A Mulher Que Faz

A Mulher Que Faz

Por Daniel Pinton


Empreendedora. Não há melhor palavra para definir a trajetória multifacetária de Mara Carvallio (grafado desta forma mesmo). Atriz, roteirista e diretora de teatro, de cinema e de televisão, Mara é a prova viva das inúmeras possibilidades que as artes cênicas oferecem a quem a elas se dedica. A entrevistada do Jornal de Teatro recebeu nossa reportagem no Teatro Solar de Botafogo, no Rio de Janeiro, horas antes de encenar a peça – de sua autoria – “De Corpo Fechado”, com a calma e a alegria de quem se garante naquilo que faz. E Mara Carvallio faz muito. Da estudante de cinema do interior de São Paulo aspirante à atriz até a mulher dona de escola de teatro, totalmente independente, só ficou a simpatia, o talento e a ambição de produzir mais e mais. É esse caminho que funde a evolução pessoal com a profissional que Mara nos conta a seguir.

Jornal de Teatro – Você é natural de Ourinhos. Como foi sua infância no interior de São Paulo, longe da loucura e da agitação de uma metrópole?
Mara Carvallio – Foi muito saudável, principalmente porque estava longe dessa balbúrdia que é a capital. Ali comecei a construir os meus sonhos e os meus caminhos, logicamente sem saber onde chegaria. Tudo parecia tão distante para mim que, mesmo sonhando ser atriz, nunca tive a coragem de assumir isso a mim mesma. Foram esses ‘pés no chão’ que me deram força para ir em frente, buscar as conquistas que vivi no dia-a-dia, o lidar com a terra. A natureza é o maior espelho para construirmos qualquer coisa, isso me deu um start para começar.

JT – E como foi o seu primeiro contato com as artes, o seu despertar? Havia algum movimento artístico na cidade?
MC – Não, não tinha nada mesmo. Quando aparecia algo, mexia muito com a gente. Os filmes clássicos e a televisão instigaram a minha vontade. Meu pai tinha uma feira na qual iam muitos artistas, isso causava um deslumbre em mim.

JT – Apesar dessa vontade desde cedo, mesmo reprimida, em ser atriz, você primeiro cursou Cinema. A vontade de dirigir e elaborar roteiros nasceu antes da vontade de atuar ou o curso de Cinema foi uma saída mais fácil para ficar no meio das artes cênicas?
MC – Eu fui para São Paulo com 13 para 14 anos e já queria participar mais disso, porque havia uma vaidade misturada com necessidade. Chegou um momento no qual eu não sabia muito bem onde queria chegar e os conceitos se misturaram um pouco. O que achei mais próximo do que eu queria era o cinema. Nunca havia pensado em escrever, pois sempre tive certa dificuldade. Escrever e roteirizar vieram bem depois. Na verdade, eu queria ser atriz e achei que o cinema era um caminho bom para eu começar, pois eu iria me aproximar daquilo que eu queria. Até por eu ser de Ourinhos e ter ido para São Paulo sozinha não tinha muita informação e nem sabia os caminhos que teria de trilhar para chegar onde eu queria.

JT – Você iniciou a sua carreira como atriz levada pelo seu ex-marido, Antônio Fagundes. O fato de ele já ser um ator consagrado na época abriu portas para você ou atrapalhou, na medida que muita gente olhou com o preconceito?
MC – Tanto abriu quanto fechou portas. Estando ao lado de uma pessoa muito significativa profissionalmente como é o Fagundes, as cobranças são que você seja igual e eu ainda estava trilhando o meu caminho. Mas as pessoas só sabiam do meu profissionalismo e do meu talento ao assistirem uma peça minha e nem todas assistiam. Tive cobranças e exigências em um momento da minha vida em que eu não estava tão preparada. Mas abriu portas? Abriu porque tive chance de fazer coisas que talvez demorasse muito tempo para fazer. Fechou? Fechou porque havia um preconceito também que caminhava ao meu lado, me mostrando uma pessoa oportunista, mas você corre esse risco com tudo o que você faz na vida. O que eu fiz foi nunca ligar para isso, senão ia ficar louca. Fui tentando seguir o meu caminho naquilo que eu acreditava e não naquilo que os outros achavam. Eu também tinha que entender que as pessoas poderiam me ver tanto de um jeito quanto de outro.

JT – Você falou em preconceito. Se considera uma pessoa preconceituosa?
MC – O ser humano é preconceituoso, eu sou preconceituosa. Mas tento trabalhar para não desenvolver isso. Já achei que um ator era ruim porque ele fazia um programa que eu não gosto. Mas, às vezes, ele está ali por falta de oportunidade, os caminhos são muito diversos para você chegar onde quer. Às vezes, você se pega com preconceito de algumas coisas. O que eu faço sempre é tentar abrir a minha cabeça para trabalhar isso. Os preconceitos mais comuns a gente consegue eliminar. Pelo menos pensa que sim, porque a gente os trabalha – a questão do branco e do negro, a homossexualidade, o cara que está com uma mulher mais nova, a mulher que está com uma cara mais novo -, mas estamos embutidos em um ambiente composto pelos que são e os que não são preconceituosos. Às vezes você se perde. Mesmo se policiando, às vezes, você se pega fazendo um julgamento preconceituoso, não estamos livre disso.

