A memória da terra

A memória da terra

Em meados dos anos 1990, o Théâtre de Complicité trouxe um espetáculo que demonstra a transformação da memória em fábula

Quando a terceira vida de Lucie Cabrol se torna eterna, o bosque se incendeia e Jean sobe para se redimir, a alma escapa irremediavelmente em um suspiro. Ainda hoje, tanto tempo depois, se pensa em Lucie Cabrol e essa sensação impetuosa percorre espinha abaixo de forma gelada e se sente que Lucie Cabrol (tão horrível, teimosa e fabulosa), está tão perto que se escorre as mãos, delicadas e contundentes, como um sonho.
“As Três Vidas de Lucie Cabrol” foi apresentado na sala Martín Coronado, do Teatro Municipal General San Martín, entre 16 e 25 de agosto de 1996. Baseada em um relato de John Berger publicado em seu livro, “Puerca Tierra”, adaptada por Simon McBurney, Théâtre de Complicité, a peça conta a vida, a morte e a pós-vida de uma camponesa francesa, nascida em 1900, uma mulher quase anã, muito feia, rejeitada, lúcida ao extremo e a percepção que sua imagem deixou nos outros, sobretudo em Jean, o homem com quem fez amor uma só e definitiva vez.
Assim contado, pareceria uma história comum da literatura naturalista ou de certos filmes de temática social, mas “As Três Vidas de Lucie Cabrol” dificilmente pode ser definida em uma categoria: há terra no cenário. Terra molhada, cujo cheiro impregna o ambiente, e o ambiente deixa de ser um teatro, e o teatro deixa de ser uma mera representação.
Os homens são as tábuas dos estábulos e as amoras das árvores, e as pedras do caminho, e a risada das festas, e o choro das tormentas e as chamas do fogo. É lógico que, assim seja, posto que Simon McBurney foi discípulo de Jacques Lecoq, maestro do teatro físico, a pantomima e a máscara neutra. Em esta posta McBurney despoja o cenário para que seus atores sejam a cena, e a verdade do corpo se reúna à realidade da terra e à água onipresentes, e os elementos que manipulam os atores têm demasiada vida vivida para serem meros objetos cenográficos, como as botinas solitárias que abrem e fecham o espetáculo, esperando que alguém as calce ao princípio e voltando a esperar que algum outro os calce ao final.
Em “As Três Vidas de Lucie Cabrol”, há tempo de pensar em quem é, porque se sente refletido no coletivo, na origem das coisas, na brutalidade do meio, na voz deformada dos homens, e é possível permanecer alheio. Mas, por que lembrar de um espetáculo que esteve em cartaz há tanto tempo? Será do interesse de alguém saber que rastros deixou “As Três Vidas de Lucie Cabrol”?
Não é tão importante que o elenco de “As Três Vidas de Lucie Cabrol” seja multiétnico, nem que o espectador tenha direito a descobrir seu próprio espírito crítico, nem quantas peças de qualidade ofereça o teatro oficial, nem que a cooperação internacional facilite o intercâmbio de experiências cênicas (Théàtre de Complicité chegou a Buenos Aires por intermédio do British Council). Se é importante o poder transformador que tem o feito teatral no fazer-teatro e na sociedade que o recebe.
“As Três Vidas de Lucie Cabrol” chegou um ano antes do Primeiro Festival Internacional de Teatro de Buenos Aires e não é casual que a estigma de sua proposta se rastreie na programação de ditos encontros ao longo do tempo. Algo parecido poderíamos dizer sobre as duas visitas de Tadeusz Kantor a Buenos Aires com “Wielopole”, em 1984, e com “Que Arrebentem os Artistas”, em 1987: muito da experimentação que hoje estamos vendo no teatro alternativo provém da semente que germinou a partir das visitas do diretor e dramaturgo polonês ao Teatro Municipal General San Martín.
O feito teatral é inacessível, e em nenhum lugar se poderá recuperar as sensações do que na memória: para transmitir ideias não basta com a eloquência do discurso, senão que são mais certeiras as impressões da viagem. E as impressões da viagem podem se resumir em um movimento: Lilo Baur, a atriz que interpreta Lucie Cabrol, passa a vida eterna apenas endireitando o corpo. Assim será a imortalidade, apenas endireitar o corpo sobre a terra? Por isso, aí está a terra, terra da França camponesa, terra contraditória de nosso solo, terra que é a mesma em qualquer parte, terra que nos leva e que nos traz, terra que se seca e não morre. A nostalgia do descobrimento impulsiona o desejo de recuperar o passado, e por esses anos que em se começa a notar a proximidade do desencanto, a ficção da vida cotidiana precisa de argumentos mais relevantes.

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