Cia Hiato desnuda a realidade

Cia Hiato desnuda a realidade

 

Por Rubens Barizon pelo Jornal de Teatro-RJ
Repórter cultural da Aver Editora

Solo envolvendo elementos como verdade, mentira, criatividade dos atores-personagens e suas questões familiares. “Ficção” utiliza de uma dramaturgia conectiva, uma ligação textual e corporal interligando os cinco modelos de solo, entre epílogo, prólogo e realidade da vida, ainda que distorcida. Por conta da relação interativa com a plateia (saudável), os atores tiveram que exercitar a improvisação, em um espetáculo inflamável no Teatro Paiol.

Já na coletiva de imprensa percebia-se, através do olhar dos atores, um comportamento diferente de reclusão, espontaneidade e fissura, quem sabe pela carga emotiva intrínseca no trabalho que transforma em peculiaridade o reflexo, talvez (ficção jornalística), às hipóteses criadas,”em processo colaborativo”- frase cômica, na construção da encenação teatral para a peça Ficção. Já que o projeto da Cia Hiato envolve o drama cênico, como uma verdade vulnerável, o tempo passado aparece para sustentar as histórias, mas se desconstrói com a relação da pessoalidade e intimidade, num risco de exposição e conflito com eles mesmo.

“A forma que os atores se apropriam da primeira pessoa para interpretar os personagens”, o comentário feito pelo professor da Faculdade de Artes do Paraná (FAP), Cristóvão de Oliveira, ajuda entender a linguagem que permeia a ficção/”Ficção”.
 


Os atores interpretam a variação de possibilidade do solo ideal para o projeto, criam e trocam as identidades durante suas tentativas finais. A intenção deste texto de jornalismo cultural não é adivinhar a verdade de cada ator e seus diversos solos dentro do mesmo solo, mas reportar as maneiras de fazer teatro. “Ficção” tem curiosidades perigosas, como por exemplo a do ator Thiago Amaral que depois de 6 anos sem falar com seu pai por questão sensível de família, incluiu em sua ficção de coelho a participação do seu pai, com quem retomou diálogo depois de todo os anos sem se falar. Em contrapartida, Aline Filócomo tentou homenagear sua irmã em seu solo e acabou processada pela sua própria semelhante.
Parece muita informação para uma mesma apresentação, no entanto, a fluidez acontece, mesmo com o longo tempo dentro do teatro, que no charmoso Teatro Paiol não chegou em problema, mas em aconchego. O espetáculo teve picos de catarse em todos os solos, isso se a catarse cênica pode ser medida por arrepios. Existe uma ordem dos solos pré-estabelecida, mas quem pisou primeiro no palco foi Mariah Amélia Farah com a história do nascimento do seu filho, a relação com sua mãe com a dança do ventre e seu receio de comparação entre os ventres familiares e o modo da criação de uma pessoa. 

Luciana Paes desceu os degraus em meio a plateia e com figurino de produtora do espetáculo iniciou a sua apresentação. A atriz utilizou da vida e obra de Frida kahlo com humor, que fez o público sorrir e ao mesmo tempo se aquietar, direcionando a sua ficção para uma cena final de morte. Era a mais intensa desde a coletiva, pois durante a peça, se pôde perceber o porquê. Foi o solo de maior potência, além da nudez natural em sua atuação, as frases recitadas na língua da pintora mexicana, era suavizado pela atriz, com a interação com o público. Mas quando séria, recitando Frida kahlo à beira da sacada, gerou uma aflição.

As 30 e duas Alines entraram no palco para o terceiro solo. A atriz Aline Filócomo foi quem mais interagiu com a plateia, perguntando sobre as referências que ela usava no seu solo ideal. Não importava se o público sabia ou não, era tudo Ficção. Mas em um momento, quando ela perguntou se alguém queria contracenar numa de suas criações, um rapaz da plateia prontificou-se, e essa cena de respeito entre todos, termina em uma piada da atriz – “não precisava”. Os atores estavam sempre presentes para o público durante os intervalos. Aline irmã mais velha (uma de suas) queria mesmo que o solo fosse um pas de deux com sua irmã mais nova.


Fernanda se apresentou com linearidade por mais que tenha iniciado com a tentativa de ser uma vilã condenada. A atriz conduziu a sua ficção como uma história de investigação policial e as hipóteses que envolvem a morte de seu tio, numa daquelas histórias de acampamento. A direção do texto de Fernanda faz lembrar um roteiro de cinema com a atriz em uma imagem e palavras objetivas. Ainda levou a ficção aos seus amores, antigos namorados. A história parecia real.
 
Thiago entra em cena desprovido de figurino, mas bem como Luciana, o ator não gerou desconforto e foi preciso na conotação do coelho e sua história de vida, identificando a Cia Hiato como um grupo de profissionais teatrais. Thiago Amaral recebeu em março deste ano, o prêmio Questão de Crítica de melhor ator por Ficção. Os três coelhos contracenam, divertindo e emocionando a plateia. O Leonardo Moreira assina a direção do espetáculo Ficção que tem agenda para São Paulo e Rio de Janeiro.

Saiba mais sobre a Cia Hiato
 

– Será que era uma “Ficção”?
– Como comunicador, fico receoso só de pensar se este texto é uma verdade ou uma realidade ficcionada.

rubensbarizon
@editoraaver.com.br

Foto Rubens Barizon

 

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