9ª FIT Rio Preto estreita laços entre o teatro e o público

9ª FIT Rio Preto estreita laços entre o teatro e o público

Por Michel Fernandes*, especial para o Jornal de Teatro

A curadoria do FIT (Festival Internacional de Teatro) de São José do Rio Preto 2009 – formada por Francisco Medeiros, Jorge Vermelho e Sidnei Martins – merece nossos sinceros aplausos e os votos de que, para a décima edição, continue a contribuir com tamanha excelência para as artes cênicas do Brasil e que também inclua em sua programação espetáculos e/ou atividades direcionadas à Arte Inclusiva, segundo proposição do Filo (Festival de Teatro de Londrina) 2009, que remeteu carta aos principais festivais, nacionais e internacionais, sobre o respectivo assunto, o qual motivou artigo escrito para a oitava edição deste jornal.
Segundo Jorge Vermelho – além de ser um dos curadores, ele é o diretor geral do FIT Rio Preto – a idéia temática do Festival, “Instâncias da Subjetividade”, surgiu da própria opção em convidar espetáculos que, de alguma forma, dialogassem com o espectador, ou seja, cujo sentido final da obra que se via no palco – ou nos espaços não convencionais em que alguns dos espetáculos foram abrigados – permitisse a efetiva participação do público para o fechamento do sentido da mesma. “Um mesmo espetáculo pode ser amado ou odiado dependendo do ponto de vista de cada um, do momento que ele vivencia quando recebe a obra. É uma terceira leitura diferente da dos autores, atores, diretores, enfim, dos criadores das peças”, disse ele.

Destacarei alguns dos espetáculos bastante significativos no aspecto de exigência da participação do público para sua concretização. Começo do primeiro espetáculo a que assisti, “Crónica de José Agarrotado (Menudo Hijo de Puta”, da companhia espanhola Los Corderos.sc, criado e dirigido pelos intérpretes, cujo início fortemente calcado nas relações dos dois intérpretes – que podem ser um casal que enfrenta as vicissitudes do cotidiano a dois ou, então, o superego de um dos personagens, seu negativo feito fenômeno fotográfico. Quando entram em cena, os diálogos servem mais para ilustrar a incompetência de nossos diálogos coloquiais que para tentar um esboço de enredo lógico que estabeleça uma relação passiva do espectador diante do espetáculo. É preciso que o receptor dos códigos teatrais deste espetáculo seja coautor do mesmo para a finalização do processo de comunicação se concretize, sempre de maneira bastante particular para cada pessoa. Resultado: cada qual sai do teatro com uma história que estruture o que viu, sem que seja a mesma do outro. É essa pluralidade de sentidos que torna o espetáculo ainda mais instigante.
Indicado ao Prêmio Shell de Teatro deste ano na categoria Melhor Ator, Eduardo Okamoto levou ao Teatro Nelson Castro, local em que apresentou “Eldorado”, pessoas que já conheciam outros trabalhos e sabiam que “ele apresentaria coisa interessante”, caso do jornalista Rodolfo Borduqui. Em “Eldorado”, Okamoto vive um cego que perambula atrás da idealizada Eldorado – cidade cuja poeira é ouro em pó, por exemplo – e chega sempre ao sertão em que viveu e morreu sua mãe, ao lado de sua inseparável rabeca, humanizada por ele para que seja sua interlocutora e o salve da abissal solidão de órfão. O que lhe responde a rabeca quando ele conversa com ela? Essa pergunta guiou meus passos para a liberação da subjetividade do público em matéria que realizei na cobertura que fiz para o Aplauso Brasil durante o FIT.
Em meu último artigo para o Jornal de Teatro dissertei sobre as obsessões de Nelson Rodrigues, um de nossos mais importantes dramaturgos, e ressaltei a obsessão de duas protagonistas suas – Moema, de “Senhora dos Afogados”, e Zulmira, de “A Falecida” – que, além dos caracteres obsessivos que carregam em suas trajetórias, são objetos diretos de duas recentes incursões ao universo do dramaturgo. Na versão que marcou a estreia paulista de “A Falecida Vapt-Vupt”, o Grupo Macunaíma – CPT Sesc, dirigido por Antunes Filho, trouxe um Antunes “mais solar”, segundo pontuou o ator Lee Thalor, desenvolto e com abundância de talento na pele de Tuninho, marido de Zulmira diametralmente oposto, enfim, ao soturno e mítico de “Senhora dos Afogados”. Em “A Falecida Vapt-Vupt”, o tempo lento e os gestuais expressionistas, a recordar uma coreografia de butô, são substituídos pela dinâmica proposta pelo texto sincopado e direto de Nelson Rodrigues. Segundo o ator Erick Gallani, também assistente de direção da montagem, o universo da vídeo-arte inspirou o trabalho, tanto em sua acelerada dinâmica quanto em sua estrutura estética em que figurantes sentados em mesas de bar, formando o cenário, ruídos de espaços públicos, música ambiente, são camadas que exigem do público “outras formas de percepção”, como disse o ator Lee Thalor. É um modelo exemplar daqueles espetáculos que Jorge Vermelho aponta como passível de amor e ódio. O estranhamento e confusão exigem que fiquemos mais atentos, daí ou abrimos nosso receptáculo à peça ou nos entregamos ao tédio de quem busca o sofisticado, sem permitir que ele abrigue o simples.


A delicadeza mora
no Rio de Janeiro
Dois espetáculos cariocas, “In On It” e “Inveja dos Anjos”, são tenros exemplares do minimalismo dentro do teatro em busca da delicadeza. Enrique Diaz e Paulo Moraes, respectivamente diretores de “In On It” e “ Inveja dos Anjos”, enfocam o trabalho na força poética da interpretação dos atores, para os quais interpretar com naturalidade nada tem de compromisso com o pseudorrealismo, tão mal compreendido por quem estuda Stanislavski via método e não sistema.


Rainhas,
atores, atrizes
Outros dois espetáculos que não podemos deixar de mencionar, devido suas qualidades e adequações ao tema do FIT, são “Neva”, do Chile, e “Rainha [(S)] – Duas Atrizes em Busca de um Coração”, que mesclam ficção e verdade com maestria, tocando, ambos, no ofício do ator como objeto da realidade.

* Michel Fernandes é jornalista cultural, crítico e pesquisador de teatro. Editor do www.aplausobrasil.com.br

 

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