A hora do adeus

A hora do adeus

Por Leonardo Serafim, redação Porto Alegre

O tempo pode apagar lembranças de um rosto, mas jamais apagará lembranças de pessoas que souberam fazer de pequenos instantes, grandes momentos. E não faltam grandes nomes, que faleceram nesses últimos 12 meses, para exemplificar tal teoria. Este ano, dezenas de artistas deixaram de brilhar nos palcos de todo o Brasil para ficarem guardados na memória e nos corações dos amantes da boa arte.
A primeira chama artística a se apagar foi a do ator Renato Consorte. Conhecido pelo público graças à sua personalidade irreverente, o comediante, que morreu no final de janeiro, atuou em mais de 40 filmes, além de ser um dos destaques do programa “Família Trapo”, ao lado de Ronald Golias. Mesmo ganhando destaque nacional, devido os seus trabalhos televisivos e cinematográficos, a paixão pelos palcos, sua origem na arte de interpretar, nunca ficou de lado.
No teatro, o ator participou dos espetáculos “Roda Viva”, de Chico Buarque, peça que marcou por sua inovação estética, e de apresentações mais ousadas, como a “1ª Feira Paulista de Opinião”, de Augusto Boal, uma montagem que ia contra os pensamentos da ditadura militar.
Um dos artistas mais completos a pisar em solo nacional e de terras estrangeiras, Boal foi outro a nos deixar neste ano de 2009. Fundador do Teatro do Oprimido, ele aliou a arte com a ação social. Suas técnicas e práticas difundiram-se pelo mundo e foram empregadas não só por aqueles que entendem o teatro como instrumento de emancipação política, mas também nas áreas de educação.
Pela sua criação, Boal foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz, em 2008, e, em 2009, foi nomeado pela Unesco embaixador mundial do teatro. Além de todos os esforços no campo social, o artista também teve longa trajetória no Teatro de Arena de São Paulo. Após 78 anos de vida e sucessos, dezenas de peças e textos, o dramaturgo faleceu de insuficiência respiratória no dia 28 de abril.
Outros nomes importantes para a construção do teatro nacional também se foram. Ankito, considerado por muitos o melhor ator de chanchadas que o País já teve, morreu em março. Francarlos Reis, que iniciou sua carreira em 1970, com o espetáculo “Hair”, dirigido por Ademar Guerra, e que atuou em mais de 60 espetáculos teatrais, em abril. Sérgio Viotti, um dos fundadores da TV Cultura e que se dedicou de corpo e alma às artes cênicas, sendo um dos principais representantes do radioteatro do Brasil, faleceu em julho. Já Miguel Magno, que tanto arrancou gargalhadas do público com seus papéis femininos, faleceu no dia 17 de agosto, devido a um câncer. Em sua vasta carreira, Magno ficou marcado pela atuação na peça “Quem tem medo de Itália Fausta”, onde interpretou 11 mulheres durante o espetáculo. O último trabalho do ator foi o programa “Toma Lá Dá Cá”, na Rede Globo.

Mulheres que deixarão saudades

 

Nem só de grandes homens vive o teatro, e sentimos isso na pele com a morte de três grandes atrizes nacionais. Ida Gomes não nasceu no Brasil, mas pode-se dizer que corria sangue “brazuca” em suas veias. De origem polonesa, a atriz morou até seus 15 anos em Paris, antes de vir para a América do Sul e se encantar com o povo tupiniquim. O sonho de atuar e entreter multidões foi mais forte que as dificuldades da difícil língua portuguesa, e, em pouco tempo, Ida já emprestava sua bela voz para às radionovelas da época.
Ida Gomes estreou na televisão em 1951, na TV Tupi, onde fez o “Grande Teatro Tupi”, tele-teatro dirigido por Sérgio Britto, e “Câmera Um”, programa dirigido por Jacy Campos que utilizava apenas uma câmera para contar histórias de terror ao vivo, sem cortes, em uma sequência só.
A carreira de Ida também se estendeu ao teatro e ao cinema. Sua primeira aparição foi “Teatro do Estudante”, com Paschoal Carlos Magno. Em 1986, trabalhou ao lado de Eva Todor na peça “Lily, Lily” e, em 1989, fundou o Teatro Israelita de Comédia, com o objetivo de difundir a obra e a dramaturgia dos autores judeus. Ela ainda participou da dublagem de dezenas de produções americanas, emprestando a sua voz a personagens de atrizes como Joan Crawford, Bette Davis e Ida Lupino. Ida Gomes faleceu no dia 22 de fevereiro de 2009, aos 75 anos, vítima de uma parada cardíaca.
Também aos também 75 anos, Dirce Migliaccio faleceu por conta de uma pneumonia. Mais recentemente, em novembro, foi a vez de Mara Manzan sucumbir a problemas de saúde, perdendo a vida por um câncer no pulmão. Mara, que marcou os brasileiros com o bordão “Cada mergulho é um flash!”, na novela “O Clone”, começou sua carreira ainda na adolescência, no Teatro Oficina, especializando-se em papéis humorísticos na Rede Globo.
Uma das mortes mais comentadas e sentidas pela classe artística, devido a sua dramaticidade, foi da atriz e cantora Juliana de Aquino. A jovem garota, que ganhava destaque nos palcos graças à entonação e pelo seu timbre de voz, estava entre as vítimas do voo Air France 447, caso que ficou marcado como um dos grandes desastres aéreos que o Brasil já vivenciou. O fatídico acidente aconteceu no dia 1 de julho, tirando a vida de mais de 220 pessoas.

Brasil não é o único a lamentar
Não foram apenas os brasileiros que choraram pelos seus ídolos. No mundo da dança houve comoção com a morte de Pina Bausch e Merce Cunningham. Pina, enterrada em junho, foi uma das coreógrafas mais respeitadas da história. Com seu estilo inovador, ajudou a romper com formas tradicionais da dança-teatro, utilizando-se de ações paralelas, contraposições estéticas, repetições propositais e uma linguagem corporal incomum para a época.
Entre as suas produções estão “Vem, Dança Comigo”, de 1977, “Lenda de Castidade”, de1979 e “Viktor”, de 1986. Nos últimos anos, Pina produziu criações inspiradas em várias cidades europeias, entre as quais Lisboa, onde apresentou, em 1998, “Mazurca Fogo”, montagem que abusava dos atributos físicos dos bailarinos nas suas coreografias. Já Merce Cunningham, o lendário coreógrafo que revolucionou a dança moderna, morreu em Nova Iorque, aos 90 anos, em julho.
Pulando para o cinema, o galã de Hollywood Patrick Swayze foi outro que deixou seus fãs órfãos. Eleito o homem mais sexy do mundo, em 1991, pela revista “People”, o ator morreu no dia 14 de setembro com problemas no pâncreas. Swayze iniciou sua trajetória como bailarino clássico, interrompendo-a por problemas recorrentes de lesões originadas na juventude pelo futebol americano. Filho de uma dançarina, o texano estrelou filmes de sucesso como “Ghost” e “Dirty Dancing”.

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