Chico Buarque pede licença

Chico Buarque pede licença

No dia 19 de junho de 1944, nasceu na Maternidade São Sebastião, no Largo do Machado, Rio de Janeiro, Francisco Buarque de Hollanda, o quarto dos sete filhos do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda e da pianista amadora Maria Amélia Cesário Alvim.

Em 1954, Sérgio Buarque é convidado para dar aulas na Universidade de Roma e a família muda-se para a Itália. Ao partir para a Europa, se despediria da avó com um profético bilhete: “Vovó, você está muito velha e quando eu voltar eu não vou ver você mais, mas eu vou ser cantor de rádio e você poderá ligar o rádio do Céu, se sentir saudades”.

Compõe suas primeiras “marchinhas de carnaval” e torna-se trilingüe, falando inglês na escola (norte-americana) e italiano nas ruas.

No início da década de 60, Chico publica suas primeiras crônicas no jornal por ele batizado de Verbâmidas, do Colégio Santa Cruz. Sonhava um dia vê-las publicadas nas grandes revistas semanais, ao lado de cronistas consagrados. Não passou muito tempo e a foto de Chico estava estampada no jornal. Em 1963, o “Guri” como ficou conhecido, entrou na na Universidade de São Paulo. Nos anos seguintes, Chico começa a se apresentar em diferentes palcos e a ter também problemas com o regime militar.

Sua primeira aparição na imprensa, entretanto, não foi na seção cultural, como imaginava, mas nas páginas policiais do jornal Última Hora de São Paulo. Chico e um amigo “puxaram” um carro para dar umas voltas pela madrugada paulista, uma brincadeira comum na época. A diversão acabou na cadeia. A manchete destacava: “Pivetes furtaram um carro: presos” e estampava a foto dos dois menores, com os olhos cobertos pelas tarjas pretas. A pena imposta pelo juiz dizia que até que completasse 18 anos Chico não poderia sair sozinho à noite.

Seu retorno ao Brasil, já na década de 70, é marcado pelo “barulho” organizado por recomendação de Vinicius de Moraes: muita gente o esperando no aeroporto, manifestações de amigos, entrevistas à imprensa e um show marcado na boate Sucata para lançar seu quarto LP, um disco de transição, gravado em circunstâncias complicadas. Afasta-se do samba tradicional, variando mais a linha das composições e revelando novas influências como a toada, emRosa dos ventos, até o iê-iê-iê italiano em Cara a cara. A mudança se reflete também nas letras, nas quais ele parece desvencilhar-se explicitamente do lirismo nostálgico e descompromissado que antes parecia identificá-lo.

Compõe Apesar de você, uma resposta crítica ao regime ditatorial no qual o país ainda estava imerso. Surpreendentemente, a música passaria incólume pela censura prévia e se tornaria uma espécie de hino da resistência à ditadura. Depois de vender cerca de 100 mil cópias, a canção é censurada, o disco é retirado das lojas e até a fabrica da gravadora é fechada. Para o público, não havia dúvidas: o “você” da música era o general Emílio Garrastazu Médici, então presidente da República, em cujo governo foram cometidas as maiores atrocidades contra os opositores do regime. Ao ser interrogado sobre quem era o “você” da canção, Chico responde: “É uma mulher muito autoritária”. Após este episódio, o cerco às suas composições endurece.

Participa do Circuito Universitário, com shows promovidos pelos centros acadêmicos das universidades por artistas com dificuldades em mostrar seu trabalho nos meios de comunicação.

Ao lado, entre outros nomes, do arquiteto Oscar Niemeyer, do editor Ênio Silveira, e de seu próprio pai, participa do Conselho do Cebrade – Centro Brasil Democrático – organização de intelectuais publicamente comprometidos com a luta contra a ditadura. A aproximação com o Cebrade lhe valeria, durante bom tempo, o rótulo de membro da “linha auxiliar” de um dos dois partidos comunistas brasileiros, o PCB, pró-Moscou.

Em 1980, Chico fecha contrato com a gravadora Ariola, após doze anos de Polygram. Por ironia do destino, a própria Polygram compraria a Ariola no ano seguinte. 

A pedido da bailarina Marilena Ansaldi, faz as músicas para a peça Geni.

Participa da festa do Avante, órgão oficial do Partido Comunista Português, e do projeto Kalunga, em Angola, onde se apresenta, com mais 64 artistas brasileiros, por todo o país. A renda dos shows é destinada à construção de um hospital.

