecem durante todo ano, proporcionando o contato dos interessados com os temas e conteúdos da arte teatral. Para Leão, não existe diferença entre o que se ensina nas escolas de teatro do eixo Rio-São Paulo. Ele explica que pode haver apenas diferenças de disciplinas ou no conteúdo didático, além da disponibilidade de instituições de ensino para o exercício da atividade.
“O que há de peculiar no Sul é a quantidade de espaços destinados ao ensino do teatro, tanto os públicos quanto os particulares. Ao cursar o bacharelado e a licenciatura, o aluno recebe um cabedal de informação que lhe dá segurança para atuar e produzir conhecimento na área, isso incluindo os programas de pós-graduação”, diz Raimundo.
À frente da Escola de Teatro desde 2008, o diretor Daniel Marques explica que a escola de teatro possui três habilitações (direção, interpretação e literatura) lecionadas em sete semestres. Nos últimos anos, a instituição recebeu nota máxima (seis) na avaliação realizada pela Capes, em sua pós-graduação (Mestrado e Doutorado), assim como nota máxima (cinco) em seus cursos de g-raduação, avaliação realizada pelo Guia do Estudante, publicação que há 12 anos avalia as instituições de ensino superior brasileiras. “A Escola de Teatro da UFBA é hoje, assim como no passado, um centro de referência da arte teatral no Brasil”, afirma.
O gestor revela que o número de inscritos no processo seletivo deu um salto dos anos 90 para cá. Para ele, o aumento na procura, ao passar dos tempos, é o reflexo da mudança da sociedade que, no decorrer dos anos, mais precisamente após a ditadura, passou a dar mais atenção às áreas sensíveis e desperta o interesse na formação de ator. “A gente não quer só comida, diversão e arte! Ainda bem que o homem do século XX é um homem completo e que tem ânsia por diversão”, afirma Daniel.
Anualmente, cerca de 20 espetáculos são montados por professores, alunos e artistas convidados. As apresentações são realizadas nos espaços culturais da cidade, mas para o diretor, ainda assim, é quase que impossível a inserção desses profissionais no mercado de trabalho. “É difícil, não só aqui em Salvador, que os atores e diretores, mesmo após a formação na faculdade, consigam emprego e possam se sustentar ao longo da vida. Digo para meus alunos essa realidade e sempre deixo claro que eles devem sempre fazer um trabalho diferenciado, criativo e, acima de tudo, honesto”, diz.
Daniel revela que, para ele, o principal motivo para a falta de emprego é a falta de vontade política. “Deveria ser realizado um encaminhamento melhor dos alunos para a profissão. Por que não criam concursos públicos para que os estudantes formados passem a ensinar a alunos de escolas públicas? É tão simples resolver isso, mas ninguém faz nada”, desabafa o educador.

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