Bonecos em Canela encantam pela inovação

Bonecos em Canela encantam pela inovação

Por Adriana Machado
Fotos Anderson Espinosa


Criança ou adulto, não importa a idade, o olhar de encantamento é o mesmo. E este brilho nos olhos é um fenômeno que acontece há mais de duas décadas, em uma pequena e bucólica cidade serrana do Rio Grande do Sul. Todo ano é assim. O 21º Festival Internacional de Teatro de Bonecos de Canela não traz, apenas, os melhores espetáculos do mundo, as mais novas técnicas de manipulação e o talento dramático de atores responsáveis a dar vida às suas mais incríveis criações. O evento – o mais duradouro do gênero no País e também um dos mais longevos das artes cênicas – movimenta o município de inúmeras maneiras. Turistas vindos de várias partes do Estado lotam hoteis, restaurantes e o comércio local, que por sua vez, se “enfeita” para receber o público e os consumidores. Este colorido especial, capaz de remeter às travessuras da infância, está presente em todos os cantos: nas esquinas, nos bancos das praças, nas vitrines das lojas e nas janelas das casas.

Vinda de Caxias do Sul, Simone Pellenz e sua filha, Amanda, de nove anos, se deslocaram para o município especialmente para prestigiar o festival. “É difícil encontrar espetáculos como este durante o ano. Estou achando bem bacana, principalmente porque podemos escolher entre as programações fechadas e as de rua também”, diz Simone. “Ou seja, têm atrações para todos os gostos e em duas versões, o que demonstra a boa organização do festival”, completa.

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Formas inovadoras

O Festival Internacional de Teatro de Bonecos de Canela contou com um público de mais de 30 mil pessoas durante os quatro dias de realização (de 18 a 21 de junho). Bonequeiros do Brasil, da Finlândia, da Espanha, da Argentina e da Itália, em um total de 120 artistas, apresentaram 50 espetáculos (a metade atrações de rua). As técnicas foram as mais variadas: sombras, fios, luvas, varas, com bonecos grandes e pequenos, representando bebês, homens, mulheres, idosos e animais.

Espetáculos lúdicos, nostálgicos ou simplesmente irreverentes e que nunca se repetem. Com exceção de um ou outro sucesso do passado. “Existe uma preocupação em trazer uma programação de vanguarda, alguns mais fáceis de serem aceitos pelo público, caracterizando-se por ser o mais puro entretenimento, outros mais densos e investigativos”, afirma a diretora artística do festival, há 21 anos, Marina Meimes Gil, responsável pela curadoria em conjunto com os bonequeiros Nelson Haas e Beth Bado.

Destes, existem grupos que preferem a improvisação e o contato direto com o público. Na praça, dezenas de crianças se acotovelavam para ver de perto os imaginários Malry e Halry, do “Circo de Pulgas”, do catarinense Marcio Correa, integrante do grupo Legião de Palhaços. Utilizando a técnica de manipulação e ilusionismo, o domador-clown divertiu pela simplicidade características da obra. “Este espetáculo existe desde 1998 e há muito tempo não faço apresentações em teatros fechados”, diz o artista.

Os gaúchos Jeffersonn Silveira e Cícero Pereira, do grupo Giba, Gibão, Gibóia seguem a mesma linha. “As aventuras de pantaleão, o mágico trapalhão” existe há 15 anos e já foi apresentado em colégios, comunidades carentes, para menores infratores, crianças portadoras de HIV e vegetativas. “Procuramos envolver o público e gostamos de levar alegria. Para nós, artistas, ver o sorriso desta garotada traz uma realização pessoal muito forte, sem querer ser demagogo”, confessa Silveira.

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O melhor no mundo em teatro de formas animadas

O Festival Internacional de Teatro de Bonecos de Canela contou com uma programação equilibrada, para atender a todas as idades e a todas as tendências da arte bonequeira. Foram 18 peças apresentadas nos teatros e nos espaços públicos. Além disso, o festival “veste” toda a cidade com bonecos, incluindo os infláveis, e até mesmo uma cobra de 40 metros. Outra atração foi a exposição dos bonecos do grupo Cia O Navegante, locados para a minissérie Hoje é Dia de Maria.

Quem subiu a serra teve a oportunidade de assistir novidades recém-estreadas na Europa, espetáculos de vanguarda e encenações de grande porte, que exigiram 17 horas de montagem de cenário e infraestrutura. Casos de Pinocchio, do grupo Giramundo, de Belo Horizonte, e de Katoamispiste (Vanish Point), a atração pós-dramática da vez, vinda da Finlândia. Todos os espetáculos internacionais vieram ao Brasil pela primeira vez.