JT – Você trabalha como atriz, roteirista, diretora e já chegou até a correr atrás de patrocinadores, além de ser dona uma escola de teatro. Você geralmente prioriza um projeto por vez ou consegue trabalhar em diversas frentes ao mesmo tempo? Arranjar tempo é um problema para você?
MC – Sou meio maluca e bem cobrada por isso, de querer fazer tudo ao mesmo tempo. Às vezes, dou conta, às vezes, me perco no meio do caminho porque fica muita coisa a fazer e esqueço um item ou outro dessas coisas. Não consigo dizer “não” para as coisas porque estou sempre estimulada a novas conquistas. Quando vejo, não tenho tempo para nada. Já chegou a ser problema, mas também foi a melhor fase da minha vida quando eu fazia duas peças de teatro, uma novela e estava começando a minha escola. Foi um momento em que eu trabalhei bastante, mas fiquei em minha plena forma física.

JT – Ao longo de sua carreira, em muitas oportunidades, você trabalhou e contracenou com o seu ex-marido, Antônio Fagundes. Como foi trabalhar para e com alguém com quem você tem extrema intimidade? Facilita ou dificulta?
MC – Você pode fazer com que seja positivo ou negativo. Depende da sua maneira de conduzir as coisas. Tento fazer da melhor maneira possível, fazer com que essa intimidade nos aproxime profissionalmente também. Com o Fagundes isso era muito positivo porque eu o conheço muito profissionalmente. Então, escrevia para ele já pensando na maneira dele falar. Mas eu conseguia separar as coisas. Quando eu escrevia para o “Carga Pesada”, por exemplo, entregava para ele o trabalho como ator. O que facilitava na nossa proximidade era que talvez ele não fizesse com qualquer outro autor as críticas que fazia a mim. Então, sempre foi positivo, até porque me acrescentava e me ajudava a ser melhor naquilo que fazia, crescemos juntos. O Fagundes tinha uma exigência profissional que, às vezes, me fazia sair arrasada dos ensaios, isso fez com que eu crescesse muito. Eu sou muito grata, independentemente dele ter aberto ou fechado portas para mim. Ele foi uma pessoa muito significativa para mim, pois me ensinou demais. Queimei algumas etapas do meu trabalho porque ele me indicou os caminhos. Para mim o saldo é positivo.

JT – Em “Gente que Faz” você escreveu e dirigiu uma peça para o seu filho, Bruno Fagundes. Como foi esta experiência?
MC – Quanto ao Bruno, às vezes, a gente prolongava o ensaio em casa. Mas ele é uma pessoa muito interessada e tem muita confiança no meu trabalho. E eu no dele. Sempre tentei tirar esse vínculo familiar do Bruno, exijo na medida que ele pode corresponder como ator. Já cheguei a ameaçá-lo, a tirá-lo da peça se não estudasse o texto e faria igual com qualquer ator. Ele tinha que entender que não havia proteção. Então, sempre conseguimos separar muito bem esse lado profissional do familiar e desenvolver nosso trabalho de maneira positiva.

alt

JT – Em “Elas são do Baralho” você aborda a loucura humana, o ponto em que o ser humano deixa de ser racional. Você chegou a alguma conclusão desse tema?
MC – O ser humano é uma doença de pele da Terra, alguém bem complicado de se lidar. O que me fez escrever essa peça foi a reportagem de uma americana que levou um tiro na boca do ex-namorado e quis voltar com o cara. Eu fico pensando na loucura dela, onde pode chegar o ser humano. Será que entre um cafezinho e outro ela não percebeu que o cara era doido? Eu acho o ser humano muito doido. Por mais que conheça a pessoa, você nunca sabe quem está do seu lado. O fio tênue entre a loucura e a sanidade é muito difícil de se descobrir e isso me aflige muito. Você, a todo momento, pode estar ao lado de um assassino.

JT – Em 1995, “Vida Privada” falava muito dos conflitos na relação a dois. Agora, em “De Corpo Presente”, você aborda, com certo viés cômico, o tema morte e tem uma declaração sua em seu site sobre a dor da perda recente de seu pai. Nas peças que escreve você reproduz episódios que aconteceram na sua vida ou servem apenas de inspiração?
MC – São dados detonantes, mas não é o todo. Alguns dados passam na minha vida e eu armazeno de uma tal maneira que depois os reutilizo. Meu trabalho transita pelas minhas experiências, mas ele tem que ser abrangente para não ser algo especificamente meu. Em “Vida Privada” coloquei o que sempre afligiu a todo ser humano: a questão da traição. Ela é dolorosa tanto no âmbito familiar quanto em relação a amigos. Essa coisa de você pensar que está com alguém e não está, da pessoa mentir para você mexe muito. Meu trabalho traz coisas não só da minha vida, mas, principalmente, da observação.