O cineasta argentino Maurício Berú realiza o documentárioCertas palavras, sobre Chico Buarque, com participação – em números especiais ou depoimentos – de Caetano Veloso, Maria Bethânia, Vinícius de Moraes (que é filmado pela última vez), Toquinho, Francis Hime, Ruy Guerra, Miúcha, Sérgio Buarque de Hollanda e outros amigos e familiares.
Ainda em 1980, faz duas músicas para a peça O Último dos Nukupirus, de Ziraldo e Gugu Olimecha.

Lança o LP Vida, que traz, entre outras, a música Eu te amo, feita especialmente para o filme homônimo de Arnaldo Jabor.

No início da década de 90, Chico Buarque lança seu primeiro romance, Estorvo, publicado pela Companhia das Letras, com o qual ganha o “Prêmio Jabuti de Literatura”. Os direitos de publicação de Estorvo são rapidamente vendidos para sete países: França, Itália, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Estados Unidos e Portugal. Neste último, a venda atingiu 7.500 exemplares em apenas três dias, surpreendendo a Editora Dom Quixote.

Na virada século, no início do ano 2000, o filme Estorvo, de Ruy Guerra, concorre à Palma de Ouro do 53º Festival Internacional de Cinema de Cannes. Baseado em romance homônimo de Chico, é uma co-produção de Brasil-Cuba-Portugal. Traz no elenco o cubano Jorge Perugorría e os brasileiros Bianca Byington, Leonor Arocha e Tonico Oliveira.
A versão cinematográfica de Estorvo marca mais uma parceria de Ruy Guerra e Chico. Eles já haviam trabalhado juntos na peça Calabar e na adaptação para o cinema do musical A Ópera do Malandro.

A obra de Chico, desde as canções, literatura, cinema e teatro

Em 34 anos de carreira, Chico Buarque compôs centenas de canções, aqui apresentadas por título,data, compostas em parcerias, versões e adaptações, compostas para teatro,cinema e aquelas que só aparecem em discos de outros intérpretes. Suas músicas foram gravadas em cerca de 40 álbuns, organizados por data, projetos,discos solo, gravações ao vivo,coletâneas e discos de outros intérpretes dedicados a ele. A obra completa do artista é uma das maiores riquezas que a cultura brasileira produziu até hoje.

Ainda adolescente, publica suas primeiras crônicas no Verbâmidas, jornal do Colégio Santa Cruz. Em 1966 publica em O Estado de S.Paulo o conto Ulisses, incorporado depois no primeiro livro chamado A banda que trazia os manuscritos das primeiras canções.

Em 1974 sai a novela pecuária Fazenda Modelo. Em 1979 é editado Chapeuzinho amarelo e em 1981 A bordo do Rui Barbosa, poema da década de 60 ilustrado por Vallandro Keating.
A partir do início dos anos 80 Chico tem alternado a produção musical com a literária: Estorvo (1991), Benjamim(1995), Budapeste (2003). Em 2009 lança o quarto romance da nova fase, Leite derramado.

Em 1965, a pedido de Roberto Freire, diretor do TUCA, Teatro da Universidade Católica de São Paulo, Chico musicou o poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, para a montagem da peça. Desde então, sua presença no teatro brasileiro tem sido constante. Aqui, você pode conhecer as quatro peças que escreveu além das diversas canções que compôs para teatro.

Em 1966, Chico fez seu primeiro trabalho para cinema compondo as canções para o filme, Anjo assassino de Dionisio Azevedo. Em 1980 chegou às telas o documentário Certas palavras, de Mauricio Beiru, sobre sua vida.

Escreveu os roteiros de Os saltimbancos trapalhões, de J. B. Tanko (1981) e Ópera do malandro, de Ruy Guerra (1986).Como ator, participou de Garota de Ipanema, de Leon Hirzman (1967);Quando o carnaval chegar/, de Cacá Diegues (1972) – para o qual compôs diversas canções além de organizar as peladas nos intervalos da filmagem; Vai trabalhar vagabundo II – A volta, de Hugo Carvana (1991);Ed Mort, de Alain Fresnot (1996); O mandarim, de Júlio Bressane (1995);Água e sal, de Teresa Villaverde (2001).

O povo brasileiro, de Isa Grinspum Ferraz (2000); Raízes do Brasil, uma cinebiografia de Sérgio Buarque de Holanda, de Nelson Pereira dos Santos (2003); Vinicius de Moraes, de Miguel Faria Jr. (2005); Fados, de Carlos Saura (2005); Maria Bethânia: Música é perfume, de Georges Gachot (2005); O Sol – Caminhando contra o vento, de Tetê Moraes, Martha Alencar (2006); Oscar Niemeyer – A vida é um Sopro, de Fabiano Maciel (2007); Palavra encantada, de Helena Solberg (2009).

Fonte: Site Oficial do Chico Buarque

 

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