Ao lado de um grande ator há sempre uma fiel camareira

Ao lado de um grande ator há sempre uma fiel camareira

Por Renata Hermeto

Ela tem 68 anos de idade, 31 de profissão e já trabalhou com artistas renomados, como Vera Fischer – com quem ficou em turnê por um ano -, Beatriz Segall e Herson Capri. Sua primeira peça foi  “Cacilda”, com Wolf Maya e Juca de Oliveira. Desde então, foram mais de 200 peças – hoje está no musical “7”, em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo (a peça conta a história de sete mulheres que têm seus destinos cruzados, depois que uma delas sofre uma perda amorosa). Seu nome? Dislene Emílio, mais conhecida como Didi, que, no entanto, não é atriz, não brilha nos palcos, mas exerce uma função fundamental para que os espetáculos sejam um sucesso de crítica e de público. Didi é camareira (com uma trajetória de dar inveja a muita gente).
É ela – e inúmeros outras pessoas que exercem a profissão – que separa as roupas de cada cena, cuida dos acessórios e dos pertences particulares dos atores e atrizes, além de ajudá-los a se vestir. Didi, porém, considera que o trabalho que desempenha “é mais do que de uma mãe”, já que, além de seus afazeres cotidianos, tem que ficar por conta dos seus “filhos” e “filhas”, verificar se tudo está em ordem, se não tem gravata errada, se os sapatos estão certos, se as roupas estão em sequência de entrada… É ela a responsável em manter tudo organizado e sempre solucionar algum problema de emergência.

INÍCIO CASUAL
“Já trabalhei com muita gente importante, e isso é muito legal. Também já tive a oportunidade de viajar o País inteiro, foi muito bom”, revela Didi, que iniciou sua carreira em 1978, por meio de um amigo ator. “Fui ver o ensaio da peça “Investigação na Classe Dominante”, e o Flavio Rangel perguntou se eu já conhecia a profissão. Como não conhecia ele me deu as dicas e logo me tornei camareira”, revela Didi, que adora o que faz e tem boas histórias para contar, como a vez em que, ao checar se o ator estava pronto para entrar em cena, viu que ele havia colocado um pé de sapato preto e outro marrom. “Tive que trocar na hora, foi tudo muito corrido, ele entrou ainda arrumando o sapato”, diverte-se.
Mas não só de cenas engraçadas vivem as camareiras. Elas também passam por muito estresse durante o trabalho. Didi conta que a cena que mais lhe marcou foi quando a atriz Beatriz Segall derrubou, acidentalmente, café no vestido branco, a poucos minutos de subir ao palco. “Ainda bem que ainda tinha outra troca”. Outra atriz (seu nome é mantido em segredo) também já deu trabalho a Didi. “Ela estava pronta para entrar em cena e foi colocar o sapato, que escorregou de sua mão e caiu em um buraco. Nessa, não teve como, a atriz teve que subir ao palco com outro sapato, que não tinha nada a ver com seu figurino.”

 

 

EXPERIÊNCIA ÚNICA
Elma Lúcia da Silva Antônio, 39 anos (há 13 trabalha como camareira) também tem boas histórias para contar. Conhecida no meio artístico apenas como Elma, iniciou a carreira em desfiles de moda e apresentações de balé. Após algum tempo, passou a acompanhar espetáculos pequenos e, hoje, trabalha com artistas de musicais (atualmente está no espetáculo “Avenida Q”, que conta a história de cinco bonecos e três humanos que moram e interagem nesta avenida, contando seu dia-a-dia com bom humor). Elma conta que o momento que marcou sua carreira foi quando uma criança de 5 anos, pronta para entrar em cena, não quis subir no palco.
“A criança dizia que sua roupa estava apertada e pinicando. Então, fui conversar com ela e lhe disse que era muito especial e que eu queria continuar acompanhando sua carreira. A menina acabou por resolver subir ao palco”, relembra. “O mais emocionante foi que ela disse que só ia entrar porque eu pedi”, frisa, emocionada, Elma, que diz que o segredo da boa camareira é ser organizada. “Temos que deixar tudo perfeito para os atores. Eles têm que se sentir em casa, então sempre deixamos tudo a mão deles. Fora do camarim é agilidade e confiança”, ensina.
Elma revela outro segredo da profissão: a discrição. Afinal, garante, muitas vezes as camareiras tornam-se confidentes de atores e atrizes. “Temos que ter sigilo absoluto de tudo que escutamos. Passamos grande parte do tempo com eles e escutamos muita coisa, então, sigilo é essencial. Só falamos quando nos pedem opinião”, revela Elma, que anda sempre prevenida, com sua “caixinha da Emília”, que, garante Elma, tem de tudo dentro. “Me chamam de Mac Gyver, pois sempre estou preparada para qualquer situação, seja uma roupa que rasgou ou um brinco que quebrou. Tudo tem solução”, diz.

 

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