Com direção e adaptação de Marcos Malafaia, Beatriz Apocalypse e Ulisses Tavares, os mineiros trouxeram a inserção do vídeo como elemento cênico, a composição da trilha sonora no sistema quadrifônico, o uso de madeira e objetos de demolições, a aproximação entre manipulação e dança e o uso simultâneo das técnicas tradicionais do teatro de bonecos. Tudo para refletir sobre a formação do ser humano através da restrição da liberdade e do prazer.

Já a representante da Finlândia apresentou uma proposta pós-dramática, que misturou animação com muita tecnologia e elementos do cinema novo, circo e dança. O cenário foi formado por três telões que exibiam imagens urbanas e da natureza durante a encenação. Algumas performances apresentadas no palco também apareceram ecoadas nas projeções. Entre os efeitos, o ator animou um pássaro com as mãos, que saiu voando, surgindo num mergulho em imagens pré-gravadas.

A programação, segundo a diretora artística Marina Meimes Gil, é luxuosa. Estética à parte, com certeza é um bom resumo do que acontece de melhor no mundo em teatro de formas animadas. Exemplo disso é o espanhol “Don Juan, Memória Amarga de M”i, que estreou no festival Titirimundo 2009, na Segóvia, onde se consagrou como o melhor espetáculo. Também recebeu o prêmio do júri popular do 10º Festival de Teatro de Bonecos de Belo Horizonte.

Grupos participantes:

Espetáculos internacionais
Valéria Guglietti – “No Toquen Mis Manos”, Espanha.
Técnica de manipulação: sombras chinesas
WHS – “Katoamispiste”, Finlândia. Técnica de manipulação: objetos
Pelmànec Teatre – “Don Juan, Memoria Amarga de Mi”, Espanha.
Técnica de manipulação: direta
Gioco Vita – Pepe e Estrella, Itália.
Técnica de manipulação: sombras chinesas

Espetáculos nacionais
Contadores de histórias – “Em concerto”, Paraty (RJ). Técnica de manipulação: direta
Giramundo Teatro de Bonecos – “Pedro e o Lobo”, Belo Horizonte (MG).
Técnica de manipulação: marionete
Giramundo Teatro de Bonecos – “Pinocchio”, Belo Horizonte (MG).
Técnica de manipulação: marionete/balcão/luva/sombra
Bonecos Canela – Cultura Viva – “Sonho de uma noite de verão”, Canela (RS).
Técnica de manipulação: luva

Apresentações de rua
Kossa Nostra – “Kruvikas” , Argentina. Técnica de manipulação: luva/vara/direta e mista
Pia Fraus – “Bichos do Brasil”, São Paulo. Técnica de manipulação: direta de infláveis gigantes
Legião de Palhaços – “Circo de Pulgas”, Rio do Sul (SC). Técnica de manipulação: ilusionismo
Giba Gibão Jibóia – “As Aventuras de Pantaleão”, Porto Alegre (RS).
Técnica de manipulação: luva/gatilhos/vara
Cia. O Navegante – “Musicircus”, Mariana (MG). Técnica de manipulação: marionetes
Cia. Bonecos da Gente – “Afro-descendentes”, Alvorada (RS). Técnica de manipulação: direta
Pregando Peça – “O Macaco Simão”, Gravataí (RS).
Técnica de manipulação: marote com vara
Calçada Di Verso – “Trapizonga”, Curitiba (PR).
Técnica de manipulação: direta e marionetes
Bando Néon Experiência Cênica – “Teatro de Lambe-Lambe”, Joinvile (SC).
Técnica de manipulação: direta

De Canela:
Teatro de Bonecos Padre Franco – “A Viagem de um Barquinho”.
Técnica de manipulação: direta
Bonequeiros Mirins – Instalação
Grupo Pé Grande – “Bonecos Gigantes”. Técnica de manipulação: direta
Grupo Só Rindo. Técnica de manipulação: direta
Extras: Mostra de filmes, descentralização, Caixa Lambe-Lambe e Cinema 3D

Os premiados da noite de encerramento, na opinião do público:
Melhor espetáculo apresentado nos teatros: “No Toquen Mis Manos”, de Valéria Guglietti, da Espanha
Melhor espetáculo de rua do Bonecos do Chapéu, “Bichos do Brasil”, do Pia Fraus, de São Paulo

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