A obsessão de Nelson Rodrigues

A obsessão de Nelson Rodrigues

Por Michel Fernandes, especial para o Jornal de Teatro

Tanto a obra – sejam suas peças teatrais, romances, crônicas, memórias e folhetins, entre outros – quanto a vida do escritor Nelson Rodrigues (1912-1980), considerado, com justeza, o dramaturgo brasileiro mais ousado, criativo e inovador de todos os tempos, o remetem ao obsessivo tema da morte. Mesmo que o adultério, as complexidades sexuais, taras e incestos sejam, também, temas recorrentes, a Morte protagoniza, de uma forma ou de outra, cada uma de suas obras.
Mesmo sabendo que a obsessão é apenas um desvio comportamental, que de tal mania possa surgir um desconforto mental para quem a sente ou para aquele que é o alvo do obsedado, concordemos que tal mania exacerbada é potencial condutora da loucura, ou, no mínimo, de atos insanos.
Basta seguirmos a trajetória de duas personagens rodrigueanas para constatarmos o quão negativo tem a obsessão que Nelson Rodrigues utiliza para conceber a psique de suas personagens: Moema, protagonista de uma de suas Tragédias Míticas, “Senhora dos Afogados”; e Zulmira, personagem principal de “A Falecida”, tragédia carioca do autor. Tanto uma quanto a outra personagem personificam na morte sua obsessão. Se, por um lado, Moema vislumbra nas mortes que causa o único meio para atingir seu fim, por outro, Zulmira acredita que sua morte lhe trará a redenção de seus pecados e planeja seu velório com requintes de quem deseja, a qualquer custo, recuperar a dignidade que sua situação social nunca lhe permitiu exercer.
Em encenações que pretendem deixar a vaga localidade carioca e as referências ao cotidiano que, como observou o estudioso David George em “Grupo Macunaíma: Carnavalização e Mito” (série Estudos da Editora Perspectiva), faz a dramaturgia rodrigueana parecer datada e de maior inteligibilidade a alguns nichos sociais do Rio de Janeiro, o diretor Antunes Filho mergulha num universo “mítico e arquetípico” em suas incursões ao universo dramatúrgico do autor. David George aponta a montagem “Nelson 2 Rodrigues” (1984), que condensava as peças “Álbum de Família” e “Toda Nudez Será Castigada” – na realidade a redução do espetáculo Nelson Rodrigues – “O Eterno Retorno” (1981) que trazia mais duas peças do autor: “Os Sete Gatinhos” e “O Beijo no Asfalto” – tão fundamental ao teatro brasileiro quanto a montagem de “Vestido de Noiva” (1943), por Ziembinski. Para David, o “teatro moderno brasileiro poderia ser situado” entre “essas memoráveis montagens de textos de Nelson Rodrigues”.
Esse preâmbulo da história de nosso teatro serve tão-somente para notarmos a agudeza arquetípica no tratamento de suas personagens e como Antunes Filho trata com cuidadoso bisturi suas dissecações das mesmas em montagens memoráveis. Assim o fez, ano passado, com a controversa encenação de “Senhora dos Afogados”, elevando a tragédia da família Drummond ao posto da falta de paradigmas que a Instituição Família, e Moema (na montagem vivida pela atriz Angélica di Paula) ao arquétipo do sombrio e vazio vindos com essa ausência de modelos. Esse ano, Antunes retorna a Nelson com “A Falecida Vapt-vupt”, sua terceira incursão a peça “A Falecida” (encenada por ele, em 1965, com alunos da Escola de Artes Dramáticas, e no espetáculo “Paraíso Zona Norte”, em 1989) e fica já a curiosidade em saber como ele tratará a obsessão de Zulmira e de cada um dos personagens da obra.

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