De mãe para filha, para os alunos, para os atores….

De mãe para filha, para os alunos, para os atores….

Por Danilo Braga

Um dito popular já narrado por gerações e gerações pode facilmente ser aplicado à Escola Superior de Artes Célia Helena: “educação vem de berço”. O que não foi dito é que essa educação de berço não se restringe às paredes do lar familiar. Criada em 1977, a Escola de Célia Helena inovou. Foi uma das pioneiras no ensino teatral para jovens, onde não só deveria ser ensinada a técnica, mas também onde fosse desenvolvido um pensamento crítico e criativo: o ator não seria apenas um encenador, e sim, um criador.

A escola segue a essência do trabalho de sua idealizadora, Célia Helena. Paulista, nasceu em 1936 e com apenas 16 anos já demonstrava interesse pelo teatro, contrariando sua família: começou em uma época onde o teatro era considerado uma “arte menor”. A escola foi criada sob o nome de Teatro-Escola, mas, só em 1989, o MEC reconheceu o curso para oferecer o curso profissionalizante de atores. Nesse período, Célia Helena deixou o papel de atriz para atuar como educadora.

 


No palco do Teatro Célia Helena são encenadas montagens e testes dos alunos. Literalmente, é aqui onde os atores são postos à prova.

Com corredores amplos e bem iluminados, alunos reúnem-se para discutir, conviver e aprender uns com os outros. Mais do que um conjunto de salas de aula, a Escola de Artes Célia Helena surge como um centro de troca de conhecimentos, um espaço de discussão pública e de convivência da geração que terá culpa na nova cara do teatro daqui há alguns anos.

Lígia Cortez, filha de Célia Helena e Raul Cortez, certamente teve a educação como atriz “de berço”. Hoje, ela é quem mantém o projeto da escola e assume a direção artística da entidade. Além de atriz e diretora teatral, Lígia também cuida das atividades teatrais do MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) e ensina Direção de Atores no curso de Audiovisual da Universidade de São Paulo (USP). É possível sentir o orgulho de Lígia quando ela fala da Escola. “A coisa que considero mais importante para o ator é o poder de transformação que o teatro tem na pessoa e na sociedade”. A formação do ator, em sua filosofia, visão e atuação como diretora artística da instituição não deve se limitar à técnicas e especificidades práticas. Na Escola, os alunos vão além do prático e banham-se no universo teórico da dramaturgia. “O teatro não é só exercício físico: é debruçar-se sobre a vida humana e a transformar”.

A filosofia da escola envolve seriedade, ideologia, criatividade e dedicação. Apesar de já ter traçado mais de 30 anos de trajetória na formação de atores, a entidade começou suas atividades no curso superior somente no ano passado, quando teve seu curso reconhecido pelo Conselho Nacional de Educação e nota máxima do Ministério de Educação e Cultura (MEC). Agora, a escola não só forma atores, mas bacharéis em Artes Cênicas. Além de serem ensinadas as matérias consideradas básicas (interpretação, história do teatro, trabalho vocal e corporal), são lecionadas algumas matérias para a formação dos alunos como professores de teatro e pesquisadores da área, o que cria um repertório teórico e prático para levar o estudo para um nível de pós-graduação.

“O trabalho de formação do ator depende da bagagem cultural, educacional e pessoal do aluno”, afirma a diretora. “Somos responsáveis pelos alunos. Temos um compromisso ético com ele, um compromisso com sua educação. Daqui a três, quatro ou cinco anos os nossos alunos irão atuar e transformar o teatro. É nossa responsabilidade, o cuidado que temos com eles é imenso”.

Os exames, mostras, festivais e temporadas encenadas e produzidas pelos alunos da escola acontecem no Teatro Célia Helena. Localizado no bairro da Liberdade, o teatro foi uma fábrica nos anos 50. Projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake, tem sua própria equipe. Iluminação, sonoplastia, figurino e cenografia ficam por conta do teatro, que acompanha os trabalhos dos alunos em seus projetos e apresentações públicas.

A biblioteca da escola contém um dos mais completos acervos especializados na área. Contém mais de doze mil títulos, incluindo o acervo de Célia Helena e Raul Cortez. Abriga, ainda, títulos comprados nos mais de 30 anos de existência da Escola. Lígia conta que grande parte desse acervo passou por atores que fizeram história com aqueles textos, que usaram e provocaram mudanças com esses livros.

O ambiente é diferente do padrão de biblioteca encontrado por escolas e faculdades no País. Fotos de atores, poltronas confortáveis e um ambiente acolhedor dão à biblioteca um tom acolhedor e convidativo: venha e me explore. Não é preciso ser aluno para ter acesso à biblioteca. Essa é aberta à população e comunidade acadêmica.

Tanto para o curso superior quanto para o profissionalizante, ambos com três anos de duração, há 30 vagas em cada período: matutino ou noturno para o superior e matutino, vespertino ou noturno para o nível profissionalizante. O trote da segunda turma, conta Lígia Cortez, foi muito interessante. Os alunos arrecadaram alimentos e foram até as instituições escolhidas entregar as doações. Lá, junto aos veteranos, fizeram uma aula, em clima de paz e de descontração. “Foi um trabalho muito sensível, decidir fazer o bem e para quem”.

Escola Superior de Artes Célia Helena
Av. São Gabriel, 462 – Itaim Bibi – (11) 3884 8294

Teatro Célia Helena
R. Barão de Iguape, 113 – Liberdade – (11) 3209 – 0470
www.celiahelena.com.br

 

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