JT – “De Corpo Presente” estreou há pouco tempo. Ainda sente certo nervosismo antes de entrar no palco?
MC – Eu sinto uma tensão, sim. Ultimamente acho que não tive uma estreia tão tensa. Como escrevi, dirijo e atuo, a única responsável se algo der errado sou eu, dei a cara para bater. Não é insegurança, mas é uma adrenalina que não da para controlar e, às vezes, ela toma uma forma maior que você, te faz ficar consciente no palco. Na estreia, por exemplo, eu não estava sendo a personagem, eu estava interpretando, vendo tudo que estava acontecendo em volta – a luz, o texto, as marcas – e eu não queria isso. Eu tenho esse domínio, mas eu tenho medo dele porque, às vezes, me distancio do personagem. Meu coração fica totalmente acelerado.

JT – Nessa peça você toca em assuntos delicados como vida a dois, amor e tesão depois dos 50 anos. Como está sendo a recepção do público à peça?
MC – Eu procuro fazer de uma maneira bem-humorada, porque tudo que tem na peça é real. A idade passa para todos. A frase que mais gosto na peça é: “Reconhecer que envelheceu é como reconhecer que é alcoólatra. No começo a gente resiste, depois assume e, no final, aceita”. A idade aflige todo mundo, te traz coisas diferentes de quando você era jovem. Eu falo disso com bom humor, mas é verdadeiro, é real. Se não tomar conta vai ficar com “bafinho de velho”. Me perdoe quem se sinta ofendido com isso, mas acho que com essa realidade ou você brinca ou vai ficar muito triste ao envelhecer. Pessoalmente me aflige muito, mas eu tenho que rir disso. É a maneira mais hábil que eu achei para passar por esse processo na minha vida.

JT – Depois de tantos trabalhos em tantas funções diferentes, o que você sente que ainda falta?
MC – Vou ter um teatro, esse é o meu próximo projeto. Quero continuar produzindo, mas o meu foco agora é construir o meu teatro. Não vou deixar de ser atriz, vou continuar a escrever, não vou abandonar esse dom que Deus me deu. Atriz eu fui atrás, o dom de escrever foi Deus quem me deu. Não que eu não tivesse estudado muito para conseguir ser uma autora de projeção, mas é um dom que Deus me deu. Um dia sentei e escrevi “Vida Privada” e ficamos quatro anos em cartaz fazendo grande sucesso. Esse teatro que eu quero construir vai ser em parceria com o Bruno Fagundes (seu filho) e o Carlos Martin (seu namorado), que topou mais essa loucura comigo.

alt

Biografia artística

Como autora e diretora:
Televisão:
2000 – Algo em Comum; Vinte e Três Anos; Cai na Real; Tudo pela Fama (TV Bandeirantes)
De 2004 a 2007 – Carga Pesada (TV Globo)

Teatro:
1995 – Vida Privada
2000 – Elas são do Baralho
2002 – Gente que Faz
2008 – Terça Insana
2009 – De Corpo Presente
Como atriz:
Televisão:
1990 – O Dono do Mundo (TV Globo)
1992 – O Mapa da Mina (TV Globo)
1993 – Renascer (TV Globo)
1994 – A Viagem (TV Globo)
1996 – O Rei do Gado (TV Globo)
1998 – Corpo Dourado (TV Globo)
2001 – Marcas da Paixão (TV Record)
2005 – Carga Pesada (TV Globo)

Teatro:
1988 – Fragmentos de um Discurso Amoroso
1990 – Pantaleão e as Visitadoras
1991 – Parzifal
1992 – Macbeth
1994 – Vida Privada
1995 – Oleanna
1999 – Últimas Luas
2000 – Inspetor Geral
2002 – Elas são do Baralho
2009 – De Corpo Presente

Cinema:
2000 – Bossa Nova
2007 – Quer Saber?
2008 – Rinha

Previous “O artista não choca ninguém, o que choca é a vida, a realidade”
Next Rio de Janeiro recebe Conferência Internacional de Teatro do Oprimido

About author

You might also like

Entrevistas 0 Comments

Lucélia Santos

Entrega total e dedicação aos personagens são marcas essenciais para a atriz

Entrevistas 0 Comments

Leandro Knopfholz, diretor do maior festival da arte cênica nacional

O Festival é apenas um composto para a expansão e popularização do teatro

Entrevistas 0 Comments

Ator protagonista de “Maravilhoso” fala do personagem Henrique

Paulo Verlings (meio) é o entrevistado do Jornal de Teatro

0 Comments

No Comments Yet!

You can be first to comment this post!